MESTRES
DA LITERATURA BRASILEIRA
E PORTUGUESA
GRACILIANO
RAMOS
Angstia
'@
RIO DE JANEIRO  SO PAULO
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se
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julgo que ainda no me restabeleci completamente.
Das vises que me perseguiam naquelas noites compri-
das umas sombras permanecem, sombras que se mis-
turam  realidade e me produzem calafrios.
H criaturas que no suporto. Os vagabundos, por
exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, apro-
ximando-se de mim, no vo gemer peditrios: vo
gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.
Certos lugares que me davam prazer tornaram-se
odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com des
gosto as vitrinas, tenho a impresso de que se acham
ali pessoas. exibindo tftulos e preos nos rostos, ven-
dendo-se. E uma espcie de prostituio. Um sujeito
chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando
o beio, naqueles desconhecidos que se amontoam por
detrs do vidro. Outro larga uma opinio -toa. Bas-
baques escutam, saem. E os autores, resignados, mos-
tram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as
mulheres da Rua da La.ma.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas
mos, que emagreceram. As mos j no so minhas:
so mos de velho, fracas e inteis. As escoriaes das
palmas cicatrizaram.
Impossivel trabalhar. Do-me um oficio, um re-
latrio, para datilografar, na repartio. At dez linhas
vou bem. Daf em diante a cara balofa de Julio Tava-
res aparece em cima do original, e os meus dedos en-
Contram no teclado uma resistncia mole de carne
gorda. E l vem o erro. Tento vencer a obsesso, ca
pricho em no usar a borracha. Concluo o trabalho,
#
mas a resma de papel fica muito reduzida.
?
A noite fecho as portas, sento-me  mesa da sala
de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio
longe do artigo que me pediram para o jornal.
Vitria resmunga na cozinha, ratos famintos reme-
xem latas e embrulhos no guarda-comidas, automveis
roncam na rua.
Em duas horas escrevo uma palavra: Marina
Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisa,
absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte
nomes. Quando no consigo formar combinaes novas
trao rabiscos que representam uma espada, uma lira
uma cabea de mulher e outros disparates. Penso err
indivduos e em objetos que no tm relao com o:
desenhos: processos, oramentos, o diretor, o secret
rio, polticos, sujeitos remediados que me desprezan
porque sou um pobre-diabo.
Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando no
cafs e preguiando, indecentes. Quando avisto essa
cambada, encolho-me, colo-me s paredes como un
rato assustado. Como um rato, exatamente. Fzjo do
negociantes que soltam gargalhadas enormes, discuten
poltica e putaria.
No posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouvei
aperta-me com bilhetes de cobrana. Bilhetes intei:
mas dr. Gouveia no compreende is.to. H tambr
o homem da luz, o Moiss das prestaes, uma promi.
sria de quinhentos mil-ris, j reformulada. E coisa
piores, muito piores.
O artigo que me pediram afasta-se do papel.  ve:
dade que tenho o cigarro e tenho o lcool, mas quand
bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresc
Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatemp
estpido.
Dr. Gouveia  um monstro. Comps, no quint
ano, duas colunas que publicou por dinheiro na sec
livre de um jornal ordinrio. Meteu esse trabalhinh
num caixilho dourado e pregou-o na parede, por cim
do bureau. Est cheio de erros e pastis. Mas dr. Go
veia no os sente. O esprito dele no tem ambie
Dr. Gouveia s se ocupa com o temporal: a renda da
propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.
8
No consigo escrever. Dinhefro e propriedades, que
me do sempre desejos violentos de mortandade e ou-
tras destruies, as duas colunas mal impressas, caixi-
lho, dr. Gouveia, Moiss, homem da luz, negociantes,
polfticos, diretor e secretrio, tudo se move na minha
cabea, como um bando de vermes, em cima de uma
coisa amarela, gorda e mole que , reparando-se bem,
a cara balofa de Julio Tavares mufto aumentada.
Essas sombras se arrastam com lentido viscosa, mis-
turando-se, formando um novelo confuso.
Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico
tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os
desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, at
que deixo no papel alguns borres compridos, umas
tarjas muito pretas.
* * *
Se pudesse, abandonaria tudo e recomearia as
minhas viagens. Esta vida montona, agarrada  banca
das nove horas ao meio-dia e das duas s cinco,  est
pida. Vida de sururu. Estpida. Quando a repartio
se fecha, arrasto-me at o relgio oficial, meto-me no
primeiro bonde de Ponta-da Terra.
Que estar fazendo Marina? Procuro afastar de
mim essa criatura. Uma viagem, embria.guez, suicdio. . .
Peno no meu cadver, magrfssimo, com os dentes
arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem cas-
#
ca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo
Os conhecidos diro que eu era um bom tipo e con-
duziro para o cemitrio, num caixo barato, a minha
Carcaa meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem
as alas, revezando-se no mister piedoso e cacete de
Carregar defunto pobre, procuraro saber quem ser
o meu substituto na Diretoria da Fazenda.
Enxoto as imagens lgubres. Vo e voltam, sem
vergonha, e com elas a lembrana de Julio Tavares.
Intolervel. Esforo-me por desviar o pensamento des-
sas coisas. No sou um rato, no quero ser um rato.
Tento distrair-me olhando a rua.
A medida que o carro se afasta do centro sinto
que me vou desanuviando. Tenho a sensao de que
9
viajo para muito longe e no voltarei nunca. Do lad
esquerdo so as casas da gente rica, dos homens qu
me amedrontam, das mulheres que usam peles de cor
tos de ris, Diante delas, Marina  uma ratufna. D
lado direito, navios. As vezes h diversos ancorado;
Rolam bondes para a cidade, que est invisvel, l er
cima, distante. Vida de sururu.
H quinze anos era diferente. O barulho dos bonde
n,o deixava a gente ouvir o sino da igreja. O me
quarto, no primeiro andar, era um inferno de calo
Por isso,  hora em que os outros hspedes iam par
a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Pa:
seio Pblico e lia, debaixo das rvores, o noticirio d
polfcia. Naturalmente a penso se fechou e d. Aurorf
que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui tambm  grande demais. E faltar
plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros m
cambzios, perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O meu quart
ficava junto  escada, e  noite o cheiro do gs er
insuportvel. Quando escurecia, Dagoberto, estudant
e reprter, vinha despejar sobre a minha cama uI
compndio de anatomia e uma cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro misE
rvel, casas de paIha, crianas doentes. Barcos de pe;
cadores, as chamins dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome ingls, s sei
horas encostava-se ao guarda-roupa e rosnava, agitav
os caracis brancos, pregava os culos nos hspedE
que comiam demais e nos que estavam em atras
Havia um rapaz de Minas, dispptico, que ela adorav
e queria casar com a neta. Enquanto os outros mast
gavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre c
discursos da Cmara.
Retorno  cidade. Os globos opalinos do Ater
iluminam o gramado murcho e a praia branca. C
coqueiros empertgados ficam para trs. Penso nuxr
ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navu
tambm ficam para trs. A penso, o meu quarto ab
fado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos
Dagoberto somem-se.
10
O carro passa pelos lundos do tesouro. E ali que
trabalho. Ocupao estpida e quinhentos mil-ris de
ordenado.
Rua do Comrcio. L esto os grupos que me des-
gostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre
at os Martrios encontro umas vinte. Distraio-me,
esqueo Marina, que algumas ruas apenas separam
de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora
no vejo os navios, a recordao da cidade grande
desapareceu completamente. O bonde roda para oeste,
dirge-se ao interior. Tenho a impresso de que ele me
vai levar ao meu municipio sertanejo. E nem percebo
os casebres miserveis que trepam o morro,  direi-
#
ta, os palacetes que tm os ps na lama, junto ao
mangue,  esquerda. Quanto mais me aproximo de Be-
bedouro mais remoo. Marina, Julio Tavares, as apo-
quentaes que tenho experimentado estes ltimos
tempos, nunca existiram.
Volto a ser criana, revejo a figura de meu av,
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que
alcancei velhssimo. Os negcios na fazenda andavam
mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva,
fIcava dias inteiros manzanzando numa rede armada
nos esteios do copiar, cortando palha de milho para
cigarros, lendo o Cczrtos Magno, sonhando com a vit-
ria do partido que padre Incio chefiava. Dez ou doze
reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, enver-
gavam o espinhao e comiam o mandacaru que Amar
ro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os
moures do curral e as lnhas da casa. No chiqueiro
alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia
deba,ixo das catingueiras sem folhas. Tinham amar-
rado no pescoo da cachorra Maqueca um rosrio de
sabugos de milho queimados. Quitria, na cozinha,
mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles
de fumo no carit.
Eu andava no ptio, arrastando um chocalho,
brincando de boi. Mnha av, sinha Germana, passava
os dias falando s, xingando as escravas, que no exis-
tiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva
tomava pileques tremendos. As vezes subia  vila, des-
composto, um camiso vermelho por cima da ceroula
II
de algodo encaroado, chapu de ouricuri, alpercata
e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestr
Domingos, que hava sdo escravo dele e agora possuf
venda sortida, encontrava o antigo senhor escoraido m
balco de Teotoninho Sabi, bebendo cachaa e jo
gando trs-setes com os soldados. O preto era un
sujeto perfetamente respeftvel. Em horas de solen:
dade usava sobrecasaca de chita, corrento de our
atravessado de um bolso a outro do colete, chinelo
de trana, por causa dos calos, que no agentavan
sapatos. Por baixo do chapu duro, a testa retinta
mda de suor, brilhava como um espelho. Pois, ape
sar de tantas vantagens, mestre Domingos, quand
vfa meu av naquela desordem, dava-lhe o brao, leva
va-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amonfacc
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomi
tava na sobrecasaca de mestre Domingos e grtava:
- Negro, tu no respeitas teu senhor no, negro
Quando o carro pra, essas sombras antigas desa
parecem de supeto - e vejo coisas que no me exci
tam nenhum interesse: os focos da iluminao pbl:
ca, espaados, cochilando, pongos, to pongos com
luzes de cemitrio; um palcio transformado em al
bergue de vagabundos; escurides, capoeiras, barrefra
cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fbric,
de tecidos; e, de Ionge em longe, atravs de ramagen:
pedaos de mangue, cinzentos. A medida que no
aproximamos do fim da linha as paradas so meno
freqentes. Os postes cintados de branco passam cor
rendo, o carro est quase vazio, as recordaes da mi
nha infnca precipitam-se. E a decadncia de Trajan
Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-s
tambm.
Estava pegando um sculo quando entrou a c:
ducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-,
todo, contava os dedos dos ps e caa na madorn;
De repente acordava sobressaltado:
- Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaquE
ro, deixava a rede, impaciente:
#
Que  que h?
12
- Homem, voc no me dir onde est sua me?
Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
- Morreu.
- Que est me dizendo? estranhava o velho arr
galando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
- Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.
- Tanto tempo! dizia Trajano. E vocs calados. . .
- Punha-se a folgar com os dedos e pegava no
sono. Quinze minutos depois estava berrando:
- Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que no queria ter
fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que
nossa famlia tinha no cemitrio da vila. Mestre Do-
mingos pegou na ala do caixo e declarou a meu pai
que a morte  um mundu. Fomos morar na vila. Me-
teram-me na escola de seu Antnio Justino, para desas-
nar, pois, como disse Camilo quando me apresentou
ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e no conhe-
cia a mo direita. Aprendi leitura, o catecismo, a con-
jugao dos verbos. O professor dormia durante as
lies. E a gente bocejava olhando as paredes, espe-
rando que uma rstia chegasse ao risco de lpis que
marcava duas horas. Saamos em algazarra. Eu ia
jogar pio, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre
brnquei s.
* * *
Uma chuvinha renitente aoita as folhas da man-
guefra que ensombra o fundo do meu quintal, a gua
empapa o cho, mole como terra de cemitrio, qual-
quer coisa desagradvel persegue-me sem se fixar cla-
ramente no meu esprito. Sinto-me aborrecido, aper-
reado
Debaixo da chuva azucrinante, espcie de neblina
pegajosa, a mangueira do quintal e as roseiras da casa
vizinha esto quase invisveis.
Emendo um artigo que Pimentel me pediu, artigo
feito contra vontade, s para no descontentar Pi-
mentel. Felizmente a idia do livro que me persegue
s vezes dias e dias desapareceu.
13
Penso em mestre Domingos, no velho Trajano, em
meu pai. No sei porque mexi com eles, to remotos,
dilufdos em tantos anos de separao. No tm ne-
nhuma relao com as pessoas e as coisas que me
cercam.
Releio com desgosto o artigo que vou dar a Pi-
mentel.
Os defuntos antigos me importunam. Deve ser por
causa da chuva. Nos meses compridos daqueles in-
vernos de serra mutas vezes fiquei tardes inteiras sen-
tado  porta da nossa casa na vila, olhando a rua que
desaparecia aebaixo de um lenol branco de gua
em p. Os chuviscos entravam pela sala, os mveis e a
roupa da gente pareciam cobrir-se de pontinhas de
alfinetes. De tempos a tempos um vulto embuado
passava na calada. O velho Acrsio, de cachimbo na
boca, chegava  janela para conversar com meu pai.
No entrava: dava umas notfcias, esfregando as mos,
agentando aqueles pinguinhos que no molhavam,
apenas lhe umedeciam o capote e o cachen de l ver-
melha.
Agora a chuva  um pouco diferente, o nevoeira
menos denso. De longe em longe a gua bate no te
lhado com fora, depois continua a peneira que oculta
o jardim da casa vizinna.
Se Marina tivesse a idia de se banhar ali quela
hora da tarde, eu no lhe veria o corno. Talvez visse
#
apenas uma sombra, como acontece n cinema quandc
se apresentam mulheres nuas. Este pensamento esqui
sito - Marina despida, arrepiada, coberta de caroci
nhos - bole comigo durante alguns minutos.
Gostava de me lavar assim quando era menino
A trovoada ainda roncava no cu, e i me preparava
As vezes a preparao durava trs dias. O trovo rolavs
por este mundo, os relmpagos sucediam-se com fria
Quitria encafuava-se, oferecia peles de fumo a Santf
Clara, escondia a cabea debaixo das cobertas e gri
tava: - "Misericrdial "; meu pai largava o romance
nervoso; Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e SilvF
chamava sinha Germana, que tnha morrido. Quandc
o aguaceiro chegava, o couro cru da cama do velhc
Trajano virava mingau, tanta goteira havia; a redi
14
suja de Camilo fedia a bode; os bichos da fazenda
vinham abrigar-se no copiar; o cho de terra batida
ficava todo coberto de excremento.
Eu tirava as alpercatas, arrancava do corpo a ca-
misinha de algodo encardida, agarrava um cabo de
vassoura, fazia dele um cavalo e saa pinoteando, pe-
rer, perer, perer, at o fim do ptio, onde havia
trs ps de ju. Repetia o exercicio, cheio de alegria
doida, e gritava para os animais do curral, que se lava-
ram como eu. Fatigado, saltava no lombo do cavalo '
de fbrica, velho e lazarento, galopava at o Ipanema
e cafa no poo da Pedra. As cobras tomavam banho
com a gente, mas dentro da gua no mordiam.
O poo da Pedra era uma piscina enorme. Antes
de entrar nela, o Ipanema tinha dois metros de lar-
gura e arrastava-se debaixo dos garranchos de algu-
mas quixabeiras sem folhas.
Quando eu ainda n.o sabfa nadar, meu paf me
levava para ali, segurava-me um brao e atirava-me
num lugar fundo. Puxava-me para cima e deixava-me
respirar um instante. Em seguida repetia a tortura.
Com o correr do tempo aprendi natao com os biehos
e livrei-me disso. Mais tarde, na escola de mestre An-
t8nfo Justino, lf a histria de um pintor e de um
cachorro que morria afogado. Pois para mim era no
poo da Pedra que se dava o desastre. Sempre imagi
nei o pintor com a cara de Camilo Pereira da Silva,
e o cachorro parecia-se comigo.
Se eu pudesse fazer o mesmo com Marina, afog-la
devagar, trazendo-a para a superffcie quando ela estf-
resse perdendo o flego, prolongar o suplicfo um dia
inteiro . . .
Debaixo da chuva, a manguefra do quintal est
toda branca. O papagaio na cozinha bate as asas, sa-
cudindo os salpicos que vm da biqueira. Afago o plo
macio do meu gato mourisco, que dorme enroscado
numa cadeira. As idias ruins desaparecem. Marina
desaparece.
Ponho-me a vagabundear em pensamento pela vila
distante, entro na igreja, escuto os sermes e os desa-
foros que padre Incio pregava aos matutos: - Ar
reda, povo, raa de cachorro com porco." Sento-me no
15
paredo do aude, ouo a cantilena dos sapos. Vejo
a figura sinistra de seu Evaristo enforcado e os ho-
mens que iam para a cadeia amarrados de cordas.
Lembro-me de um fato, de outro fato anterior ou
posterior ao primeiro, mas os dos vm juntos. E os
tipos que evoco no tm relevo. Tudo empastado, con
fuso. Em seguida os dois acontecimentos se distanciam
e entre eles nascem outros acontecimentos que vo
crescendo at me darem sofrfvel noco de realidade,
As feies das pessoas ganham nitidez. De toda aquela
vida havia no meu esprito vagos indcios. Saram da
#
entorpecimento recordaes que a imaginao com
pletou.
A escola era triste. Mas, durante as lies, em p;
de braos cruzados, escutando as emboanas de mestre
Antnio Justino, eu via, no outro lado da rua, uma
casa que tinha sempre a porta escancarada mostrandc
a sala, o corredor e o quintal cheio de roseiras. Mora
vam ali trs mulheres velhas que pareciam formigas.
Havia rosas em todo o canto. Os trastes cobriam-se de
grandes manchas vermelhas. Enquanto uma das for
migas, de mangas arregaadas, remexia a terra do jar
dm, podava, regava, as outras andavam atarefadas
carregando braadas de rosas.
Daqui tambm se vem algumas roseiras maltrata
das no quintal da casa vizinha. Foi entre essas planta;
que, no comeo do ano passado, avistei Marina pelE
primeira vez, suada, os cabelos pegando fogo.
L esto novamente gritando os meus desejos. Ca
lam-se acovardados, tornam-se inofensivos, transfor
mam-se, correm para a vila recomposta. Um arrepu
atravessa-me a espinha, inteiria-me os dedos sobre i
papel. Naturalmente so os desejos que fazem isto, ma
atribuo a coisa  chuva que bate no telhado e  recor
dao daquela peneira ranzinza que descia do cu dia
e dias.
Meu pai cochilava, encostado ao balco. Na salet
da nossa casa, por detrs da bodega, eu recordava a
lies, entorpecido. Enfiando os olhos pela janela, vi
na rua o meu vizinho Joaquim Sabi, de ccoras, fazen
do construes com areia molhada. Havia um grand
silncio, um silncio incmodo. As vezes punha-me
is
tossir, para me convencer de que no tinha ficado surdo.
Era como se a gente houvesse deixado a Terra. De re-
pente surgiam vozes estranhas. Que eram? Ainda hoje
no sef. Vozes que iam crescendo, montonas, e me cau-
sa.vam medo. Um alarido, um queixume, clamor enor-
me, sempre no mesmo tom. As ruas enchiam-se, s sa-
leta enchia-se - e eu tinha a impresso de que o brado
lastimoso saa das paredes, safa dos mveis. Fechava os
ouvidos para no perceber aquilo: as vozes continua
vam, cada vez mais fortes. Que seriam? Tentava desco-
brir a causa do extraordinrio lamento. Supunha que
eram patos gritando, embora nunca tivesse ouvido a voz
dos patos. Tambm me inclinava a admitir que fossem
sapos. Mas os sapos do aude da Penha cantavam de
outra forma. No podiam ser sapos. A verdade  que
muitas vezes perguntef a mim mesmo se realmente ouvia
aquele barulho grande, diferente dos outros barulhos.
Perguntei naquele tempo ou perguntei depois? No sei.
Tenho-me esforado por tornar-me criana - e em con-
seqncia misturo cofsas atuais a cofsas antigas.
* * *
Penso na morte de meu pai. Quando voltef da es-
cola, ele estava estirado num marqueso, coberto com
um lenol branco que Ihe escondfa o corpo todo at
a cabea. S ficavam expostos os ps, que iam alm de
uma das pontas do marqueso, pequeno para o defunto
enorme. Muitas pessoas se tinham tornado donas da
casa: Rosenda lavadeira, padre Incio, cabo Jos da
Luz, o velho Acrisio.
Fuf sentar-me numa prensa de farinha que havla
no fundo do nosso quintal. Tentei chorar, mas no
tinha vontade de chorar. Estava espantado, imaginando
a vida que ia suportar, sozinho neste mundo. Sentia
irfo e pena de mim mesmo. A casa era dos outros,
o defunto era dos outros. Eu estava ali como um bichi-
nho abandonado, encolhido na prensa que apodrecfa.
Ouvia o barulho de um descaroador de algodo, pr-
atmo, no Cavalo-Morto. E via o corredor da nossa casa
#
por onde passavam a batina de padre Incio, a fard
1
de cabo Jos da Luz, o vestido vermelho de R.osenda
e o capote do velho Acrfsio.
Que ia ser de mim, solto no mundo? Pensava nos
ps de Camilo Pereira da Silva, sujos, com tendes da
grossura de um dedo, cheios de ns, as unhas roxas,
Eram magros, ossudos, enormes. O resto do corpo es
tava debaixo do lenol branco, que fazia um vincc
entre as pernas compridas. Eu no podfa ter saudade
daqueles ps horrveis, cheios de calos e joanetes. Pra
curava chorar - lembrava-me dos mergulhos no poc
da Pedra, das primeiras lies do alfabeto, que me ren
diam cocorotes e bolos. Desejava em vo sentir a morte
de meu pai. Tudo aquilo era desagradvel. - "Istc
 um cavalo ae dez anos e n,o conhece a mo di
reita."
Agora eu tinha catorze, conhecfa a mo direit2
e os verbos
Voltei  sala9 nas pontas dos ps. Ningum mi
viu. Camilo Pereira da Silva continuava escondido de
baixo do pano branco, que apresentava no lugar da
cara uma ndoa vermelha coberta de moscas. Rosendf
queimava alfazema num caco de telha. Seu Acrfsio n
servia para nada. Era impossfvel saber onde se fixavf
0 olho de padre Incio, duro, de vidro, imvel na rbi
ta escura. Ningum me vfu. Fiquei num canto, roendi
as unhas, olhando os ps do finado, compridos, chatos
amarelos.
Sempre abafando os passos, dirigf-me novament
ao fundo do quintal, com medo daquela gente que nen
me havfa mandado buscar  escola para assistir 
morte de meu paf. At a preta Quitria se esquecer
de mim. Ao passar pela cozinha, encontrei-a mexend
nas panelas e lastimando-se. Sentei-me na prensa, can
sado, o estmago doendo. Que iria fazer por af  toa
mido, to mido que ningum me via? Encostei-m
ao muro, escorreguei por cima da madeira bichad
a.dormecf pensando nos mergulhos do poo da Pedrs
nos bolos e nos ps de Camilo Pereira da Silva. E, en
quanto dormia, ouvfa a cantiga dos sapos no aud
da Penha, o burburinho dos intrusos que se acavala
vam no corredor, o barulho do descaroador de algc
do no Cavalo-Morto. Vozes chegavam-me, confusas,
18
eu no conseguia apreender o sentido delas. Vises tam-
bm. Via a casa da fazenda, arruinada, os bichos defi-
nhando na morrinha, o chiqueiro bodejando, relm-
pagos cortando o cu. A chuva caa, eu andava pelo
ptio, nu, montado num cabo de vassoura. Quem me
acordou foi Rosenda, que me trazia uma xcara de
caf.
- Muito obrigado, Rosenda.
E comecei a soluar como um desgraado.
Desde esse dia tenho recebido muito coice. Tam-
bm me apareceram alguns sujeitos que me fizeram
favores. Mas at hoje, que me lembre, nada me sensi-
bilizou tanto como aquele brao estirado, aquela fala
mansa que me despertava.
- Obrigado, Rosenda.
Iam levando o cadver de Camilo Pereira da Silva.
Corri para a sala, chorando. Na verdade chorava por
causa da xcara de caf de Rosenda, mas consegui en-
ganar-me e evitei remorsos.
Na casa escura, cheia das lamentaes de Quitria,
no encontrei sossego. Adormeci pela madrugada.
No dia seguinte os credores passaram os gada-
nhos no que acharam. Tipos desconhecidos entravam
na loja, mediam peas de pano. Chegavam de chapu
na cabea, cigarro no bico, invadiam os quartos, pra-
#
guejavam. Enterrar os mortos, obra de misericrdia.
0 morto estava enterrado. Padre Incio e os outros
sumiram-se. E os homens batiam os ps com fora,
levavam ,as mercadorias, levavam os mveis, nem me
olhavam, nem olhavam Quitria, que se encolhia ge-
mendo "Misericrdia! ", como quando o trovo rolava
no cu e os bichos iam abrigar-se no copiar da fazenda.
Passei a noite a um canto da sala de jantar, numa
ede encardida, a cabea debaixo do cobertor, com
medo da alma de Camilo Pereira da Silva. Pensava na
rede armada no copiar, no poo da Pedra, no ptio
branco onde se arrastavam cascavis e jararacas. Aqui-
lo agora tinha outro dono. O cupim continuava a roer
os moures do curral e os caibros da casa, o carro de
bois apodrecia sob as catingueiras, os bichos bodeja-
vam no chiqueiro. Mas a sombra do velho Trajano no
brincava com os dedos dos ps, Amaro vaqueiro no
19
cortava mandacaru para o gado, a cachorra Moquec
tinha morrido, Camilo Pereira da 8ilva no foiheav
o romance.
Que estaria fazendo a alma de Camilo Perera d
Silva? Provavelmente rondava a casa, entrava pela
portas fechadas, olhava as prateleiras vazias. As outra
almas mais antigas, Trajano, seu Evaristo, sinh Cle
mana, n,o me atemorizavam; mas aquela, to prx
ma, ainda agarrada ao corpo, dava-me tremuras. iJ suo
corria-me pelo rosto. Como estariam os ps de (amil
Pereira da Silva? Certamente estavam inchados, ve
des, com pedaos ficando pretos.
* * *
Seu Ivo, silencioso e faminto, vem visitar-rrde. Fs
agrados ao gato e ao papagaio, entende-se com Vitr;
e arranja um osso na cozinha. No quero v-lo, baiz
os olhos para no v-lo.
Fico de p, encostado  mesa da sala de y anta
olhando a janela, a porta aberta, os degraus de cime
to que do para o quintal. tgua estagnada, lixo, o ca
teiro de alfaces amarelas, a sombra da manguei.;a. Pi
cima do muro baixo ao fundo vem-se pipas, nont
de cisco e cacos de vidro, um homem triste que encl
dornas sob um telheiro, uma mulher magra que la
garrafas.
Seu Ivo est invisivel. Ouo a voz spera de Vitr
e isto me desagrada. Entro no quarto, procuro u
refgio no passado. Mas no me posso esconder intt
ramente nele. No sou o que era naquele temp
Falta-me tranqilidade, falta-me inocncia, estou fei
um molambo que a cidade puiu demais e sujou.
Fumo. Assisto a uma discusso do barbeira And
Laerte com o negociante Filipe Benigno. As palavr
me chegam quase apagadas, destituidas de senso. E pr
vvel que no digam nada. Filipe Benigno  u n pom
nebuloso : s percebo dele claramente as barbas bra
cas e os olhos midos. Mas a figura de Andr Laer
tem bastante nitidez. Parece um gato: anda er i red
do outro como se estivesse preparando um salo pa
agarr-lo. Tem um avental manchado de sang;ze, u
20
bigodinho ralo e faz "Pfu!" Seu Batista, vestdo em
robe-de-chambre, passeia na calada, com as mos atrs
das costas. D. Conceio, mulher de Teotoninho Sabi,
prepara milho para o xerm. Carcar solta gargalha-
das que se ouvem na outra extremidade da rua. O dou-
tor juiz de direito conta ao vigrio histrias de onas
e jacars do Amazonas. Cabo Jos da Luz,  porta do
quartel, espalha tristezas:
Assentei praa Na polcia eu vivo
Por ser amigo da distinta farda...
O sino da igrejinha bate a primeira pancada das
#
ave-marias.
No, no  o sino da igreja,  o relgio da sala de
jantar. Oito e meia. Preciso vestir-me depressaw chegar
 repartio s nove horas. Apronto-me, calo as meias
pelo avesso e saio correndo. Paro sobressaltado, tenho
a impresso de que me faltam peas do vesturio.
Assaltam-me dvidas idotas. Estarei  porta de casa
ou j terei chegado  repartio? Em que ponto do
trajeto me acho? No tenho conscnca dos movmen-
tos, sinto-me leve. Ignoro quanto tempo fco assim.
Provavelmente um segundo, mas um segundo que pa-
rece eternidade. Est claro que todo o desarranjo 
interior. Por fora devo ser um cidado como os outros,
um diminuto cidado que vai para o trabalho maador,
um Lus da Silva qualquer. Mexo-me, atravesso a rua
a grandes pernadas.
Tenho contudo a impresso de que os transeuntes
me olham espantados por eu estar mvel.
Tmvel. Camilo Pereira da Silva tambm estava
imvel, debaixo da terra. D. Conceio vinha ofere-
cer-me comida. As meninas dela, d. Maria e Teresa,
tentavam consolar-me. Retraa-me como um animal
acuado, fechava os ouvidos s consolaes, cerrava os
olhos, apalpava a cabea e sentia a dureza de ossos,
dava estalos com os dedos e ouvia o som de ossos.
- Obrigado, muito obrigado.
No precisava de nada. Os ossos de Camilo Pereira
da Silva desconjuntavam-se na podrdo da cova, e a
alma j n,o me fazia medo. Era uma alma que enve
22
lhecia e estava fora da terra, provavelmente no purga
trio. Quitria rezava alto na cozinha:
- Ofereo este padre-nosso e esta ave-maria s
almas do purgatrio.
Era l que devia estacionar uma parte de meu pai,
curando uns restos de pecados. Leves pecados. Apenas
muita preguia. Por isso eu agentava fome e ouvia
&Q lamentaes de Quitria.
Para que banda ficaria o purgatrio? Seu Antnio
Justino no sabia. Nem eu. Sabia onde ficavam o Rio
de Janeiro, So Paulo, Minas, lugares que me atrafam,
que atraem a minha raa vagabunda e queimada pela
seca. Resolvi desertar para uma dessas terras distantes.
Abandonei a vila, com uma trouxa debaixo do brao
e os livros da escola. - "Adeus, d. Conceio. Muito
obrigado pela comida com que me matou a fome.
Adeus, Joaquim Sabi, d. Maria, Teresa. Adeus, Quit-
ria, Rosenda, cabo Jos da Luz." E comecei a andar
lenta.mente pelo caminho estreito, afastando-me da
vila adormecida.
Comeo a andar depressa, receando encontrar o
ponto encerrado. Tolice. Provavelmente tudo aquilo se
passou num segundo. Tenho a impresso de que uma
objetiva me pegou, num instantneo. Ficarei assim
,
com a perna erguida, a pasta debaixo do brao, o cha-
pu embicado.
Lufs da Silva, a caminho da repartio, lesando.
pensando em defuntos.
i ;
Este ms ffz um sacriffcio: def uns dinheiros ao
Moiss das prestaes para amortizar a minha conta.
Dr. Gouveia h de ter pacincia: espera mais uns dias.
Deixarei de andar pela Rua do Sol para no encon-
tr-lo. O que no posso  continuar a esconder-me de
Moiss. Escondo-me, estive algumas semanas sem ir
ao caf, com receio de ver o judeu. E gosto do caf,
passo l uma hora por dia, olhando as caras.
H o grupo dos mdicos, o dos advogados, o dos
comerciantes, o dos funcionrios pblicos, o dos litera-
#
tos. Certos indivfduos pertencem a mais de um grupo,
23
outros circulam, procurando familfaridades provefto
sas. Naquele espao de dez metros formam-se vria;
sociedades com caracteres perfeitamente definidos, mui
to distanciadas. A mesa a que me sento fica ao p da
vitrina dos cigarros.  um lugar incmodo: as pessoa;
que entram e as que saem empurram-me as pernas
Contudo no poderia sentar-me dois passos adiante
porque s seis horas da tarde esto l os desembar
gadores. E agradvel observar aquela gente. Com uma
despesa de dos tostes, passo al uma hora, encolhdc
junto  porta, distraind-me.
Pois-ultimamente precisef renuncfar ao caf, po
causa de Moiss. Ele tambm se esquivava. Ii dia;
deu de cara comigo ao dobrar uma esquina e empalf
deceu, balbuciou na sua lingua avariada:
- Ol! Como vai? Estou com muita pressa.
 um pssimo cobrador. Dei-lhe este ms cem mil
ris para pr termo a esses vexames, Mas ainda devc
muito, nem sei quanto. A culpa  minha. Quando m
vendeu as fazendas, Moiss foi franco:
- Isto  caro como o diabo. Voc faz melhor ne
gcio comprando a dinheiro noutra loja.
Mas eu estava na pindaba e precisava adquirir o;
trapos para Marina. Desde ento venho suando parf
reduzir o dbito. Quando me atraso, Moiss foge d
mim. Agora, depois de receber o cobre, declarou-mi
que as mercadorias j tinham sido pagas. Infelizment
no me podia dar quitao, porque os troos que vendi
so do tio, judeu verdadeiro.
- Est muito bem.
E o constrangimento desapareceu. As sefs hora
estamos de novo sentados junto  vitrina dos cigarro
Moiss fala com abundncia, desforrando-se do siln
cio em que estivemos ultimamente. Procura a expre,
so, coa a testa, franze os beios numa careta qu
lhe mostra os dentes largos e diz:
- Est percebendo?
Sim, percebo, embora ele tenha sintaxe medonh
e pronncia incrfvel. Faz rodeios fatigantes, deturpa
sentido das palavras e usa esdrxulas de maneira ir
sensata. Escuto-o. Os ouvdos so para ele, os olhc
para as figuras habituais do caf. Os olhos esto qua
24
invisfveis por baixo da aba do chapu, e uma folha
da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insigni-
ficante, um percevejo social, acanhado, encolhido para
no ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.
Perto um capitalista fala muito alto, e os cotov
los sobre o mrmore do-lhe na sala estreita espao
excessivo. No grupo da justia as palavras tombam
medidas, pesadas, e os gestos so lentos. Alm, dois
polticos cochicham e olham para os lados.
Moiss comenta o jornal. Nunca vi ningum ler
com tanta rapidez. Percorre as colunas com o dedo
e pra no ponto que lhe interessa. Engrola, saltando
linhas, a.quela prosa em lfngua estranha, relaciona o
contedo com leituras anteriores e passa adiante. E um
dedo inteligente o do Moiss. O resto do corpo tem
pouca importncia; os ombros estreitos, a corcunda,
os dertes que se mostram num sorriso parado. O que
a gente nota  o dedo. O dedo e a voz sibilada, des-
contente, sempre a anunciar desgraas. Moiss  uma
coruja. Acha que tudo vai acabar, tudo, a comear
pelo tio, que esfola os fregueses. E eu acredito em
Moiss, que no escora as suas opinies com a palavra
do Senhor, como os antigos: cita livros, argumenta.
Prega a revoluo, baixinho, e tem os bolsos cheios de
folhetos incendirios.
#
De repente cala-se: foi o doutor chefe de policia
que apareceu e comeou a cochichar com os polfticos.
0 dedo de Moiss some-se entre as folhas do jornal,
o revolucionrio esconde-se por detrs do sorriso inex-
pressivo. Covardia. Mas afasto este pensamento severo.
Moiss no tem jeito de heri:  apenas um sujeito
bom e inteligente. Por isso fiz o sacrificio de lhe dar
oem mil-ris, que me vo transtornar o oramento.
Estava to abandonado neste deserto. . . S se diri-
giam a mim para dar ordens:
- Seu Lus,  bom modificar esta informa,o.
Corrija isto, seu Lus.
Fora da, o silncio, a indiferena. Agradavam-me
os passageiros que mP pisavam os ps, nos bondes,
e se voltavam, atenciosos:
- Perdo, perdo. Faz favor de desculpar.
- Sem dvida. Ora essa.
25
Ou ento:
- Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua
do Apolo?
- Perfeftamente, minha senhora. Vamos para l
 o meu caminho.
Agora estou defronte de um amigo, amigo que mf
liga pouca import,ncia,  verdade, amigo todo entre
gue aos telegramas estrangefros, mas que me custou
cem mil-ris. Parece-me que at certo ponto Mois:
 propriedade minha. Os cem mil-rfs me vo faze
muita falta.
Estremeo : dr. Cfouvefa entra na sala, marchs
para a vitrina dos cigarros.
- Vamos dar o fora, Moiss?
Dois minutos depois estamos sentados num bancc
da Praa Montepio. Aqui h sossego, no vm c cer
tos indivfduos impertinentes. O que me desgosta  ve
de relance, nos bancos do centro, que a folhagem dis
fara mal, pessoas atracadas. Sinto furores de mora
tista. Ces! Amando-se em pblico, descaradamentel
Ces! Tremo de indignao. Depois esmoreo: julguei
distinguir entre as folhas dos crtons o vulto de Ma
rina. Foi iluso, mas a imagem permanece. Cachor
rada!
Moiss fala em polfticos reacionrfos. Encho-me
de ferocidade:
- Malandros! Ladres!
Agora Moiss est contando as perseguies ao:
judeus, na Europa. Lembro-me do to dele e digo co-
migo que provavelmente a narrao  exagerada. SE
Moiss no fosse inteligente, com certeza muitos da
queles fatos no existlriam. Sofrlmentos. Iniqidades
- Aqui h tanto dsso! Mas somos fatalistas, es
tamos habituados e no temos imaginao como vocs
Entro a falar sobre a minha vida de cigano, d
fazenda em fazenda, transformado em mestre de me
ninos. Quando ensinava tudo que seu Antnio Justim
me ensinara, passava a outra escola. Tinha o sustentc
Depois era a caserna. Todas as manhs nos exercl
cios. - "Meia-volta! Ordinrio!" As peas do fuzil
marchas na lama, a bandeira nacional, o hino, a
tarimbas sujas, os desaforos do sargento Em seguid
26
vinha a banca de reviso: seis hora,s de trabalho por
noite, os olhos queimando junto a um foco de cem
velas, cinco mil-ris de salrio, multas, suspenses.
E coisas piores, que me envergonham e no conto
a Moiss. Empregos vasqueiros, a bainha das calas
rofda, o estmago rodo, noites passadas num banco,
importunado pelo guarda. Farejava o provinciano de
longe, conhecia o nordestino pela roupa, pela cor des
; botada, pela pronncia. E assaltava-o:
#
- Um filho do nordeste, perseguido pela adversi
dade, apela para a generosidade de v. exa.
! Valorizava a esmola:
- Trago um romance entre os meus papis. Com-
pus um livro de versos, um livro de contos. Sou obri-
gado a recorrer aos meus conterrneos. At que me
srranje, at que possa editar as minhas obras.
lecebia, com um sorriso, o nquel e o gesto de
desprezo. O frege-moscas fedia a vinho podre, e o ga-
lego, de tamancos, coberto de ndoas, era asqueroso.
Mais tarde, j aqui em Macei, gastando sola pelas
reparties, indignidades, curvaturas, mentiras, na caa
I ao pistolo.
- Escrevi muito atacando a repblica velha, dou
tor; sacrifiquei-me, endividei-me, estive preso por causa
da ideologia, doutor.
Afinal, para se livrarem de mim, atiraram-me este
! osso que vou roendo com dio.
- Chegue mais cedo amanh, seu Luis.
E eu chego.
- Informe l, seu Lus.
E eu informo. Como sou diferente de meu av8!
Um dia um cabra de Cabo Preto apareceu na fa-
zenda com uma carta do chefe. Deixou o clavinote
encostado a um dos juazeiros do fim do ptio, e de
longe ia varrendo o chd,o com a aba do chapu de
couro. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva
8oletrou o papel que o homem lhe deu e mandou Ama-
ro laar uma novilha. O cabra jantou, recebeu uma
nota de vinte mil-ris, que naquele tempo era muito
dinheiro, e atravessou o Ipanema, tangendo o bicho.
Dia de Natal meu av foi  vila, com a mulher, e en-
controu no caminho o grupo de Cabo Preto, que se
27
meteu na capueira para no assustar a dona, .inr
Germana, de saias arregaadas, escanchada na sel
um mosqueto na maaneta, no viu nada, mas me
av fez um gesto de agradecimento aos angicos e ac
mandacarus que marginavam a estrada. Quando a p
Iftica de padre Incio caiu, o delegado prendeu u
cangaceiro de Cabo Preto. O velho Trajano suiu
vila e pediu ao doutor juiz de direito a soltu:~a c
criminoso. Impossvel. Andou, virou, mexeu, yastc
dinheiro com habeas-corpus - e o doutor duro com
chifre.
- Est direito, exclamou Trajano plantando o s
pato de couro cru na palha da cadeira do juz. E
vou soltar o rapaz.
No sbado reuniu o povo da feira, nomens :: mi
lheres, moos e velhos, mandou desmanchar o eFrca
do vigrio, armou todos com estacas e foi derrt:bar
cadeia.
Est af uma histrfa que narro com satisfao
Moiss. Ouve-me desatento. O que Ihe intere: sa r
minha terra  o sofrimento da multido, a tragd:
peridca das secas. Procuro recordar-me dos ver
sertanejos, que duram anos. A lembrana chega mi
turada com episdios agarrados aqui e alf, em roma
ces. D'ficilmente poderia distinguir a realidade 
fico. De resto a dor dos flagelados naquele tem
n.o me fazia mossa. Penso em coisas percebias v
gamente: o gado, escuro de carrapatos, roendo a ma
deira do curral; o cavalo de fbrica, lazarerto e co
esparaves; bodes defnhando na morrinha; o carro c
bois apodrecendo; na catinga parda, mancha: bra
cas de ossadas e vo negro dos urubus. Tento len
brar-me de uma dor humana. As leituras auxiliar-m
atiam-me o sentimento. Mas a verdade  que o pe
soal da nossa casa sofria pouco. Trajano Per:ira i
Aquino Cavalcante e Silva caucava; meu ps.i viv
#
preocupado com os doze pares de Frana; sinha th
mana tinha morrdo; Quitria, coitada, era bruta c
mais e por isso insensfvel. Os outros moradores
fazenda, as criaturas que viviam em ranchos d pal
construdos nas ribanceiras do Ipanema, no :e qu
xavam. Jos Bafa falava baixo e ria sempre Sin:
28
Terta rezava novenas e fazia partos pela vizinhana.
Amaro vaqueiro alimentava-se, nas secas, com sementes
de mucun lavadas em sete guas, raiz de imbu, miolo
de xique-xique, e de tempos a tempos furtava uma
cabra no chiqueiro e atirava a culpa  suuarana.
Dores s as minhas, mas estas vieram depois.
* * *
A minha criada Vitria anda em cinqenta anos,
 meio surda e possui um papagaio inteframente mudo,
que pretende educar assim :
Currupaco, lcagaco,
A mulher do rnacczco
Ela fia, ela cose,
Ela toma tabaco
Torrado no ca,oo.
O papagaio prega na velha o olho redondo. Em
seguida cerra as plpebras e baixa a cabea. As vezes
se aborrece da gaiola e bate as asas. A dona corre
para o quintal e espia a folhagem da mangueira:
- Meu louro, meu louro! Currupaco, papaco. Meu
Meu louro! Onde andar o sem-vergonha desse pa
pagaio?
S se acomoda depois de percorrer a vizinhana
e encontrar o fugitivo. Pega ento a parolar com ele,
que no diz nada. Quando se cansa, agarra o jornal
e l com ateno os nomes dos navios que chegam e
dos que saem. Nunca embarcou, sempre viveu em Ma-
cei, mas tem o espfrito cheio de barcos. D-me fre-
qentemente notcias deste gnero:
- O Pedro II chega amanh. O Aratimb vem
m atraso. Ter havido desastre?
No sei como se pode capacitar de que a comu-
nicao me interessa. H trs anos, quando a conheci,
a mania dela me espantava. Agora estou habituado.
heio o jornal e deixo-o em cima da mesa, dobrado na
pgina em que se publica o movimento do porto. Vit-
rIa toma a folha e vai para a cozinha ler ao papagaio
a lista dos viajantes.
29
No princpio do ms, quando se aproxima o rece
bimento do ordenado, excita-se e no larga o Diric
Ofical.
- Faltam dois dias, falta um dia,  hoje.
E faz clculos que no acabam, clculos inteis
porque no gasta nada: usa os meus sapatos velho:
e traz um xale preto amarelento que deve ter dez anos
Recolhe a mensa.lidade e mete-se no fundo do quintal
pe-se a esgaravatar a terra como se plantasse quat
quer coisa. Esquece os navios e as lies ao papagaio
Volta a tratar das ocupaes domsticas, mas dE
quando em quando l vai rondar a mangueira e aco
corar-se junto ao canteiro das alfaces. D um saltc
 cozinha, fala com o louro, tempera a bia. Minuto:
depois est novamente remexendo a terra.
Observo esses manejos. Sentindo-se observada, le
vanta-se, deita gua no caco das galinhas, vai ao ba
nheiro, sai com uma braada de roupa, que estendE
no arame esticado entre a cerca e um dos ramos d
mangueira. Entra em casa, abre o jornal e anuncia;
- O delegado fiscal viajou ontem.
Nota, pela minha eara, que o delegado fiseai nc
me fnteressa e d uma notcia importante:
- O arcebispo chegou do Rio.
#
Escapole-se, vai consertar a cerca, tapar os bura
cos por onde passam bichos que estragam a horta. D2
minha cadeira vejo-lhe o coc grisalho, a cabea curva
atenta sobre a terra que escava, fingindo tratar do:
canteiros ou fincar as estacas da cerca. No outro dia
tirar as estacas, que, de tanto removidas, fizeram al
uma espcie de porteira.
Nem  noite a pobre descansa: levanta-se pela
madrugada e abre a porta do fundo, cautelosamente
Cautela intil. Como  meio surda, pensa que no fa
barulho, mas arrasta os sapates com fora, e as per
nas reumticas atiram-na contra os mveis, s esura:
tropeam nos degraus de cmento quebrado. Ausenta-s
uma hora. Depois a porta range de novo e as pisada
reaparecem. Da a pouco est a criatura resmungand
fazendo contas interminveis. Erra os nmeros e ri
30
comea. Esta agitao dura quatro, cinco dias por ms.
Sossega, volta s listas dos passageiros,  tagarelice
com o papagaio :
Currupaco, papczco,
A muLher do macaco...
A voz  spera e desdentada. E, acompanhando
a cadncia, tremem as pelancas do pescoo engelhado
como um pescoo de peru, tremem os plos do buo
e as duas verrugas escuras.  terrivelmente feia.
Logo que me entrou em casa, descobri nela uma
particularidade alarmante. Sou um desleixado. Quando
mudo a roupa, esqueo papis nos bolsos. Deixo freqen-
temente nqueis e pratas sobre os mveis. Essas fra-
es de pecnia somem-se, e certa vez desapareceu-me
da carteira uma cdula de cinqenta mil-ris. As fal-
tas coincidem com uma grande excitao da velha.
Recomeam as fugas para o quintal. Vendo-lhe o coc
bambeante entre as folhas de alface, sei perfeitamente
que ela est enterrando o dinheiro. Descubro ao p da
cerca, junto  raiz da mangueira, covas frescas.
Assustei-me a princpio, depois me tranqilizei.
A nota de cinqenta mil-ris foi achada entre as p-
ginas de um livro. E as moedas voltam para os luga-
res donde saram. Finjo no prestar ateno a elas,
para a mulher no se ofender, meto algumas no bolso,
com indiferena. S quando estou necessitado, digo
por alto, escolhendo as palavras:
- Vitria, hoje pela manh deixei cair umas pra-
tas no cho. Apanhei duas ou trs, mas parece que
as outras rolaram para trs da cama. Voc, varrendo
o quarto, no ter encontrado algumas?
Vitria estica-se, o pescoo encarquilhado incha,
os olhos midos fuzilam, as verrugas tremem indig-
nadas:
- O senhor tem cada uma! Se no est satis-
feito comigo,  dizer. J vivi em muita casa de gente
rica, seu Lus. Criei-me vendo dinheiro, seu Lufs. Se
to est achando bom,  arriar a trouxa. Descon-
fiana comigo, no.
31
- Deixe disso, criatura. Quem falou em descon-
fiana? E que derrubei as moedas. Que voc no viu
est, claro, no se discute. D uma busca.
- Ah! exlama Vitria. Eu no tinha compreen-
dido bem.
Torna-se amvel, coa o queixo cabeludo, puxa
conversa fora de propsito, a voz sumida, uns risinhos
encabulados. Julgando-me distraido, afasta-se nas pon-
tas dos ps, olhando-me com o rabo do olho, e vai
apanhar alfaces. Da a pouco volta, entra no quarto,
arrasta a cama, examina os cantos da parede:
- S vejo teia de aranha.
De repente aparece chocalhando as moedas:
#
- Esto aqui. No sei quando o senhor quer to-
mar jeito. A vida inteira perdendo dinheiro!
Cluardo algumas pratas e deixo o resto em cima
da mesa. Npo h perigo. Receio  que Vitria se en-
gane nas contas e me traga mais que o que tirou.
* # #
Em janeiro do ano passado estava eu uma tardE
no qu;ntal, deitado numa espreguiadeira, fuma.ndo 
lendo um romance. O romance n.o prestava, mas o;
meus negcios iam equilibrados, os chefes me tolera
vam, as dvidas eram pequenas - e eu rosnava con
um bocejo tranqilo:
- Tem coisas boas este livro.
Lia desatento, e as letras esmoreciam na sombr
que a mangueira estirava sobre o quintal.
Moiss e Pimentel apareciam-me s vezes, e algun
rapazes acanhados vinham pedir-me em segredo arti
gos e composies poticas, que eu vendia a dez, a quin
ze mil-ris. Isto chegava para o aluguel da casa -
e dr. Glouveia no me importunava. Distraia-me con
leituras inteis. Quando me caia nas mos uma obr
ordinria, ficava contentssimo:
- Ora, muito bem. Isto  to ruim que eu, cor
trabalho, poderia fazer coisa igual.
Os livros idiotas animam a gente. Se no fosser
eles, nem sei quem se atreveria a comear.
S2
Esse que eu lia debaixo da mangueira, saltando
pginas, era bem safado. Por isso interrompia a leitu-
ra, acendia o cigarro.
Foi numa dessas suspenses que percebi um vulto
mexendo-se no quintal da casa vizinha. Como j disse,
existe apenas uma cerca separando os dois quintais.
Do lado esquerdo h um muro, e ignoro completamen-
te o que se passa alm dele. Mas daquela banda o que
temos  a cerca baixa, que Vitria conserta sempre
por causa das galinhas e para guardar dinheiro nos
ps das estacas podres. Para l dessa linha de demar-
cao tudo me era familiar: o banheiro, paredes meias
com o meu, algumas roseiras, um monte de lixo que
a inquilina, senhora idosa, s vezes queimava.
O vulto que se mexia no era a senhora idosa:
era uma sujeitinha vermelhaa, de olhos azuis e ca-
belos to amarelos que pareciam oxigenados. Foi s
o que vi, de supeto, porque n.o sou indiscreto, era
inconveniente olhar aquela desconhecida como um bas-
baque. Demais no havia nada interessante nela.
Onde andaria a senhora idosa, que todas as ma-
nhs ia regar as plantas, com um pano branco amar-
rado  cabea? Mudara-se, provavelmente, e aquela
que ali estava devia ser moradora nova.
- Sim senhor, disse comigo, muito potica, ai
entre as roseiras, com os cabelos pegando fogo e a
cara pintada.
Sentia a ausncia da senhora idosa, cheia de rugas,
tranqila, um pano amarrado  cabea e o rega,dor na
mo, movendo-se to devagar que era como se esti-
vesse parada. Essa outra estava em todos os lugares
ao mesmo tempo, ocupava o quintal inteiro. Um
azougue.
- Quem diabo tem ela?
E mergulhei na leitura, desatento, est claro, por-
qve o livro no valia nada. Virava a pgina muitas
oezes, e quando isto acontecia, olhava, fingindo desin-
teresse, a mulher dos cabelos de fogo. Tinha as unhas
pintadas.
- Lambisgiat
Fiquei lendo o romance, pssimo romance, enquan-
tO a tipinha se mexeu entre as roseiras. Notei, notei
33
#
positivamente que ela me observava. Encabulei. Sou
.
tmido: quando me vejo diante de senhoras, emburro
digo besteiras. Trinta e cinco anos, funcionrio pbli-
co, homem de ocupaes marcadas pelo regulamento.
O Estado no me paga para eu olhar as pernas das
garotas. E aquilo era uma garota. Alm de tudo sei
que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa.
Os olhos baos, a boca muito grande, o nariz grosso.
Como se chamava a senhora idosa que vinha regar as
plantas? A verdade  que nunca me empatou a leitura.
Fiquei ali at que escureceu e a mulherinha deu o fora.
Mais tarde informei-me:
-  Vitria, a vizinha aqui da direita mudou-se?
- Morreu, disse Vitria depois de me fazer repe
tir a pergunta quatro vezes, porque era lua nova e ela
estava inteiramente surda. O senhor no viu o enterro7
Pois . Agora h outros moradores.
Pobre da velha. Morta e enterrada, e eu nem havia
percebido alterao na casa.
Moiss e Pimentel apareceram  noite e conver
saram muito, mas ouvi-os distrafdo.
Alm das plantas mencionadas, havia tambm un
mamoeiro no quintal vizinho. Era engraada o diabc
da pequena. Para o inferno. Um homem lido e corrido
pegando trinta e cinco anos, amolecendo, preocupan
do-se com aquela guenza!
- Vamos deixar de tolice.
E contrariei Pimentel e Moiss, arranjei umas opi
nies descabidas, porque realmente no sabia o qm
eles estavam dizendo.
No dia seguinte (era sbado e no havia expe
diente  tarde) sentei-me de novo  sombra da man
gueira, com o romance. A coisinha loura tornou a apa
,
recer, em companhia de uma mulherona sardenta
comearam ambas a cortar os ramos secos das rc
seiras. A pequena estouvada no me prestava ateno
descontentara-a provavelmente o exame da vspera. Un
sujeito feio: os olhos baos, o nariz grosso, um sorris
besta e a atrapalhao, o encolhimento que  mesm
uma desgraa.
Apesar destas desvantagens, os negcios no iar
mal. E foi exatamente por me correr a vida quase ber
34
que a mulherinha me inspirou interesse - novidade,
pofs sempre fuf alhefo aos casos de sentimento. Traba
lhos, compreendem? Trabalhos e pobreza. As vezes o
 corao se apertava como corda de relgio bem enro-
 lada. Um rato rofa-me as entranhas.
Nestes ltimos tempos nem por isso. Antigamente
' era uma existncia de cachorro. As mulheres tinham
chefros excessivos, e eu me sentia impelido vfolenta-
mente para elas. Mas a voz do chefe da reviso estava
colada aos meus ouvidos:
- Suspenso por cinco dfas, seu Silva.
A unha suja de tinta rfscava na prova o corpo de
delito. Vida de cachorro. Como irfa pagar a penso?
- D. Aurora, tenha pu,cincfa. Veja se me arranja
um quarto mafs barato. Os tempos andam safados,
d. Aurora.
' As ruas estavam chefas de mulheres. E o rato
' rofa-me por dentro.
Ora, um dia, sem motivo, convidef d. Aurora para
o cinema. Tenho desses rompantes idiotas. Fao uma
 tohce sabendo perfeitamente que estou fazendo tolice.
Quando tento corrigir o disparate, caio noutro e cada
vez mais me complico. Foi o que se deu. Convidef d. Au-
rora e a neta para o cinema. Arrependi-me e ofere-
d-Ihes refrescos. Aceitaram tudo - e comeou a minha
#
tortura. L fui com elas, capiongo, pagar bonde, sor-
vetes e trs cadeiras. Tipo besta.
- Agenta, maluco, trouxa, filho de uma puta.
E contava mentalmente o dinheiro suado e mes-
quinho. Na sala de projeo a neta de d. Aurora abriu
um leque enorme em cima das coxas e meteu a minha
perna entre as dela. Subitamente o rato deixou de
roer-me. O que eu estava era indignado. E calculava.
Trs passagens de bonde - mil e duzentos. Trs sor-
vetes - trs vezes cinco, quinze. E entradas no cf-
riema. As coxas da moa eram frias. Com certeza fazia
squilo por hbito. Naquele tempo eu andava como
um bode. Mas esfriei tambm. Cinco mil-ris por seis
horas de trabalho,  noite, suspenses, multas, o jor-
nal indo para cima e para baixo. Era um sofrimento
a idia de que no fim da quinzena ficaramos sem o
cobre que estava enganchado.
35
- Hoje ningum recebe.
L ia, de cabea baixa, beber um copo de catdc
de cana e comer um pastel. Os niqueis amarrado;
como dfnheiro de matuto. Pofs, numa quebra,deir
assim, bande, sorvete, cfnema. E ainda faltavam a
passagens de volta. A fita era to compridal A mof
tinha as pernas frias.
Aquela que estava ali a meia dzfa de passos, cor
tando os ramos secos das roseiras, vermelha como pi
menta, os braos levantados mostrando os sovacos
deva ser quente demais.
- Carga de risco!
A mulher sardenta e sarar tinha traos dela.
Com o livro esquecido nos f oelhos, o cigarro apa,
gado, o olho meio cerrado, lembrei-me com pregui:
de cosas vagas, sem importncia. Havta no Cavalo
Morto uma rapariga desbragadfssima. No tinha de
com, amava aos gritos, como os gatos e os ciganos
Em horas de recolhimento natural berrava danada
mente :
- Rasga, diabo! Vai fazer isso com tua me
peste!
Eu era mu;to moo, e aquela fria me espantava
Amores selvagens.
Da janela de seu Antnio Justino via-se um jar
dim bem tratado, onde trs mulheres velhas que pare
ciam formigas cavavam, podavam, regavam.
Berta, uma alemzinha bonita que antigament
conheci, tambm tinha as unhas pintadas e pontia
tzdas. Aquilo arranhava docemente. A orimefra mu
lher de jeito com quem me atraquei. Eu levava nc
bolso uns dinheiros curtos anhos no jogo e a catt
de recomendao aue um deputado, depois de muito
salamaIeques e mutas viagens, me havfa dado na C5
mara para o diretor de um jornal. Cada solecismo hoi
rfvel. Metia a mo no bolso e certificava-me de qu
as pelegas machucadas e os solecismos exfstiam. Ia d
cabea baixa, ruminando projeto.s. De repente uma vc
estrangeirada, cheia de rr, gargarejou perto de mirr
- Senhor no quer entrar?
E duas mos midas agarrara.m-me um brao, a
rastaram-me por uma porta at a escada. Escorei-n
36
ao corrim,o, acuado, pigarreef com um n na gar
ganta:
- Madame, eu sou um bfcho do mato, nunca me
encostei a uma pessoa como a senhora. Seja franca,
madame. Quanto  que lhe devo dar?
Berta era engraada : lourinha, gordinha, uma voz
suave, apesar dos rr.
- Deixa disso. No faz feio.
E eu, a mo no bolso, apertando os cobres:
#
- No brinque, madame. Sou um sertanejo, um
bruto, um selvagerr. Quanto  que a senhora costuma
receber?
Bonitinha, Berta. E mais decente que a neta de
d. Aurora. Bonde, cinema, refrescos. Menina viciada.
Dagoberto fugia dela. Uma piranha. Ser rofdo por
aquilo! Ah! no. Lembrava-me dos bancos do passefo,
das botinas de elstico bambo.
- Senhor, um nordestino perseguido pela adversi-
dade apela para v. exa.
E o frege-moscas fedorento, as toalhas cobertas
de ndoas de vinho, bia nauseabunda, o galego, de
tamancos, sujo, cantando. Com semelhantes recorda-
es, quem pensa em mulheres?
A mocinha, no lado de l da cerca, no me dava
ateno. Perua. Cabelos de milho, unhas pintadas, bei-
os vermelhos e o perno aparecendo.
- As vezes aquilo  s  casca. Por baixo - mar-
cas de feridas e molambos. Sirigaita. Sou um homem
prtico, passado pelos corrimboques do diabo, lido e
eorrido. Para o inferno.
Levantei-me, aprumei-me e recolhi-me, com o livro
: debaixo do brao, a cara enferrujada, importante. Na
,r vspera o diretor me tinha dito:
- Necessitamos um governo forte, seu Lufs, um
governo que estique a corda. Esse povo anda de rdea
solta. Um governo duro.
E eu havia concordado, naturalmente:
- E o que eu digo, doutor. Um governo duro.
E que reconhea os valores.
Considerava-me um valor, valor mido, uma esp-
`. eie de niquel .social, mas enfim valor. O aluguel da
;
eesa estava pago. Andava em todas as ruas sem pre-
37
cisar dobrar esquinas. Por uma diferena de doiz votos,
tinha deixado de ser eleito Secretrio da .Assocfao
Alagoana de Imprensa. Quinhentos mil-ris de orde-
nado. Com alguns ganchos, embirava uns setecentos.
Podia at casar. Casar ou amigar-me com uma cria,tura
sensata, amante da ordem. Nada de melndrosas pin-
tadas. Mulher direita, sisuda. Passar a vida naquela
insipidez, agentando uma cria,da surda, reumtica,
cheia de manias!
-  Vitria, gritei ao ouvido da velha, quem  essa
gente que chegou si ao lado?
Vitria no sabia. Tentei ler um srtigo poltico de
Pimentel, mas estava distraido, pensava em Berta, na
neta de d. Aurora e na rapariga do Cavalo-Morto. Dei-
tei-me cedo. No pude dormir: os cabelos de fogo, os
olhos e especialmente as pernas da vizinha comearam
a bulir comigo. Aquilo devia ser uma pimenta. Passei a
noite imaginando cenas terrveis com ela. No outro dia
levantei-me aperreado. Quando me aparecem esses aces-
sos, fico asim uma semana, calado, murcho, pensando
em safadezas.
r r r
Ainda no disse que moro na Rua do Macena, perto
da usina eltrica. Ocupado em vrias coisas, freqent
mente esqueo o essencial. Que, para mim, a casa ande
moramos no tem importncia grande demais. Tenho
vivido em numerosos chiqueiras. Provavelmente esses
imveis influiram no meu carter, mas sou incapaz de
recordar-me das divises de qualquer deles. No espe-
rem a descrio destas paredes velhas que dr. Clouveia
me aluga, sem remorso, por cento e vinte mil-ris men-
sais, fora a pena de gua.
Afinal, para a minha histria, o quintal vale mais
que a casa. Era ali, debaixo da mangueira, que, de
volta da repaxtio, me sentava todas as tardes, com
#
um livro. Fo I que vi Marina pela primeira vez, em
janeiro do ano passado. E l nos tornamos amgos.
Se ela morasse no prdio  esquerda, talvez no
nos conhecssemos. Quando saio para o servio, passo
em irente da casa  direita e cumprimento as pessoas
38
que esto  janela. Transito raramente pelo outro lado.
Reside ali uma d. Roslia, que tem o marido sempre
ausente. Mulher antiptica, amarela, muito faladora.
Quase nunca a encontro. Felizmente h o muro que
nos afasta. Vejo s vezes por cima dele cabecinhas de
crianas que esperam momento favorvel para furtar
as mangas dos galhos que lhes chegam ao alcance das
garras. Fujo para no importun-las, mas so assusta-
dias e escondem-se.
O meu horizonte ali era o quintal da casa  di-
reita: as roseiras, o monte de lixo, o mamoeiro. Tudo
feio, pobre, sujo. At as roseiras eram mesquinhas:
algumas rosas apenas, midas. Monturos prximos,
guas estagnadas, mandavam para c emanaes desa-
gradveis. Mas havia silncio, havia sombra. O vozei-
ro de Vitria era um murmrio abafado. Talvez o ma-
moeiro, as roseiras, o monte de lixo me passassem des-
percebidos, e se os menciono,  que, escrevendo estas
notas, revejo-os daqui.
Tornei-me, pois, amigo de Marina. Com certeza
comeamos por olhares, movimentos de cabea, sorri-
sos, como sempre acontece. Depois, palavra aqui, pala-
vra ali, em pouco tempo estvamos camaradas, tratan-
do-nos por voc. Procurando reproduzir os nossos di-
lagos, compreendo que no dizamos nada. Frfvola, in-
capaz de agarrar uma idia, a mocinha pulava como
uma cabra em redor dos canteiros e pulava de um
assunto para outro. O que me aborrecia nela eram
Certas inclinaes imbecis ou safadas.
- Porque  que voc no manda fazer urr, synoking,
Lufs? Um rapaz que ganha dinheiro andar com essas
roupas mal-amanhadas! Eu, se fosse voc, brilhava,
vivia no trinque.
Eu pilheriava com ela:
- Maria, nem s de smoking vive o homem.
Outras vezes:
- D. Mercedes estava hoje chamando a ateno
de todo o mundo na Igreja do Rosrio. Vestido cor de
Cinza com vivos encarnados, luvas cor de cinza, bolsa
encarnada, chapu encarnado e sapatos encarnados.
Voc gosta do encarnado?
39
D. Mercedes  uma espanhola madura da vizi-
nhana, axnigada em segredo com uma personagem
oficial que lhe entra em casa alta noite. Possui mobi-
lia complicadfssima, passa os dias olhando-se ao espe-
lho e polindo as unhas, metida num peigno'ir de seda,
e quando mergulha na banheira, sente-se de longe o
cheiro da gua-de-colnia. Marina admirava-a com exa-
gero, arregalando os olhos:
- D. Mercedes  linda. Parece uma artista de ci
nema.
Eu me aperreava:
- Que tolice! Voc elogiando uma tipa ordinria
uma galega de arribao que ningum sabe donde saiul
No est direito. Uma bicha feia e velha, um couro, mr
canho!
Marina excitava-se:
- Que couro, que nada! D. Mercedes  uma se
nhora vistosa, bem conservada, muito distinta. E rica
Tem filha no colgio e manda dinheiro ao marido.
Vejam que miolo. E que tendncias. Eu, se n
fosse um idiota com fumaas de homem prtico, lidi
e corrido, teria cortado relaes com aquela criaturE
#
Admirar uma estrangeira que vive s, tem filha no cc
lgio e sustenta marido ausente!
Estirava-me na espreguiadeira, abria o livro; cat
rancudo. A leitura no me atraa, mas atirava-me a ela
Marina ficava por ali, rondando, machucando ptala
de rosas, acanhada, o nariz comprido, procurando con
versa. Dava um giro entre os canteiros, temperava
goela e, de repente :
- Que livro  esse que voc est lendo?
Fingia-me distrado, encostava a cara ao volumi
- Deve ser uma obra interessante.
- Nem por isso.
- Eu tambm estou lendo um livro interessant
da biblioteca das moas. Muito penoso.
Olhava-a com dio:
- Passe bem, Marina.
Aproximando-me da cozinha, percebia a voz de V
tria, que resmungava junto  gaiola do Currupaco:
- Franguinha assanhada. Cochichando com u
homem no escurol Cabrita enxerida.
40
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rlr,,r,,tlJ .   . .:;,.n ;%,.;.:v:,:. .::;G,tv 1..'i'
Realmente estava escuro. As vezes a gente se es-
quecia do tempo e entrava pela noite na prosa. Um
foco da iluminao da rua embranquecia um pedao
do muro.
Currupaco pregava-me o olho redondo, encolhia a
perna e escondia a cabea com' tdio.
- Safadinha, enxerida, insistia Vitria quando me
via as co.stas.
Punha-me a passear pela casa. Chegava  porta
da rua, voltava, marchava at a sala de jantar, fazia
meia-volta, e assim por diante, pisando com fora.
Um smoking, imaginem. Para que diabo queria eu um
. srrcokiag? Teria graa estar ali contando os passos ou
ir ao caf, vestido num synaking. Estpida.
- Um romance comovente. Esqucf o nome do
autor. Enredo bonito.
Estpida. Lia as notas sociais, casamentos, batiza,-
dos, aniversrios, coisas deste gnero. Estpida.
Fatigado, sentava-me um instante na sala de jan-
tar. A parada justificava outra, instantes depois,  ja
nela da rua. Debruava-me, olhava os paralelepfpedos,
a sarjeta, o poste de ferro, os arames, a calada da
casa  esquerda. Virava-me para a esquerda. O outro
lado no me interessava. Uma pancada no postigo, e
recomeava o passeio. Nova demora na sala de jantar.
Coava a barriga do gato, que se espreguiava, esti-
rava as pernas. Sem-vergonha, parecia mulher. O quin-
tal estava escuro. Por cima das rvores havia claridade,
at se enxergava, a distncia, um anncio que se podia
ler; mas perto do cho era aquele pretume. Fastidiosa
msica de grilos, certamente no canteiro das horta
lias.
A quanto subiria a fortuna que Vitria tinha ali
enterrada? A minha situao no era das piores. Uns
trs contos de economias depositados no banco. Ht
gente que se casa com menos e vive.
Pela porta da cozinha via-se na parede a sombra
da cabea de Vitria, enorme, por cima da sombra do
jornal.
- b Vitria, prepare o caf.
Precisava ir sacudi-la:
- O caf, Vitria.
42
- An!
Afastava-me. A chaleira chiava no fogo. A som-
bra desaparecia. Arrastar de ps e sons resmungados:
- Peruinha, cabritinha descarada.
Punha-me tambm a arrastar os ps na sala de
jantar, fumava, bebia um trago de agurdente.
- Mulheres h muitas.
E o diabo da msica dos grilos. As letras do ann-
cio eram enormes.
Daf a pouco l ia de novo para o corredor, che-
gava  janela da frente, abria o postigo, olhava a rua.
Mas no me voltava para a direita. Os paraleleppedos,
os arames, a sarjeta. A bichinha sem-vergonha devia
andar ali perto, saracoteando na calada, indo espiar
a s.ala de d. Mercedes e os mveis de d. Mercedes.
No me voltava.
- Para o diabo. Aqui me preocupando com aque-
la burra! Unhas pintadas, beios pintados, blblioteca
das moas, preguia, admirao a d. Mercedes - total:
Rua da Lama. Acaba na Rua da Lama, sangrando na
pedra-lipes. Vamos deixar de besteira, seu Lus. Um
#
homem  um homem.
* * *
Foi por aquele tempo que Julio Tavares deu para
aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais
andaram a elogi-lo, mas disseram mentira. Julio Ta-
vares no tinha nenhuma das qualidades que lhe atri-
buram. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, pa-
triota, falador e escrevedor. No relgio oficial, nos cafs
e noutros lugares freqentadcs cumprimentava-me da
longe, fingindo suberioridade:
- Como vai, Silva?
A noite chegava-me a casa, empurrava a porta e,
quando eu menos esperava, desembocava na sala de
jantar, que, no sei se j disse,  o meu gabinete
de trabalho. E l vinham intimidades que me aborre-
ciam. Linguagem arrevesada, muitos adjetivos, pensa-
mento nenhum.
Conheci esse monstro numa festa de arte no Insti-
tuto Histrico. De quando em quando um cidado se
43
levantava e lia uma composio literria. Em seguid
uma senhora abancava ao piano e tocava. Depois outr
declamava. A chegava de novo a vez do homem,
assim por diante. Pelo meio da funo um sujeito got
do assaltou a tribuna e gritou um discurso furios
e patritico. Citou os coqueiros, as praias, o cu azu;
os canais e outras preciosidades alagoanas, desceu 
comeou a bater palmas terrfveis aos oradores, ao
poetas e s cantoras que vieram depois dele. A safd
deu-me um encontro, segurou-me um brao e impe
diu que me despencasse pela escada abaixo. Ds
culpou-se por me haver empurrado, agradeci ter-m
agarrado o brao e samos juntos pela Rua do Sol
Repetiu pouco mais ou menos o que tinha dito no dis
curso e afirmou que adorava o Brasil.
- Ah! Eu vi perfeitamente que o senhor  pa
triota.
Foi a conta.
- Quem o no , meu amigo? Nesta hora trgic;
em que a sorte da nacionalidade est em jogo. ..
- Efetivamente, murmurei, as coisas andam preta
Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo po
alto a vida, o nom e as intenes do homem. Famli;
rica. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhado;
donos de prdios, membros influentes da Associa
Comercial, eram uns ratos. Quando eu passava pel;
Rua do Comrcio, via-os por detrs do balco, doi
sujeitos papudos, carrancudos, vestidos de linho pard
e absolutamente iguais. Esse Julio, literato e bacha
rel, filho de um deles, tinha os dentes midos, afiado,
e devia ser um rato, como o pai. Reacionrio e ca
tlico.
- Por disciplina, entende? Considero a religio un
sustentculo da ordem, uma necessidade social.
- Se o senhor permite...
E divergi dele, porque o achei horrivelmente anti
ptico. Ouviu-me atento e mostrou desejo de saber o qm
eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fi;
um gesto vago, procurando no ar fragmentos da mi
nha existncia espalhada.
- Lus da 8ilva, Rua do Macena, nmero tanto
Prazer em conhec-lo.
44
E meti-me no primeiro bonde que passou. Mas no
consegui desembaraar-me do homem. Dias depois
fez-me uma visita. Em seguida familiarizou-se. E era
Luis para aqui, Lus para ali, elogios na tbua da
venta, s com o fim de receber outros. No tenho jeito
para isso. Duas, trs horas de chateao, que me dei-
xavam enervado, besta, roendo as unhas.
#
Habituei-me a escrever, como j disse. Nunca es-
tudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos
no prestam. Mas adquiri cedo o vcio de ler romances
e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um
conto. Compus, no tempo da mtrica e da rima, um
livro de versos. Eram duzentos sonetos, aproximada-
mente. No me foi possvel public-los, e com a idade
compreendi que no valiam nada. Em todo o caso
acompanharam-me por onde andei. Um dia, na penso
de d. Aurora; o meu vizinho Macedo comeou a elo-
giar um desses sonetos, que por sinal era dos piores,
e acabou oferecendo-me por ele cinqenta mil-ris. Nem
foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi
o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava indita.
Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infeliz-
mente voltou para S. Paulo sem concluir o curso. Des-
de ento procuro avistar-me com moos ingnuos que
me compram esses produtos. Antigamente eram estam-
pados em revistas, mas agora figuram em semanrios
da roa, e vendo-os a dez mil-ris. O volume est re-
duzido a um caderno de cinqenta folhas amarelas
e rodas pelos ratos.
Trabalho num jornal. A noite dou um salto por
l escrevo umas linhas. Os chefes politicos do interior
brigam demais. Procuram-me, explicam os aconteci-
mentos locais, e fao diatribes medonhas que, assina-
dae por eles, vo para a matria paga. Ganho pela
redao e ganho uns tantos por cento pela publicao.
Arrumo desaforos em quantidade, e para redigi-los ne-
cessito longas explicaes, porque os matutos so con-
fusos, e acontece-me defender sujeitos que deviam ser
atacados. Alm disso recebo de casas editoras de se-
gunda ordem tradues feitas  pressa, livros idiotas
desses que Marina aprecia. Passo uma vista nisso, ali-
45
nhavo notas ligeiras e vendo os volumes no sebo. Al
guns rapazes vm consultar-me :
- Fulano  bom escritor, Luis?
Quando no conheo Fulano, respondo sempre:
- E uma besta.
E os rapazes acreditam.
Ora, foi uma vida assim cheia de ocupaes cace
tes que Julio Tavares veio perturbar. Atravancou-m;
o caminho, obrigou-me a paradas constantes, buiiu-mE
com os nervos.
As vezes eu estava espremendo o miolo para obte
uma coluna de amabilidades ou descomposturas.  c
que sei fazer, alinhar adjetivos, doces ou amargos, err
conformidade com a encomenda. Moiss entrava, pu
xava uma cadeira, sentava-se, abria o jornal. Vinh
Pimentel, amarelo, triste, silencioso. Seu Ivo, bbedo
acocorava-se a um canto e punha-se a babar, cochi
lando. Nenhuma dessas pessoas me incomodava. Tra
balhava diante delas como se estivesse s, e ningurr
me interrompia.
- Revoluo na China, dizia Moiss.
Pimentel estirava o pescoo e enrugava a testa
farejando assunto. E l vinham confusamente os chi
neses do telegrama. Seu Ivo queixava-se da carestia do:
gneros. Apertava o cinturo, bocejava, pedia comida
Eu dava respostas sem perceber direito as pergunta:
e sem interromper o trabalho. As frases iam pingandc
no papel, umas traziam as outras, e no fim l estav
aquela prosa medida, certinha, que me enjoava. Quan
do a expresso fugia ou as idias se misturavam, acen
dia um cigarro. E, enquanto desanuviava a cabea
punha os olhos distrados na figura aniquilada de seL
Ivo, que ali estava no canto da parede, babando-se, a:
plpebras cerradas. As mos eram dois calos escuros
os ps descalos eram patas achatadas.
#
Seu Ivo no mora em parte nenhuma. Conhecf
o Estado inteiro, julgo que viaja por todo o nordeste
Entra nas casas sem se anunciar, como um cachorro
dirige-se s pessoas familiarmente, sempre a pedir co
mida. Passa alguns meses numa cidade, some-se de
repente; aboleta-se nas povoaes, nas fazendas, na
capital. Freqenta as salas de jantar e as cozinhas.
46
I
Quase no fala: balbucia lrases ambfguas, aperreado,
sempre na carraspana. Faz o que lhe mandam, recebe
' o que lhe do, mas no agradece e no faz nada com
jeito.
                - Seu Luisinho, sinha Vitria, cad a bia?
                E se no lhe damos ateno, conversa com o gato,
        conversa com o papagaio, acaba mexendo nas panelas,
        furtando objetos midos que no utiliza.
                Depois de um ano de ausncia, pergunto-lhe:
                - Como vai, seu Ivo?
                Mas estou pensando noutra coisa.
                - Ruim, tudo safado, seu Luisinho. A barriga
        tinindo.
                E pe-se a chorar como um desgraado. Continuo
        a construir mentalmente o perodo interrompido.
                - V comer, seu Ivo. Vitria, um prato para
        seu Ivo.
                O homem do Instituto atrapalhou-me a vida e se-
        parou-me dos meus amigos.
                * * *
- Que diabo vem fazer este sujeito? murmurei
com raiva no dia em que Julio Tavares atravessou
o corredor sem pedir licena e entrou na sala de jan-
tar, vermelho e com modos de camarada,
Soltei a pena, Moiss dobrou o jornal, Pimentel
roeu as unhas. E assim ficamos seis meses, roendo as
unhas, o jornal dobrado, a pena suspensa, ouvindo
opinies muito diferentes das nossas. As de Moiss so
francamente revolucionrias; as minhas so fragmen-
tadas, instveis e numerosas; Pimentel s vezes est
Comigo, outras vezes inclina-se para Moiss.
Raramente discutfamos. O judeu cansava-se em
dissertaes longas, que eu aprovava ou desaprovava
com a cabea. Acontecia aprovar agora e reprovar de-
pois. Quando bebia, tornava-me loquaz e discordava
de tudo s por esprito de contradio:
- Histriat Esta porcaria no endireita. Revolu-
,o no Brasil! Conversa! Quem vai fazer revoluo? Os
operrios? Espere por isso. Esto encolhidos, homem.
4?
E os camponeses votam com o governo, gostam do
vigrio.
O que eu queria era convencer-me de que no tf-
nha razo. Desejava que Moiss estirasse argumentos
e seu Ivo se revoltasse.
- Nmeros. Nada de tapeao. Estatistica.
O judeu falava em milhes de desempregados, em
conscincia de classe, voltava-se para seu Ivo, que no
compreendia a Ifngua dele:
- No entendo. Vossemecs so brancos, l se
arrumem .
Eu aritava ao ouvido da criada:
- Ele diz que a gente no precisa de Deus. Nem
de Deus nem de padres. Vai acabar tudo.
- Credo em cruz! opinava a mulher.
E ia para a cozinha. Julgo que nunca se ocupou
com assuntos referentes  alma. Rezava em voz alta.
A noite sapecava o padre-nosso e a ave-maria, antes
das somas. Agora dizia "Credo em cruz!" e ia prepasar
o caf, ler os embarques e os desembarques, junto 
gaiola do Currupaco. Seu Ivo metia os olhos gulosos
#
pelos vidros do guarda-comidas:
- Seu Luisinho vai bem. Tanto po! Tanta carne!
Escancarava a boca, mostrava os dentes brancos,
estirava os braos musculosos.
- Uma fora perdida, dizia Moiss.
Talvez houvesse tambm algurria inteligncia per-
dida por detrs daqueles olhos mortos pela cachaa.
Um sujeito intil, sujo, descontente, remendado, fa-
minto.
O outro sujeito intil que nos apareceu era muito
diferente. Gordo, bem vestido, perfumado e falador,
to falador que ficvamos enjoados com as lorotas
dele. No podamos ser amigos. Em primeiro lugar o
homem era bacharel, o que nos distanciava. Pimentel,
forte na palavra escrita, anulava-se diante de Julio
Tavares. Moiss, apesar de falar cinco lnguas, emu-
decia. Eu, que viajei muito e sei que h doutores quar-
taus, metia tambm a viola no saco.
Alm disso Julio Tavares tinha educao diferen-
te da nossa. Vestia casaca, freqentava os bailes da
Associao Comercial e era amvel em demasia. Ama-
48
bilidade toda na casca. Ouvi-o, na festa de aniversrio
de um figuro, conversar com uma sirigaita. Eu estava
bebendo cerveja no jardim, e eles num caramancho
diziam besteiras horrfveis. Como falavam alto, percebi
claramente as palavras de Julio Tavares. No tinham
sentido. Como o discurso do Instituto Histrico.
Pois foram tolices assim que aquele tipo nos veio
impingir. Horrivel. Diante dele eu me sentia estpido.
Sorria, esfregava as mos com esta covardia que a vida
spera me deu e no encontrava uma palavra para
dizer. A minha linguagem  baixa, a,canalhada. As ve-
zes sapeco palavres obscenos. No os adoto escre-
vendo por falta de hbito e porque os jornais no os
publicariam, mas  a minha maneira ordinria de
falar quando no estou na presena dos chefes. Com
Moiss d-se coisa semelhante. Apenas, se lhe acontece
engasgar-se, recorre a locues estrangeiras. As nossas
conversas so naturais, no temos papas na lngua.
Abro um livro, fico alguns minutos fazendo cacoetes,
de repente dou um grito:
-- Que sujeito burro! Puta que o pariu! Isto  um
cavalo.
Moiss toma o volume, l uma pgina com aten-
o, funga.ndo:
- Tem coisas boas, tem idias.
- Que idia! Isto  um sendeiro, no sabe es-
Crever.
Julio Tavares veio tornar impossveis expanse3
assim. Dizia, referindo-se a um poeta morto:
- Era um grande esprito, um nobre esprito.
Quanta emoo! Alm disso conhecimento perfeito da
lngua. Artista privilegiado.
Filho de uma puta. Esse artista privilegiado aper-
reou-me durante semanas, tirou-me o apetite. Na re-
partio, no cinema, no jornaa, no caf, perseguia-me
a lemrrana da voz antiptica:
- Um grande espirito, um nobre espirito. Emoo
e conhecimento perfeito da lngua.
' Filho de uma puta. No podia ser nosso amigo.
Encontrava-me na rua:
- Como vai, Silva?
49
E ali, no outro lado da mesa, as pernas cruzadas,
com a inteno de se demorar - sorrisos, patriotis-
mo, a grandeza do poeta morto.
Comecei a odiar Julio Tavares. Farejava-o, perce-
bia-o de longe, s pelo modo de empurrar a porta
e atravessar o corredor.
#
- Canalha!
E rangia os dentes, arrumava os papis tremendo
de raiva. Tudo nele era postio, tudo dos outros
Se aquele patife tivesse chegado aqui natural-
mente, eu no me zangaria. Se me tivesse encomen
dado e pago um artigo de elogio  firma Tavares & Cia.,
eu teria escrito o artigo. E isto. Pratiquei neste mundo
muita safadeza. Para que dizer que ne pratiquei safa-
dezas? Se eu as pratiquei! E melhor botar a trouxa
abaixo e contar a histria direito. Teria escrito o ar-
tigo e recebido o dinheiro. O que no achava certo era
ouvir Julio Tavares todos os dias afirmar, em linguar
gem pulha, que o Brasil  um mundo, os poetas
alagoanos uns poetas enormes e Tavares pai, chefe da
firma Tavares & Cia., um talento notvel, porque jun-
tou dinheiro. Essas coisas a gente diz no jornal, e ne-
nhuma pessoa medianamente sensata liga importncia
a elas. Mas na sala de jantar, fumando, de perna
tranada,  falta de vergonha. Francamente,  falta de
vergonha.
* * *
- Boa tarde, d. Adlia. Como vai a senhora?
- Assim, assim, respondeu a me de Marina en-
costando-se  janela para esconder a saia encardida.
Hoje em dia quem  que vai bem?
Agora eu conhecia mais ou menos d. Adlia, fa-
lava com ela, parava na calada s vezes: - "Bom
dia, boa tarde, sim senhora, como tem passado?"
Conhecia tambm o marido, seu Ra,malho, sujeito ca-
lado, srio, asxrtico, eletricista da Nordeste. No gos-
tava de mim, provavelmente por causa das minhas
palestras com a filha. Perturbava-nos:
- Marina, venha lavar os pratos. Marina, venha
cuidar das panela,s. Lugar de moa  a cozinha.
50
T
Ora, se Marina lfdava com pratos e panelas!
- Velho pau!
E continuava na prosa.
- Cuidado com o sereno, Marfna.
- Se isto  coisa que se suporte!
Entrava dando muxoxos, arrelfada.
Seu Ramalho era uma criatura seca por natureza
e humilde por offcio. Tinha um sorriso franzido, um
ombro alto e outro baixo. D. Adlia, bamba, a voz su-
mida, os olhos assustados, parecia viver escondendo-se.
Agora estava resolvida a conversar. Serfa a respeito do
meu namoro com Marina? Suspirou, mexeu os beios,
tornou a suspirar:
- Tudo pela hora da morte, seu Luis.
-  verdade, tudo pela hora da morte, d. Adlfa.
A senhora j reparou nos preos dos remdios? A far-
mcia tem uma goela!
D. Adlia fez um gesto de desalento:
- Nem me fale. A gente no pode adoecer mais
no, seu Luis.
Ficamos um instante calados, olhando a rua, cons-
trangfdos.
- Sim senhora, murmurei esfregando as mas e
8orri;ndo para o mulhero sardento.
- E isso mesmo, respondeu d. Adlia.
E, depofs de um silncio comprfdo, enrolando as
mos no babado da roupa:
- Para sustentar uma casa a gente torce a orelha.
Concordef com alvoroo:
- Torce, d. Adlfa. Que dvfda! Depois do dia
vinte  preciso que uma pessoa se tranque para en-
curtar a despesa. Porque na rua  o caf, o bilhete de
teatro, a subscrfo. Um horror.
- E o mercado, seu Lus! Quer chova, quer faa
#
sol,  alf no duro. Nfngum pode passar sem comer.
- Perfeitamente, d. Adlfa. Ningum pode passar
eem comer. O pior  o aluguel da casa. O aluguel da
casa, d. Adlfa! Quanto paga a senhora pelo aluguel
da casa?
- Cento e trinta mfl-ris. Um roubo.
- Eu pago cento e vinte. Um roubo mafor, que
aquilo no  casa. Uns quartfnhos escuros, sujos. E tan-
51
to buraco de rato como nunca se viu. Uns ratinhos
midos, deste tamanho, no sef se a senhora conhece
danados para roer pano. No tenho um leno inteiro,
tudo furado.
- Aqui  o mesmo, declarou d. Adlia.
Deu um suspiro que elevou o peito volumoso,
curvou-se mais para fora :
-  seu Lufs, eu queria pedir-lhe um favor. Faz
uma semana que estou matutando e sem coragem. Ioje
botei a vergonha de banda.
- Que  que h, d. Adlia?
D. Adlia reeditou o suspiro :
. - Estive pensando . . . Se o senhor puder, ouviu?
Pedir no  desonra. A gente faz das tripas corao.
Necessidade tem cara de herege.
- Diga, d. Adlia.
A vizinha baixou mais a voz, que tremia, e o caro
sardento ficou encarnado como o vestido de chita:
-  por causa da Marina. Assim desocupada com
as mos abanando . . . Ela no  preguiosa. Cose, borda
mas trabalho de mulher em casa n.o adfanta. Gasta-se
tempo sem fim num bordado e recebe-se uma ninharia.
Se fosse possivel arranjar um emprego para Marina. .
Acendi um cigarro, pus-me a contr os paralelepi-
pedos sem me animar a desiludir a vizinha.
- D uma penada por ela.
Coitado de mim.
- Diffcil. E preciso pistolo.
- Eu sei, disse d. Adlia. Foi por isso que me lem-
brei do senhor, que  bem relacionado. S conhecemos
o senhor.
- Mas d. Adlia, respondi aflito, a senhora est
enganada. Eu sou um infeliz, no tenho onde cair
morto. Uma recomendao minha no serve. Mas voa
tentar, ouvfu?
Seu Ramalho dobrou o beco da usina eltrica e veio
vindo, lento, negro de azeite e carvo.
- Boa tarde.
- Boa tarde, seu Ramalho. Como vai essa gordura?
Estvamos falando sobre a ca,restia.
Seu Ramalho estirou o beio :
52
- Cada dia vai ficando pior. 7 de fazer um cristo
endoidecer. Ora, eu lhe conto.
Mas n,o contou nada. Costuma defxar as frases
em meio.
- Pois  como lhe disse, murmurei. Vamos ver.
Que, para ser franco, nem sei se a Marina se ajeita.
Ela. sabe datilografia?
- No sabe nada, atalhou seu Ramalho. Voc foi
amolar o rapaz com peditrios, mulher? Eu no lhe
tinha dito que no tocasse nisso?
- Que  que tem, seu Ramalho? Ela quer que
a moa trabalhe. L na,tural.
- Trabalhar .em qu, meu amigo? S se for em
pintar a cara, que  o que ela sabe fazer.
D. Adlia, vexada, continuava a enrolar os dedos
trmulos no vestido.
- Eu falei por falar. 8e fosse possfvel. Um orde-
nadozinho gue desse para a roupa. No h tantas moas
empregadas? Nos telefones, nos correios . . .
#
- So pessoas que sabem onde tm as ventas, cria-
tura, interrompeu seu Ramalho. Ou que arranjaram
proteo. E sua filha entrou na escola e saiu como
entrou. Ou as escolas no prestam ou ela  bruta de-
mais. Emprego para roupa. Tem graa. Cinqenta mil-
ris de sapatos todos os meses. No h dinheiro que
chegue.
- O senhor  duro, seu Ramalho, arrisquei.
- Pois sim, respondeu o homem arqueja,ndo por
causa da asma. E que vivo no toco, roendo um chifre.
Falava de cabea baixa, os olhos no cho, os m.s-
culos da cara imveis, a boca entreaberta, a voz bran-
da, provavelmente pelo hbito de obedecer.
- Eu falei por falar, gaguejou d. Adlia caindo
para uma banda, as banhas derramadas no parapeito
da janela, onde fincava o cotovelo. Foi, a menina com
as mos abanando . . .
8eu Ramalho acendeu o cachimbo e p8s-se a esga-
ravatar as unhas com o fsforo queimado :
- E isso. Eu aqui no sei nada. Todo o mundo
de rdea no pescoo. Casa de Conalo. As mulheres
mandam, e o corno velho  o ltimo que tem conheci-
mento das coisas.
58
Ant8nia, a criada de d. Rostia, passou bambo-
leando-se, foi at a esquina da Rua Augusta e esteve
algum tempo conversando com um soldado de policia.
Voltou, sempre se rebolando e com as pernas abertas.
 uma criatura ingnua, meio selvagem. Acredita
em tudo quanto lhe dizem e tem grande necessidade
de machos. Quando pega um, entrega-se inteiramente.
No escolhe,  uma rede.
Todas as tardes, findo o servio, arruma a loua,
veste os trapos melhores, cala os sapatos de verniz
e sai. Se arranja algum dinheiro, deixa o emprego e
amiga-se. Erra sempre. Ciasta as economias, volta ao
trabalho, vai acumular novo peclio para sustentar
novos amantes, novas decepes. E doida pelas crian-
as: passa o dia gritando, brincando com elas. Mas
 noite esquece tudo e corre para a crpula. D. Roslia
atura-a por causa dos filhos. Quando lhe faz as contas,
diz numa voz spera que ouo perfeitamente na sala
de j antar:
- Pegue o seu ordenado, Ant8nla, e suma-se, no
torne a aparecer aqui.
Antnia recebe o salrio, entrouxa os cacarecos,
beij a as crianas e sai cantando, certa de que encon
trou um homem. Volta faminta, com marcas novas de
Ant8nia.
berreiro feio - e An
vagabunda e galicada
A cabocla respondeu descerrando os beios gros-
sos e mostrando os dentes largos num sorriso infantil.
Seu Ramalho no a viu: estaa de cabea baixa, mono-
logando, remexendo a cinza do cachimbo com o is-
foro. D. Adlia continuava encalistrada, bicuda, ma-
chucando o vestido. Senti-me leve, quase alegre, e es-
pantei-me de ver aquelas caras fnebres.
- Isso no tem importncia. Procurando bem...
H muitas por ai cavando a vida. Vamos ver se arran-
jamos alguma coisa, d. Adlia. Vamos ver. Depois lhe
digo.
feridas.
-  acabas no hospital,
Mas as crianas fazem um
t8nia fica.
A presena dessa criatura
traz-me sentimentos bons.
- Como vai, Ant8nia?
54
#
- Histria, murmurou seu Ramalho com desni
mo. Aquela no d para nada. O homem que casar
com ela faz negcio ruim.
* * *
Como era grande o calor, abri a janela do quintal.
Uma baforada de ar quente bateu-me no rosto. Debru-
cei-me e distrai-me acompanhando com a vista os mo-
vimentos da mulher que lava garrafas. O gato pulou
de um galho da mangueira, saltou o muro, trepou
num monte de lixo e cacos de vidro. O homem triste
andava entre as pipas, debaixo do telheiro, a encher
dornas.
Que estaria fazendo Marina? Pensei em d. Merce-
des. Vida bem sossegada a dessa galega. Um sem-ver
gonha o figuro que a sustentava, um caloteiro: devia
os cabelos da cabea e dava festas, punha automveis
 disposio da amsia. Como diab podia um macho
gostar daquela tipa de carnes bambas?
- Ladres, velhacos, porcos!
Bati a janela com fora. Depois voltei a abri-la.
A mulher magra, de ccoras, a saia entalada entre as
pernas, continuava a lavar garrafas. O homem triste
passeava entre as pipas.
Com certeza a minha vizinha quela hora pintava
as unhas. Indignei-me:
-  Vitria, porque no varre esta casa direito?
Cisco por toda a parte, montes de cisco. Tudo cheio
de poeira.
Vitria rio percebeu a repreenso. Agarrei uma
toalha e esfreguei com ela o guarda-loua:
- Porcaria!
Peguei urn livro, abri a porta e desci os degraus
do quintal, furioso com o amante de d. Mercedes. Ve-
lhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao
alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, os ho-
mens da Associao Comercial, numa adulao torpe.
Os credores midos deixavam-se esfolar com medo; os
grandes sangravam por convenincia: tinham interes-
ses, arranjavam o que queriam. E um safado como
aquele era troo no Estado. Que desgraa!
55
Deitef-me na espreguiadeira, acendi um cigarro,
abri o livro e comecei a ler maquinalmente. De quan-
do em quando bocejava, suspendia a leitura incom-
i. preensfvel.
O jardim, que a antiga inquilina vinha regar todas
as manhs, estava sujo, maltratado, coberto de gar-
ranchos e folhas secas.
Soltei o livro e fechei os olhos, aborrecido. Mas os
olhos no ficaram bem fechados: atravs das plpebras
meio cerradas distinguiam-se as coisas que estavam
perto do cho, dez ou quinze metros em redor -
o tronco do mamoeiro, o monte de lixo, as florinhas
desbotadas. D. Adlia, no banheiro, lavava roupa, e a
gua espumosa corria de l, vinha estagnar-se numa
poa junto  cerca.
Se aquela tonta prestasse, estaria ajudando a me,
ensaboando panos. Preguia. Estava era lendo bestei-
ras, arrancando cabelos das sobrancelhas com a pina
ou raspando os sovacos. A princfpio ainda tratara dos
canteiros. Habituara-se depois a levar para ali um ro-
mance, que no abria. Conversava. E eu me zangava
com as conversas dela, que, como j disse, eram ma-
lucas. Zangava-me de verdade. Mas estava ali com os
olhos meio fechados, espiando os canteiros e esperando
que a mulherinha chegasse.
Fazia uma semana que eu andava cavando uma
colocao para ela. Arranjar emprego, como no igno-
ram,  dificuldade. As pessoas a que a gente se dirige
sorriem. Tudo fcil, s ordens, perfeitamente. Escutam
#
as choradeiras com pacincia e escrevem cartes a ou-
tras pessoas. Estas escrevem outros cartes, e assim
por diante. Cada um se desaperta. Eu falara ao diretor
da minha repartio.
- Doutor, tenho uma vizinha que faz pena, moa
prendada. Mata-se para ajudar a familia, mas, como
sabe, trabalho de mulher em casa no rende. Se o se-
nhor pudesse, com a sua influncia...
O diretor respondera distrafdo:
- Est bem. Vamos ver.
Noutras reparties, a mesma histria com peque-
nas variantes:
56
- Moa decente, instruida, matando-se para au-
xiliar a familia. Um modelo. A me doente . .
Enfim uma cambada de mentiras inteis. Nos
t bancos:
- Moa digna, alguns conhecimentos de escritu-
rao mercantil e de aritmtica.
. Nos armazns:
- Muito preparo, muita leitura, excelente cal-
culista. Podia encarregar-se da correspondncia.
Nas redaes:
-  Fulano, voc no me arranja ai na expedi-
o qualquer coisa para uma moa que eu conheo?
Um osso, uma sinecura que justifique dofs ou trs vales
; por ms.
I Afinal fora encontrar para Marina um emprego
de cem mil-ris numa loja de fazendas. E ali estava
espiando o quinta,l com o rabo do olho.
Chap, chap, chap. Era o vascolejar da gua naz
I , garrafas. Lfquido se derramava: o homem triste en-
chia dornas. D. Adlia tossia no banheiro, espremendo
( . roupa. E Vitria, na cozinha, cantava: - "Currupa-
! co, papaco. A mulher do macaco . . . " Um galo no gali-
nheiro ps-se a arrastar a asa a uma franga. Eu estar
J , va fazendo ali a mesma coisa, apena,s com mais habi-
lidade e mais demora. A franga no aparecia. Quem
I,;F. se ligasse a ela faria negcio mau, seu Ramalho tinha
 ,.,, . razo. Se ele, que era pai, sustentava opinio assim,
  imaginem. Sovaco raspado, unhas cor de sangue e so-
' brancelhas que eram dofs traos. Mulher pelada. Para
 : que diabo uma pessoa arrancar as sobrancelhas.
De repente a frangufnha surgiu dentro do meu re-
r; duzido campo de observao. Com.o disse, eu apenas
., enxergava uns dez ou quinze metros do jardim. Pri-
meframente distingui as biqueiras vermelhas de uns
sa.patos, aqueles sapatos que, segundo a declarao de
seu Ramalho, custavam cinqenta mil-ris e duravam
um ms. Para ir ao quintal, sapato de sair e meia de
seda esticada no perno bem feito. timas pernas. As
coxas e as ndegas, apertadas na saia estreita, esta-
vam com vontade de rebentar as costuras.
Talvez a franguinha tivesse percebido que eu fin-
gia dormir: ps-ss a ciscar por ali, rindo baiadnho,
57
: T
avanando, recuando, mostrando-se pela frente e pela
retaguarda. Eu respirava com dificuldade e pensava
nas lies de geografia de seu Antnio Justino: -
"Primeiro desaparece o casco, depois os mastros." Era
o contrrio que se dava agora: quando Marina se afas-
tava, desaparecia em primeiro lugar a parte superior
do corpo, isto , a cintura, pois a cabea e o tronco
estavam fora do meu campo de observao.
Voltava-me as costas:
- Chi, chi, chi.
Um riso semelhante a um cochicho. Curvava-se
para a frente: a cintura fina sumia-se, os quadris au-
mentavam. O pano marcava-lhe a s.eparao das
#
ndegas. Um passo, outro passo. As ancas morriam,
agora eram as coxas grosss. flutro passo: uma ruga
na meia cor de creme mostrava a articulao da coxa
com a perna. E a perna cheia ia adelgaando at fin-
dar num jarrete fino encastoado no taco vermelho
do sapato.
- Chi, chi, chi.
O cochicho risonho afastava-se, chegava-me aos
ouvidos como o chiar de um rato. Chiar de rato, exata-
mente. Chiar de rato ou carne assada na grelha. Pa-
recia-me que aquilo estava chiando dentro de mim, Gue
a minha carne se assava e chiava. Os taces verme-
lhos viravam-se para o outro lado. As biqueiras sur-
giam e avanavam. L vinham pedaos de canelas. As
mos puxavam a saia para trs, distinguiam-se os joe-
lhos e as coxas. Como vinha curvada para a frente,
a barriga desaparecia.
- Chi, chi, chi.
O rato roa-me por dentro. Senti cheiro de carne
assada. No, cheiro de fmea, o mesmo cheiro que
antigamente me perseguia, em rreses de quebradeira.
- "D. Aurora, veja se me arranja um quarto mais
barato. Os tempos andam safados, d. Aurora."
As pernas de Berta eram assim bem torneadas.
Apenas as de Berta eram nuas, tudo em Berta era nu.
- Chi, chi, chi.
L estavam novamente os quadris expostos. Para
que aqueles panos? gritei interiormente. No era me-
58
lhor que se descobrisse tudo? Coxas descobertas, rabo
descoberto.
Foi assim que vi Marina entre as pestanas meio
cerradas, como Berta me aparecia. As ndegas cres-
ciam monstruosamente - e eu mal podia respirar.
Se d. Adlia e Vitria viessem ali, veriam aquela ar-
mada: Marina despida, curvada para a frente, mos-
trando um traseiro enorme.
Tolice. D. Adlia, fria, com o pensamento distante
de coisas assim, espremia camisas molhadas no ba-
nheiro. E Vitria conversava com o Currupaco, o vi-
vente que ela estima e no lhe provoca imagens in-
decentes.
Chap, chap, chap. A mulher magra no acabava
de lavar garrafas.  torneira derramava lquido na
dorna. Ouvia-se perfeitamente. A princpio chega-
va-me um som confuso. Agora, porm, os sentidos irri-
tados percebiam tudo. O chap-chap da mulher, o ru-
mor do lquido, preges de vendedores ambulantes,
rolar de automveis, a correria dos filhos de d. Ros-
lia no quintal prximo, o cheiro das flores, dos mon-
turos, da gua estagnada, da carne de Marina, entra-
vam-me no corpo violentamente. Apertei as plpebras.
A poa de gua, os canteiros mofinos, o monte de lixo
sumiram-se. O que eu via bem eram os quartos brancos
de Marina curvada, as coxas brancas.
- Chi, chi, chi.
Devia estar um pouco afastada, mostrando apenas
os taces ou as biqueiras dos sapatos. Mais perto, mais
perto, o cheiro mais vivo, o chichichi mais perceptfvel
- e eu sentia uma espcie de desmaio com aquela apro-
imao. O livro caiu, cruzei as pernas, sentei-me, vi
Marina em p junto da cerca, rindo como uma doida:
- Puxa! Que olhos abotoados! Parece que vai ter
uma congesto.
Eu devia estar ridculo. Baixei a cara, com ver-
gonha, e pus-me a esfregar as plpebras, a agitar a
cabea para espalhar as ruindades que havia dentro
dela. Quando terminei a esfregao, Marina continua-
va no mesmo lugar, exibindo os dentinhos, com tanta
malcia no rosto que fiquei besta, acuado. Felizmente
#
podia v-la da barriga para cima.
59
..
- Cara de mal-assombrado, pilheriou Marina. S
nhou com alma do outro mundo?
A viso obscena e os desejos lbricos esmoreceran
- Sonhei nada!
Estava num entorpecimento estpido. Tive a in
presso extravagante de que o ar havia tomado c
repente a consistncia mole e pegajosa de goma-ar!
bica. Nesse ambiente gelatinoso Marina se movia, n
dava, desesperadamente bonita, o peitinho redondo si
bindo e descendo, a querer saltar pelo decote baix
pimenta nos olhos azuis, os cabelos de fogo desmax
chando-se ao vento morno e empestado que soprav
dos quintais. Veio-me o pensamento maluco de que t
nham dividido Marina. Serrada viva, como se fazi
antigamente. Esta idia absurda e sanginria deu-rr:
grande satisfao. Ndegas e pernas para um lado, cf
bea e tronco para outro. A parte inferior mexia-;
como um rabo de lagartixa cortado. Mas eu no repa
rava na parte inferior, que tanto me perturbara: reci
bia as fascas dos olhos azuis e deejava enxugar cor
beijos a saliva que umedecia os beios um pouco gro
sos da minha amiga. Estava linda. Tinha corrido pc
ali alguns minutos como um rato, chiando. Eu era m
gato ordnrio. Podia saltar em cima dela e abocf
nh-la: ao p das estacas podres que Vitria remov
todos os meses, desafiava-me com os olhos e com c
dentes midos. No saltei. O que fiz foi arranjar um
carranca srfa, que devia ser burlesca, porque Marin
soltou uma gargalhada.
- Marina, grunhi, sua me no lhe falou?
- Sobre o qu?
- Sobre uma colocao. Uma colocao para voci
Sim,  bom uma pessoa pensar no futuro. Vocs n
conversaram?
- No.
- Ah! Pensei que tivessem conversado. Pois
Sua me me falou e eu andei por a rrartelando. Fi
o que pude.
Marina tinha agora o rosto comprido e uma rug
entre as sobrancelhas:
- Parece que minha me est com pena do bc
cado que me d.
so
                - No diga isso, crfatura. E para o seu bem.
                D. Adlia saiu do banheiro com uma bacfa de
        roupa molhada, que fa enxugar l dentro, a ferro.
                - Boa noite, gritou de longe.
                E entrou logo. Ia escurecendo, e aquele boa naite
        era uma espcie de censura, que ela no fazia clara-
        mente porque tinha medo da filha.
                - Est af, Marina. A pobre a esta hora lavando
        roupa!
                Marina, em silncio, quebrava torres com o salto
        do sapato.
                - Voc me desculpa a franqueza. Eu no devfa
        estar dando opinio sobre sua casa. E porque Ihe te-
        nho muita amizade. Por isso andei pedindo por af.
                - Encontrou alguma        coisa? perguntou Marina
        sem entusiasmo.
                - Encontrei. Para bem dizer, no encontref coisa
        boa no. Emprego pblico n.o h. Tudo fechado, tudo
        escuro. Enfim sempre achei um gancho.
                - Onde?
                - Numa loja.        Cem mil-ris por ms. Um prin-
        cipio. Depois a gente cava servio mais fcil e mais
        rendoso. O que  preciso  comear.
                - Numa loja? disse Marina com um risinho mau.
#
        Obrigao de aturar pilhrias e        at descomposturas
        dos fregueses. E belisces dos empregados. Muito bem.
                - Oh! Marina!
                - Julgo que minha me est com inteno de me
        ver na rua. E voc tambm est.
                - Oh! Marina!        Que horror! Se voc no quer,
        acabou-se. Meti-me nisso porque sua me me pediu,
        compreende? E porque lhe quero muito bem.
                Marina sensibilizou-se. Os olhos aguaram-se, o bef-
        cinho tremeu :
                - Obrigada, Lufs.
                E estirou a mo. Levantei-me, tomef-lhe os dedos,
        0 contacto da pele quente deu-me tremuras, acendeu
        os desejos brutais que tinham esmorecido. Olhando-a
        de cima para baixo, via-lhe os seios, que subiam e des-
        ciam, as coxas, a curva dos quadris. Veio-me a tenta-
        o de rasgar-lhe a saia. E repetia como um demente:
                -  porque Ihe quero muito bem, Marina.
61
Apertei-lhe a mo, mordi-a, mordf o pulso e o
brao. Marina, plida, s fazia perguntar:
; - Que  isso, Lufs? Que doidice  essa.?
Mas no se afastava. Desloquei as estacas podres,
puxei Marina para junto de mim, abracei-a, beijei-lhe
a boca, o colo. Enquanto fazia isto, as minhas mos
percorriam-lhe o corpo. Quando nos separamos, fica-
mos comendo-nos cm os olhos, tremendo. Tudo em
redor girava. E Marina estava to perturbada que se
esqueceu de recolher um peito que havia escapado da
roupa. Eu queria mord-lo e receava ao mesmo tempo
que d. Adlia nos surpreendesse, encontrasse a filha
descomposta.
- Meu Deus! exclamou Marina sobressaltada.
E virou-se rapidamente. Quando tornou a mostrai
o rosto, o peito havia desaparecido.
- Que foi que ns fizemos, Lus?
E comeou a choramigar. A comoo dela me trou
xe alguma vaidade, um pouco de arrependimento e
quase a certeza de que nunca ningum lhe havia to
cado nos peitos. Apesar da admirao idiota que Ma
rina tinha a d. Mercedes, tomei aqueles soluos comc
prova de inocncia.
- Que foi que ns fizemos, Lus?
A cantilena chorosa arrasava-me os nervos. Cocei
a testa, agoniado:
-  o diabo, Marina. Ningum tem culpa. Fo;
uma topada. E agora  continuar. Qualquer dia a gen
te casa. E verdade, precisamos tratar disso. Voc quf
acha?
Concordou pa.ssivamente, numa slaba:
- .
Esta anuncfa chocha me desorientou. Vrias ve
zes tinha pensado em amarrar-me a ela, e nunca mE
passara pela cabea a idia de que a minha amigz
hesitasse. Mordi os beios, despeitado:
- Falei nisto porque pensei . . . Compreende. Sim
perfeitamente. Enfim voc  quem sabe.
- Marina! gritou l de dentro seu Iamalho. Cuf
dado com o sereno.
- Est certo, disse Marina rapidamente. Velhc
pau. Se voc acha que deve ser . . . Adeus.
62
- Adeus, Marina. Outra coisa. Vamos deixar de
besteira. Porque  que a gente no se encontra aqui
no escuro, meia-noite, quando estiverem dormindo?
Valeu? D c um beijo.
- Venha lavar os pratos, Marina.
- J vou.
E escapuliu-se correndo. Sentei-me na espreguia-
deira, apanhei o livro:
#
-  uma dos diabos. Eu queria dar a ela alguma
independncia. Acabou-se. Gfosto da pequena, amarro
uma pedra no pescoo e mergulho.
* * *
Defronte da minha casa veio morar uma famlia
esquisita, que no se relacionou com a vizinhana: um
velho barbudo, encolhido, e trs moas amarelas, sujas,
mal vestidas, ruivas e arrepiadas. O homem, de nome
ignorado, andava olhando os ps, carrancudo, e no
cumprimentava ningum. As vezes surgia a figura de
uma das moas  janela; mas se algum aparecia na
rua, o postigo se fechava silenciosamente.
- Eu queria saber que esncie de gente  aquela,
resmungava d. Adlia. S bicho.
- E mesmo, d. Adlia, concordava AntBnia Tudo
entocado. S b;cho.
Seu Ivo procurou entrar na toca, bateu, pediu com:-
da: no teve resposta. Um dia d. Mercedes atracou-me
na passagem:
- O senhor no me dir que mistrio  esse?
- E eu sei? minha senhora.
- De que vivero eles? perguntava d. Adlia.
Seu Ramalho explicava.
- Cada qual tem seus ganchos.
-  exato, confirmava d. Adlia.
Enquanto a criada andava em busca de machos,
d. Roslia esquecia os meninos e ficava horas ganhan-
do calos nos cotovelos, o olho pregado na casa da fa-
milia esquisita:
- Que vidal Uma pessoa assim cria mofo. rTem
vo  igreja.
63
- Talvez sejam protestantes, comentava seu Ra
f
malho.
- Com certeza. Devem ser bodes.
At Marina fervia de curiosidade:
- Lus, descubra isso, meu filho.
' De repente comearam a circular boatos fefos: a
moas eram filhas e amantes do velho.
- Que horror! Logo trs!
- E por isso que ele anda capiongo. So remorsos
' - Provavelmente.
- Eu queria que me dissessem como se soube.
- Ora como se soube! Sabe-se tudo.
- Mas quem viu?
O carvoeiro tinha visto o homem abotoado a um
das sujeitas, no quarto. Porcaria. Nem fechavam
porta. D. Mercedes resumiu o caso:
- E verdade.
- O carvoeiro lhe contou, d. Mercedes?
- No, foi outra pessoa. Na cidade onde eles mc
ravam todo o mundo falava. Foi o que me disseraxr
Sei de fonte limpa.
Quem teria dito? Com certeza a personagem grat
da que vivia com ela.
- Esto ouvindo? d. Mercedes garantiu.
, - At d engulhos, exclamou Antnio cuspindc
Comer trs filhas! Que lobisomem!
Da em diante o velho se chamou Lobisomem.
- Parece que Lobisomem amanheceu doente. N
saiu hoje.
- So pecados.
As crianas de d. Roslia contavam histrias d
lobisomens, e o heri delas era o vizinho. A notfcia chE
gou a,os ouvidos de Julio Tavares:
- Diz que um velho por aqui destambocou a
filhas? Como ?
- Calnias, respondeu Moiss.
- Em todo o caso  bom verificar isso. TalvE
#
a gente pudesse agarrar uma.
Cachorro! Lobisomem continuava como tinha ch
gado, indiferente, a cara enferrujada, to distrafdo qu
esbarrava com as pessoas, e os choferes paravam c
autos violentamente para no atropel-lo. E as filha
64
coitadas, amarelas, feias, nem se penteavam. Saberiam
alguma coisa? Talvez no soubessem. Ao mudar-se
para ali, certamente j traziam uma carga de infeli-
cidades. E era possfvel que houvessem percebido frag-
mentos de horrores, gestos de desprezo, pilhrias ladra-
das na rua. Pobre do Lobisomem! No tinha hora para
sair, hora para chegr. Sempre s. Nem um guarda-
chuva, nem uma bengala, trstes necessrios a homem
to curvado. Ora para um lado, ora para outro, sem
destino. Que vida! Nem um hbito. Esta idia de uma
pessoa viver sem hbitos era para mim extremamente
dolorosa. Apesar de haver atravessado uma existncia
horrvel, sempre encontrara nela, mesmo nos tempos
mais duros, ocupaes que me entretinham. Compara-
va-me a Lobisomem. Eu era quase feliz, e a compara-
o me atenazava.
Marina tinha deixado de ver-me  tarde, mas todas
as noites a gente se reunia no fundo do quintal. Ela
passava pelo buraco da cerca, encostava-se ao tronco
da mangueira, e eram beijos, amolegaes que nos
enervavam.
- Vamos entrar, descansar um bocado, Marina.
J que chegou aqui, d mais uns passos.
- Voc est maluco? Eu vou dar o fora. Qual-
quer dia a gente mete o rabo na ratoeira. Os velhos
descobrem tudo, estrilam, e  um fuzu da desgraa
- Deixa disso, Marina, vamos l para dentro.
- Good-bye.
- Vem c, Marina.
- Vai-te embora, Lobisomem.
At ali, quela hora, surgia o nome do vizinho.
O que mais me aborrecia era no saber se as pessoas
que falavam dele acreditavam na histria suja. En-
chia-me de raiva por no conseguir livrar-me dos
fuxicos. Desprezava involuntariamente o desgraado
Lobisomem. Se aquilo fosse verdade? No tinha verossi-
milhana, era aleive, disparate. Mas tanta gente repe-
tindo as mesmas palavras... E casos iguais j se ti-
nham visto.
- Besteira. Perdendo tempo com bobagens. Para
o inferno.
65
Realmente a cara de Lobisom.em no inspirava
simpatia. E as flhas, de boca aberta, brancas, enros-
cadas, moles... Gente suspeita. Estas dvidas eram
terrfveis. Agarrava-me ao judeu para libertar-me delas:
'` - Isto  o diabo. Uma criatura inofensva, uma
criatura parada!
4' - Safadeza, dizia Moss tranqilamente.
- Infmia. Esta canalha precisa chicote.
- Pois no fale nisso, homem. Para que mexer em
porcaria?
- No  tanto assim, intervinha Juli.o Tavares.
;,.
O incesto  natural, explica-se.
- L vem pedantismo.
E no prestava ateno  conversa de Julio Tava-
res. Lembrava-me de outro indivduo infeliz, um serta-
nejo que vi h muitos anos, quando ele saia da priso
depois de cumprir sentena. Era um cearense esfomeado
que tinha aparecido na vila em tempo de seca. Esmo-
lambado, cheio de feridas, trazia escanchada no pescoo
uma filhinha de quatro anos. Tinham ido morar na
rua das putas e viviam de esmolas. Um dia as vizinhas
#
ouviram gritos na casinha de palha e taipa que eles
ocupavam. Juntaram-se curiosos, olharam por um bu-
; raco da parede e viram o homem na esteira, nu, abrin-
do  fora as pernas da filha nua, ensangentada. Ar-
rombaram a porta, passaram o homem na embira,
deram-lhe pancada de criar bicho - e ele confessou,
debaixo do zinco, meio morto, que tinha estuprado a
menina. Processo, condenao no jri. Anos depois os
mdicos examinaram a pequena: estava interinha.
O que havia era sujidade e um corrimento. Tratando a
doena da filha com remdios brutos da medicina ser-
taneja, o homem tinha sido preso, espancado, julgado
e condenado.
- Est ouvindo, seu Moiss? Cip de boi, faco
e p no tronco.
Moiss indignava-se. Julio Tavares bocejava:
- Natural. A justia no  infalvel.
* * *
66
- Marina, a gente deve acabar com isto, minha
filha. Vamos para dentro.
- Vou nada!
Torcia o corpo, defendia a virgindade com unhas
e dentes.
- Est direito. Ento  melhor apressar o casrio.
- Com que roupa? disse Marina.
- Que  que falta?
- Tudo. Eu sou uma noiva pelada, meu filho.
Impacientei-me :
- Ora! ora! ora! Entre ns no h cerim8nia. Ar-
ranja-se. Eu tenho umas economias, pouco, mas tenho.
Tambm voc no precisa de muita coisa. Urrtas fronhas,
umas camisas.
Como vem, eu tinha boa vontade. O que receava
era transformar as nossas relaes, midas, num acon-
tecimento social importante.
Aquilo viera pouco a pouco, sem a gente sentir.
Naturalmente gastei meses construindo esta Marina
que vive dentro de mim, que  diferente da outra, mas
se confunde com ela. Antes de eu conhecer a moci-
nha dos cabelos de fogo, ela me aparecia dividida numa
grande quantidade de pedaos de mulher, e s vezes
os pedaos no se combinavam bem, davam-me a im-
presso de que a vizinha estava desconjuntada. Agora
mesmo temo deixar aqui uma sucesso de peas e de
qualidades: ndegas, coxas, olhos, braos, inquietao,
vivacidade, arror ao luxo, quentura, admirao a
d. Mercedes. Foi difcil reunir essas coisas e muitas
outras, formar com elas a mquina que ia encon-
trar-me  noite, ao p da mangueira. Preguiosa, in-
grata, leviana. Os defeitos, porm, s me pareceram
censurveis no comeo das nossas rela.es. Logo que
se juntaram para formar com o resto uma criatura
completa, achei-os naturais, e no poderia imaginar
Marina sem eles, como no a poderia imaginar sem
corpo. Alm disso ela era meiga, muito limpa. Asseio,
cuidado excessivo com as mos. Passava uma hora no
banheiro, e a roupa branca que vestia cheirava. Nos
nossos momentos de intimidade eu sentia s vezes uma
tentao maluca; baixava-me, agarrava-lhe a orla da
67
camisa, beijava-a, mordia-s. Isto me dava um praze
muito vivo.
- O pior  que voc ainda no me pediu, gemet
Marina.
E fingiu-se amuada. Liguei pouca importncia a
amuo, mas fiquei remoendo aquela idia desagradve
de explicar-me aos outros sobre coisas que s eram in
;.
teressantes para ns. Explicaes horrveis. Necessri
#
entender-me com seu Ramalho, pedir o consentimentt
dele, dizer besteiras. Ia escrever-lhe uma carta con
laos sagrados, felicidade conjugal, himeneu. Infmia
S a idia de escrever isto me dava nuseas. Intene;
puras. E era preciso comprar mveis, trastes de cozi
nha, cortinas para janelas, almofadas. Intenes puras
Domingo, na missa, o padre leria: - "Querem casar-s
Lus Pereira da Silva, com trinta e cinco anos, etc.
etc., e Marina Ramalho, etc., etc.". Lus Pereira da Sil
va, com trinta e cinco anos, estava longe da igrej
e dos banhos. Que necessidade tinha Luis Pereira d
Silva daquela verbiagem? Depois os cartes de comu
nicao, grandes, com letras douradas, aos colegas d
repartio, aos conhecidos, s amigas de Marina, aa
padrinho, oficial do exrcito. Indispensvel um cart
' ao padrinho, que era oficial do exrcito e servia en
 Mato Qrosso. Algum me mandaria um telegrama
Intenes puras. Marina d grande valor aos tele
gramas.
- Peo amanh, murmurei compondo mental
mente as frases bestas da carta. Falo amanh. Ou es
crevo.
Mo de esposo, unio conjugal, intenes puras -
Marina gosta disto. Provavelmente iria recortar e guar
dar com cuidado a notcia que o jornal publicari
na stima pgina, junto aos versos. Em p, diante di
livro aberto, o juiz me perguntaria: - "O senhor Lui
da Suva quer casar com d. Marina Ramalho?" Eu, en
cabulado, mastigaria uma sflaba, esirega,ndo as moa
Marina, de roupa branca e flores de laranjeira, ar
ma,ria com a cabea, plida e comovida. O diretor m
diria: - "Entrou no rol dos homens srios, seu Luis.'
D. Adlia choraria abraada  filha, como  de cos
tume. Os sapatos me apertariam os calos, e o telegra
68
i
ma seria pouco mais ou menos assim: "Felicitaes ao
prezado amigo." Automveis da casa para a igreja e da
igreja para a casa. Haveria na minha sala alguns tro-
os novos e inteis. A noite, quando eu fosse procurar
em minha mulher as ltimas novidades, ela me falaria
com entusiasmo naquela glria toda. No dia segninte
d. Roslia, se penduraria  janela para gritar: - "Es-
tava muito bonita a sua grinalda, minha negra." Quan-
to iriam custar tantas maadas? Talvez os trs contos
de ris voassem.
- d o diabo, Marina. Vamos ver se arranjamos
isto com simplicidade.
* * *
                No outro dia retirei quinhentos mil-ris do banco
        e fui  casa vizinha:
                -  d. Adlia, faa o favor de chamar a Marina.
                E, enquanto esperava:
                - Ela contou  senhora, n,o contou? Pois . Pa-
        rece que o ms vindouro a gente se engancha. Tenha
        a bondade de explicar isto a seu Rsmalho. Ele j
        sabe, no?
                D. Adlfa embrenhou-se em circunlquios para
        dizer que o marido sabia e no sabia. 8abia que eu
        gostava da menina. Isto se via perfeitamente. Agora
        ir para a igreja assim to depressa era surpresa.
                Marina se vestia num quarto prximo, topando
        nos mveis, derrubando as coisas.
                - E isto, d. Adlia. Quem tem de se empenha,r
        que se venda logo. A senhora no acha? Esplique a seu
        Ramalho. Esse negcio de pedido de casamento  mui-
        to pau, no tenho jeito. Aparea, arina.
                - Um minuto, respondeu a minha amiga mos-
        trando um pedao da cara pela porta entresberta.
        Estou acabando de me calar.
#
                - Est nada! Est pintando os beios. Essa sua
        filha  uma pintura, d. Adlia.
                Sem saber se aquilo era eloglo ou censura, d. Ad
        lia sorriu veuada e justicou arinav:
                - E a mocidade.
69
Metf a mo no bolso para tirar os quinhentos
mil-ris, acanhei-me. Tirei um cigarro, que machuquef
olhando as figuras das paredes:
- A senhora tem um Corao de Jesus muto bo-
nito.
Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra
de cip e to bem vestida como se fosse para uma
festa. Ao pegar-me a mo, ficou agarrada, os dedos
contrafdos, o brao estirado, mostrando-se, na faixa
de luz que entrava pela janela. Isto me dava a im-
presso de que o meu brao havia crescido enorme-
mente. Na extremidade dele um formigueiro em rebu-
lio tinha tomado subitamente a conformao de um
corpo de mulher. As formigas fam e vinham, entra-
vam-me pelos dedos, pela palma e pelas costas da mo,
corriam-me por baixo da pele, e eram ferroadas medo-
nhas, eu estava cheio de calombos envenenados. No
distinguia os m,ovimentos desses bichinhos insignifi-
cantes que formavam o peito, a cara, as coxas e as
ndegas de Marina, mas sentia as pcadas - e tinha
provavelmente os olhos acesos e esbugalhados. Com
uma sacudidela, desembaracei-me da garra que me
prendia e tornei-me um sujeito razovel:
- Estvamos combinando, Marina. Quanto mais
depressa melhor, foi o que eu disse a d. Adlia. Gente
pobre no tem luxo.
- E preciso fazer as coisas com decncia, opinou
Marina.
- Claro. Mas com modstia. No , d. Adlia?
Dispensa-se o vu. Para que vu? Eu por mim casava
hoj e.
Marina escandalizou-se, trombuda. E d. Adlia, me-
xendo-se aflita na cadeira, que rangia sob as banhas
excessivas, baixava os olhos, escondia as mos papu-
das debaixo do avental, dava razo a mim, dava razo
 filha, num desconchavo:
-  mesmo, seu Lus, gente pobre no tem luxo.
Com decncia, e ento? Antigamente um noivado era
servio. Preparar a roupa branca, bordar a colcha, que
trabalho! Tarefa para meses. Hoje em dia, na mqu
na, vuco, vuco, vuco, num instante se borda uma
colcha.
70
- A gente podia passar sem a colcha bordada.
- Isso  casamento de cambembe, disse Marina.
D. Adlia, com os olhos suplicantes, pedia silncio.
- A propsito de roupa branca, d. Adlia. .
Calei-me, com vergonha de oferecer os quinhentos
mil-ris. O mulhero suspirou :
- No meu tempo de moa um pedido de casa-
mento era coisa muito sria.
Agora eu estava ali conversando sobre lenis.
- A propsito de roupa branca, d. Adlia, estive
pensando . . . At falei com a Marina, provavelmente
ela disse  senhora. Para abreviar, compreende?
Compreendia.
- Cedo ou tarde eu havia de comprar esse panos.
Para que etiqueta? Por isso me lembrei de propor a
Marina . . . A senhora no leva a mal, suponho.
No levava:
- Quando duas pessoas se entendem . .
- Pois . Uma espcie de adiantamento.  tirar
de uma mo e botar n outra. Fica tudo em casa.
Entreguei a Marina a pelega de quinhentos:
#
- Est aqui, minha filha. Comece os arranjos.
E adeus, que no quero perder o ponto.
Marina recebeu o dinheiro sem constrangimento,
e eu me sensibilizei julgando que ela procedia assim
por estar identificada comigo. Fiz-lhe algumas reco-
mendaes midas e retirei-me.
A primeira pessoa conhecida que encontrei na rua
foi Julio Tavares. Senti um estremecimento desagra-
dvel, a repugnncia que sempre me vinha quando
dava de cara com aquele sujeito, e fingi no v-lo,
entrei numa loja para no falar com ele. Na reparti-
o as horas correram doces e rpidas. O caf estava
cheio de caras amveis. Guardei na memria pedaUs
de sonversas. O cego dos bilhetes de loteria passou
enre as cadeiras, batendo com o cajado no cho, can-
tando o nmero.
Se eu pegasse a sorte grande, Marina teria colchas
bordadas a mo. Pobre de Marina! Precisava fazenda
macia, pulseiras de ouro, penduricalhos.
As cadeiras da minha casa eram bem ordinrias.
No tijolo safado no havia tapete. Nem um quadro na
?1
parede. E o colcho, duro como pedra, faria escorfaes
no corpo de Marina. Contento-me com muito pouco,
habituei-me cedo a dormir nas estradas, nos bancos dos
jardins.
- 16.384, gemfa o cego batendo com a bengala no
cimento.
Ou seria outro nmero. Cem contos de rls, di-
nheiro bastante para a felicldade de Marina. Se eu pos-
sufsse aquilo, construiria um bangal no alto do Farol,
um bangal com vista para a lagoa. Sentar-me-ia ali,
de volta da repartio,  tarde, como Tavares & Cia.,
dr. Clouveia e os outros, contaria histrias  minha
mulher, olhando os coqueiros, as canoas dos pesca-
dores.
- 16.384.
Vestido de pijama, fumando, olharia l de cima os
telhados da cidade, os bondes pequeninos a rodar quase
parados e sem rumor, os focos da iluminao pblica,
os coqueiros negros  noite. Uns quadros a leo enfei-
tariam a minha sala. Marina dormiria num colcho
de paina. E quando saltasse da cama, pisaria num ta-
pete felpudo que lhe acariciaria os ps descalos.
- 16.384.
; Um tapete fofo, sem dvida. E a cama teria uma
colcha bordada cobrindo o colcho de paina, uma col-
cha bordada em seis meses.
* * *
Alguns dias depois Marina me chamou para mos
trar os objetos que tinha comprado. No era quase
nada: calas de seda, camisas de seda e outras ni-
nharias.
- Que  do resto?
- Que resto? perguntou espantada. E s isto. Veja
se as camisas esto bem feitas, diga se as cores lhe
agradam.
- Mufto boas, murmurei.
- Mas voc nem est olhando.
- Para qu? No entendo. O que vejo  que falta
quase tudo.
72
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- Que se h de fazer? E a carestia. Em todo 0
caso julgo que voc aprova..
Que remdio! Havia de brigar com ela, dizer-lhe
que tivesse juzo, explicar que sou pobre, no posso
comprar camisas de seda, pde-arroz caro, seis pares
de meias de uma vez? Seis pares de meias, que des-
perdcio! Se ela suasse no veio da mquina ou agen-
tasse as enxaquecas do chefe na repartio, no faria
semelhante loucura. Mas no despropositei, como 0
corao me pedia.
; - Est bem. Vamos comprar o resto. Fao eco-
nomia, ouviu? Os cobres est,o escassos.
Sangrei mais quinhentos mil-ris. Depois sangrei
duzentos, adquiriu mveis em leilo e vesti-me de novo,
porque as minhas camisas estavam esfiapadas e o palet
se cobria de ndoas. Ma.rina aplaudia a transformao
que se ia operando no meu exterior:
. - Precisa  mandar consertar essa gola. O corpo
est bom. Os ps no prestam, com esses sapatos inde-
centes. D por visto um pav:o.
Ofereci a seu Ivo os meus sapatos cambaios e re-
formei os ps. O dinheiro sumia-se, essas alteraes chu-
pavam-me as reservas acumuladas com pacincia. Eu
vivia preocupado, fazendo clculos na rua. E ainda n,o
; havia comprado uma lembrana para Marina.
Liquidei a minha conta no banco, estudei cuidado-
samente uma vitrina de jias, escolhi um relgio-pul-
seira e um anel. Saf da joalheria com vinte mil-ris
na carteira, algumas pratas e nfqueis. Mais nada.
Apenas confiana no futuro, apesar dos encontres
que tenho suportado. Os matutos acreditaram na mi-
nha literatura. Vinte mil-ris para caf e cigarros.
Ia cheio de satis;fao maluca. No tirava a mo
do bolso, apalpava as ca,ixinhas, sentia atravs do papel
de seda a macieza do veludo. Na alvura do brao ro-
lio a fita do relgio faria uma cinta negra; a pedri-
nha branca faiscaria no dedo mido.
- Moiss me emprestar cinqenta mil-ris at o
ms vindouro.
Ao chegar  Rua do Macena recebi um choque
tremendo. Foi a decepo maior que j experimentei.
#
A janela da minha casa, cado para fora, vermelho,
74
papudo, Julio Tavares pregava os olhos em Marina,
que, da casa vizinha, se derretia para ele, to embe-
bida que no percebeu a minha chegada. Empurrei a
porta brutalmente, o corao estalando de raiva, e fi-
quei em p diante de Julio Tavares, sentindo um de-
sejo enorme de apertar-lhe as goelas. O homem per-
turbou-se, sorriu amarelo, esgueirou-se para o sof,
onde se abateu.
- Tem negcio comigo?
A clera engasgava-me. Julio Tavares comeou a
falar e pouco a pouco serenou, mas no compreendi
o que ele disse. Canalha. Meses atrs se entalara num
processo de defloramento, de que se tinha livrado gra-
as ao dinheiro do pai. Com o olho guloso em cima
das mulheres bonitas, estava mesmo precisando uma
surra. E um cachorro daquele fazia versos, era poeta.
Aprumava-se, as palavras corriam-lhe facilmente,
mas continuei a ignorar o que significavam.
- Tem negcio comigo? repeti sem pensar que
o tipo j havia provavelmente dado resposta.
A loquacidade de Julio Tavares aborrecia-me. Uma
voz lquida e oleosa que escorria sem parar. A minha
clera esfriava, o suor colava-me a camisa ao corpo.
A roupa do intruso era bem feita, os sapatos bri-
lhavam. Baixpi a cabea. Os meus sapatos novos esta-
vam mal engraxados, cobertos de poeira. Ps de pavo.
Julio Tavares falou sobre a poltica do pafs.
A enxurrada cobria-se de ndoas de gordura, que se
alastravam.
Ia l discutir com aquele bandido? O meu desejo
era insult-lo.
- Nunca estou em casa a esta hora. Estou no
servio, percebe? Sou um homem ocupado.
- Perfeitamente, respondeu Julio Tavares. Uma
vida cheia, uma vida nobre, dedicada ao trabalho.
S a pontaps.
- Muito bonito, seu doutor.
Ultimamente, embora repugnado, eu o tratava por
voc.
- Uma coisa  jogar frases em cima do trabalho
alheio, outra  pegar no pesado.
Julio Tavares fechou a cara:
75
- Todos ns temos as nossas obrigaes, homem.
Cada qual sabe onde o sapato lhe aperta.
Olhei os ps dele, e o meu dio aumentou:
- Os seus no devem apertar muito.
- Acha?
Baixei a cabea, mordi os beios para no grital
os desaforos que me subiam  garganta e que eu en
golia, pus-me a marchar na sala estreita, batendo os
calcanhares com fora. De uma parede a outra qua-
tro passos. A porta, que tinha ficado aberta, mostra-
va-me os paralelepfpedos, as sarjetas, as pernas dos
transeuntes, s as pernas, porque, como j disse, eu
tinha a cabea baixa. A minha curiosidade se concen-
trava nos sapatos dos transeuntes. Passaram os taman-
cos de um carregador, os chinelos de Antnia, umas
botnas velhas que julguei serem de Lobisomem. A
cranas de d. Roslla corriam e gritavam, mas esta-
vam descalas.
Lembrei-me da fazenda de meu av. As cobras se
arrastavam no ptio. Eu juntava punha,dos de seixos
midos que atirava nelas at mat-las. As vezes a brin-
cadeira se prolongava, mas afina,l as cobras morriam,
e perto dos cadveres ficavam montes de pedras. Certo
dia uma cascavel se tinha enrolado no pescoo do velho
Trajano, que dormia no banco do copiar. Eu olhava
#
e longe aquele enfeite esquisito. A cascavel chocalha-
va, Trajano danava no cho de terra batida e gri
tava: - "Tira, tira, tira." As alpercatas de Amaro va
queiro iam do curral dos bois o chiqueiro de cabras,
Em dias de pega Camilo Pereira da Silva desenrosca
va-se, vestia o gibo, calava as perneiras. O barbica
cho do chapu de couro terminava debaixo do queixc
numa borla que lhe fazia uma barbinha ridcula. Assin
paramentado, Camflo Pereira da Silva andava emproa
do como um galo, e as rosetas das esporas de ferrc
tilintavam.
Levantei a cabea. Julio Tava,res sorria e conti
nuava a derramar a voz azeitada. Perto, pancadas di
ferro tinindo. Eram as picaretas dos calceteiros qm
deslocavam as pedras da rua, consertavam o cala
mento. No fim de uma daquelas viagens de quatro pas
sos eu via, a alguns metros de distncia, um mont
?6
de paralelepipedos que a poeira cobria. E, nessa nu-
vem de poeira, figuras curvadas, movendo-se. Desejei
atirar todos aqueles paralelepfpedos em cima de Julio
Tavares.
Tornei a bafxar a cabea, desanimado, continuei
a olhar os ps dos raros transeuntes que passavam na
rua. Ia e vinha. Um, dois, um, dois - meia-volta. Este
exercicio era irritante. A porta escancarada convidar
va-me a abandonar tudo, a sair sem destino - um,
dois, um, dois - e no parar to cedo. Nenhum sar-
gento me mandaria fazer meia-volta. Os meus passos
me levariam para oeste, e  medida que me embre-
nhasse no interior, perderia as peias que me impuse-
ram, como a um cavalo que aprende a trotar. Tor-
nar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, anda-
ria numa corrida vagabunda pelas fazendas sertane-
jas, ouviria as cantigas dos cantadores e as conversas
das velhas nas fontes, veria  beira dos caminhos es-
treitos pequenas cruzes de madeira, as mesmas que vi
h muitos anos, enfeitadas de flores secas e fitas des-
botadas. Indicaria uma delas, estirando o beio. Quem
teria morrido ali? E algum me informaria, repetindo
as histrias dos cantadores e as conversas das velhas
nas fontes: - "Um sujeito que namorou a noiva de
outro."
Estremeci. Os meus dedos contrafram-se, move-
ram-se para Julio Tavares. Com um salto eu poderfa
agarr-lo.
Pensei em seu Evaristo e na cobra enrolada no
pescoo do velho Trajano. Parei no meio da sala, ater-
rado com a imagem medonha que me apareceu. O pes-
coo do homem estirava-se, os ossos afastavam-se, os
beios entreabriram-se, roxos, intumescidos, mostran-
do a lngua escura e os dentinhos de rato.
- Est doente? perguntou-me Julio Tavares.
Suponho que a minha resposta foi despropositada.
0 rapaz levantou-se, aproximou-se, e eu me desviei dele
com um palavro. No me lembro do que disse, mas
sei perfeitamente que terminei com um palavro obsce-
no. Julio Tavares aprumou-se.
- Puta que o pariu, resmunguef.
?7
                        Parece que ele ouviu. Mas fingiu que no tinha
                ouvido. Agarrou o chapu e saiu.
                        - Bonitol
                        E pus-me a esfregar as mos:
                        - Por causa de uma guenza de maus costumes
                estar um homem a aperrear-se. Enrolem-se, durmam,
                danem-se, vo para a casa do diabo.
                        Fui  cozinha e conversei um minuto com o Curru-
                paco.
                        - O jantar est na mesa, disse Vitria.
#
                        Entrei na sala de jantar, bebi um pouco de aguar-
                dente, fiquei um instante olhando, por cima do muro,
                a mulher que lava garrafas e o homem que enche
                dornas.
                        A sombra da mangueira ia cobrindo o quintal.
                        - As moscas esto comendo o jantar, gritou Vi-
                tria.
                        Cheguei-me  mesa, bebi mais um trago de aguar-
                dente e tomei o caminho da rua. Marina estava  ja-
                nela :
                        - Que  isso? Vai com tanta pressa! Fale com
                os pobres.
                        Pareceu-me contrafeita. Sem-vergonha.
                        - No matei seu boi no, moo. Me largue.
        `                Passeei  toa pelas ruas, parando em frente s
                vitrinas, com a tentao de destruir os objetos expos-
                tos. As mulheres que ali estavarr em pasmaceira, ad-
                mirando aquelas porcarias, mereciam chicote. Fui ao
                jornal, li os telegramas. Eram notcias sem importn-
                cia, mas julguei perceber nelas graves sintomas de de-
                composio social. Estive olhando sem ler os cartazes
                do cinema, entrei maquinalmente. O porteiro sabe que
                trabalho na imprensa e no pediu bilhete de ingresso.
                Na sala de projeo fiquei de p, ao fundo, por baixo
                da cabina, sem ver a tela. Nunca presto ateno s
                coisas, no sei para que diabo quero olhos. Trancado
                num quarto, sapecando as pestanas em cima de um
                livro, como s'ou vaidoso e como sou besta! Caminhei
                tanto, e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota.
                Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda
                a projeo, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta.
                Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pe-
                ?8
queno mundo desaba. A safda encontref Moiss enco
tado a um poste de iluminao, lendo um jornal.
- Acabe com essa literatura, Moiss, exclamef im-
paciente. No serve.
Moiss dobrou a folha, sorrindo:
- Que histria  essa?
- E o que lhe digo. No serve. A linguagem es-
crita  uma safadeza que vocs inventaram para engar
nar a hurranidade, em negcios ou com mentiras.
- Que diabo tem voc? perguntou Moiss.
- No  nada no. E que nso vale a pena, acre-
dite que no vale a pena. Uma pessoa passa a vida
remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma crfana
mete a gente num chinelo, Moiss; qualquer imbecil
mete a gente num chinelo, Moiss.
As onze horas achava-me encostado a uma banca
do Helvtica, bebendo aguardente e no distinguindo
bem as pessoas que se serviam nas outras mesas, fun-
cionrios, polticos, negociantes, choferes, prostitutas.
Uma criaturinha magra empurrou uma das portinho-
las que do para a Igreja do Livramento, avanou de
manso. Ningum lhe prestou ateno.
- Pst. Senta af.
Chegou-se acanhada e esperou a repetio do con-
vite.
- Senta af.
Sentou-se. O peito era uma tbua, os braos finos,
as pernas uns cambitos, que nem sei como agenta-
vam o corpo. A carinha no era feia, talvez tivesse sido
bonita.
- Beba alguma coisa.
- No, muito obrigada.
E espalhou a vista pelas mesas.
- Procurando algnm?
- Era. Parece que ele hoje no vem. J  to
tarde!
- Onde mora?
#
- Aqui na Rua da Lama.  perto.
E mostrou a chave que trazia na mo.
- Beba alguma coisa, insisti.
- No senhor, eu no bebo.
Tossia e olhava a porta da cozinha.
?9
- Um petisco.
Pimentel entrou na sala e perguntou-me ao ouvido:
- Onde arranjou esse canho?
Coitadinha. No era feia, o que estava era estra-
gada.
- Aceite.
A criatura hesitava, afogueada. Afinal se resolveu:
- Muito obrigada. Eu aceito. O senhor vai comi-
go, no? E aqui pertinho.
Comeu de cabea baixa, em silncio, e repetiu o
prato. S falou ao terminar o caf:
- Vamos?
Meti a mo no bolso e lembrei-me de que me res-
tava uma cdula de vinte mil-ris. Recebi o troco e
levantei-me.
- Vai com.igo? tornou a perguntar a mulher.
Bebi o resto da aguardente:
;
- Vamos l.
No quartinho sujo a rapariga despiu-se e veio abra-
ar-me desajeitada. O cabelo tinha um leo de cheiro
enjoativo.
- Esteja quieta.
E afastei-me, sentei-me na cama, sem tirar o
chapu. Ela acomodou-se, as pernas cruzadas, os bra-
os cruzados escondendo os peitos bambos. Curvada,
mostrava apenas um pedao da barriga engelhada e
escura.
- Anda na vida h muito tempo?
- Nem por isso. Quatro anos.
- An.
Quatro anos. E ali estava aquela carcaa comida
pelo treponema. Panos cados no cho, o irrigador com
permanganato. Na mesinha da cabeceira essncias or-
dinrias disfaravam um cheiro forte de esperma. Tive
necessidade de fumar. Encontrei cigarros, mas procurei
fsforos em todos os bolsos, e o que achei foi o pacote
com as caixinhas de veludo - o relgio-pulseira e o
anel.
- Faz o obsquio de me arranjar uma caixa de
fsforos?
80
A mulher levantou-se. Escanzelada, coxas finas
' com marcas de varizes, ndegas murchas. Chi! que pe-
! leiro!
- Muito obrigado.
Acendi o cigarro. A mulher sentou-se junto de
 mim e comeou o seu trabalho de abraos, beijos, etc
- Esteja quieta.
Meti a mo no bolso, senti atravs do papel da
; seda a macieza do veludo. A fita do relgio faria uma
cinta negra no brao rolio, um brao macio como ve-
ludo. Os beijos comeavam no pulso, onde a fita se
enrolaria. O tique-taque seria do relgio ou do sangue
correndo na artria? Na escurido do quintal os meus
beios avanavam na pele, que se cobria de borbulhas
pequenas como pontas de alfinetes.
- Sempre foi assim magra?
- Ah! nol respondeu as mulher ocultando as pe-
Iancas dos peitos com os cotovelos ossudos. Era cheia,
gordinha.
Acariciei com as pontas dos dedos o papel de seda.
A mulher bocejava, caceteada. Que horas seriam? Tal-
vez uma hora. A folhagem da mangueira estendia um
#
pretume no quintal. Os mais insignificantes rumores
cresciam: o salto dos grilos nos canteiros, a queda das
folhas, o trabalho das formigas. A luz vermelha do
farol espalhava-se pelo telhado. Um minuto depois no
era vermelha, era branca- Usvamos precaues exces-
sivas, recevamos que os nossos suspiros fossem ouvi-
dos nas casas fechadas.
- Parece que isso rende pouco, hem? perguntei
abarcando com a vista a mesinha, o espelho rachado,
o irrigador, as camisas sujas, toda a misria do quarto.
A mulher teve um gesto de esmorecimento:
- E ento! No est vendo?
- E. No se da. Por que no arranja outra vida?
Levantou os ombros, quase agastada:
- Ora outra vida! Que vida? Sempre os mesmos
conselhos. Daqui s para a cova.
Realmente, coitada, dali era para a cova, com es-
cala pelo hospital. Infelicidade. Eu  que me podia
81
conslderar um sujeito feliz. Repetia isto maquinal-
mente, enquanto apalpava as caixinhas de veludo. Sol-
tei-as com raiva, ergui-me, esfreguei as m,os. O senti-
do das palavras que me danavam no esprito tornou-se
claro. Perfeitamente, um sujeito feliz. Que  que me
faltava? Livre. Se me viesse aquela desgra,a depois do
casamento? A sem-vergonha, admiradora de d. Merce-
des, tinha feitio para cornear marido mais vigilante
que eu. - "D. Mercedes  linda, parece uma artista de
'cinema." Sem-vergonha. Recuperava a minha liber-
dade. Muito bem. Fazia tempo que no freqextava
as mulheres. Pois estava em casa de uma. O pior  que
so me restavam catorze mil-ris e uns niqueis. J di-
nheiro tinha voado, tinha-se esbagaado, virara cami-
sas de seda, po-de-arroz. Dos males o menor.
- Vo-se os anis, fiquem os dedos.
Magnfica soluo. Liberdade, liberdade completa.
Pus-me a cantar estupidamente, batendo com os edos
na tbua da mesinha:
                        Liberdade, liberdacle
                        Abre as asas sobre ns...
                        - Est indisposto? perguntou a mulher. E bom
                deitar-se, descansar. Vamos dormir.
                        Dormir, que lembrana!
                        - No, adeus. Est aqui. No lhe dou mai.a por
                que no tenho, ouviu? Desculpe.
                        A criatura recusou os dez mil-ris que Ihe apre
                sentei:
        ;                - Pode guardar. Ns no fizemos nada. Alm dissc
                pagou a ceia. Eu estava com fome.
                        - No senhora. Receba. E o que tenho.
                        - Muito obrigada. J no lhe disse que no aceito 
                Eu estava com fome.
                        Encolerizei-me de verdade e despropositei:
                        - No me faa cometer um desatino. A senYzora E
        ;        relgio para trabalhar de graa? A senhora tem obri
                gao de andar nua diante de mim? Duas horas d
                chateao, de conversa mole! A senhora  relgio? A se
                nhora no  relgio.
                82
A mulher recebeu o dinheiro, espantada. Julgou-me
doido, suponho. Realmente as ltimas palavras me ha-
viam tornado furioso.
* * *
Marina me explicou muito direitinho que eu no
tinha razo. O que tinha era falta de confiana nela.
Chorou, e fiquei meio l, meio c, propenso a acreditar
que me havia enganado.
- Posso obrigar uma pessoa a no olhar para mim?
Posso furar os olhos do povo?
No senhora. A coisa era diferente. Eles tinham sido
#
pegados com a boca na botija, grelando, esquecidos do
mundo. Tinham ou no tinham? Sim senhor, mas sem
malcia.
- Posso furar os olhos do povo?
Esta frase besta foi repetida muitas vezes, e, em
falta de coisa melhor, aceitei-a. Sem dvida. As mulhe-
res hoje no vivem como antigamente, escondidas, evi-
tando os homens. Tudo  descoberto, cara a cara. Uma
pessoa topa outra. Se gostou, gostou : se no gostou, at
logo. E eu de fato no tinha visto nada. As aparncias
mentem. A terra no  redonda? Esta prova da ino-
cncia de Marina me pareceu considervel. Tantos indi-
vfduos condenados injustamente neste mundo ruim!
O retirante que fora encontrado violando a filha de
quatro anos - estava a um exemplo. As vizinhas ti-
nham visto o homem afastando as pernas da menina,
todo o mundo pensava que ele era um monstro. Engano.
Quem pode l jurar que isto  assim ou assado? Pro-
curei mesmo capacitar-me de que Julio Tavares no
existia. Julio Tavares era uma sensao. Uma sensao
desagradvel, que eu pretendia afastar de minha casa
quando me juntasse quela sensao agradvel que ali
estava a choramigar.
- Pois bem, minha filha, no vale a pena falar
mais nisso. Enxugue os olhos. Se voc diz que no foi,
no foi. Acabou-se, no se discute. Est aqui uma lem-
brancinha que eu lhe trouxe. Vamos ver se fica bonito.
Marina .desembaraou-se das lamrias, passou a
uma alegria ruidosa. Muitos agradecimentos, uns beijos
83
ainda com a cara molhada. Estranhei aquela, mudana
repentina.
- Nervoso. Quando casar, endireita.
Marina examinava o relgio e o anel: levantava a
mo, afa,stava-a, aproximava-a.
- Uma beleza. Voc tomando incmodo!
Incmodo! Eu estava com o bolso pegando fogo E
devendo cinqenta mil-ris ao Pimentel.
" - No se preocupe. O que precisamos  acertar essa
histria do casamento. Quando  isso?
Respondeu vagamente. Andava bordando uma:
guarnies, preparando umas almofadas. E faltavarr
certas coisas. Impacientei-me:
- Se voc s decidir quando tiver tudo . . . Assirr
ningum acaba. Vamos marcar o dia. Valeu? D um
nota dos troos que faltam.
- Talvez fosse melhor eu fazer a compra.
- . Talvez fosse, gaguejei aflito. Eu vou se
franco. Estou na pindaba, ouviu? E necessrio a gentE
escolher mercadoria barata.
Esperei que minha noiva se conformasse com a si
tuao. Baixou a eabea, e as partes do rosto que nc
estavam pintadas empalideceram:
- Bm.
- D c a nota.
- Para qu? Assim com essa pobreza. . .
- Deixa disso, murmurei ressentido. Donde verr
i tanto luxo? Riqueza no tenho, mas para vivermo;
com decncia o que h chega. D c a nota.
Marina entregou-me lpis e papel, ditou coisa:
absurdas, com um risinho ruim, e eu percebi nela a in
teno perversa de me humilhar. Quando falou err
tapetes e tapearias, no me contive:
- Oh! Isso tambm  demais. Eu estava fazendc
das fraquezas foras, compreenda. Diga os objetos in
dispensveis. Meu av no possua tapetes e foi uxr
homem feliz.
- Naquele tempo era diferente, respondeu Ma
rina.
- Est bem.
#
84
No escrevi as tapearias, terminei a nota e de
pedi-me bastante aperreado. Tudo aquilo estava fora
dos eicos. Mais tarde encontrei Moiss:
- Olhe c. 8eu tio me querer vender estas por-
carias a crdito?
- Esse negcio de prestaes  por preo horri-
rel, disse Moiss. Era melhor voc comprar a dinheiro.
- Mas se no tenho! Fstou na quebradeira, Moi-
as. Mande as iasendas.
Assim, acabei de encalacrar-me. Marina recebeu os
panos iriamente, insensivel ao sacrificio que eu iazia,
aquela ingrata. Se eu no tivesse cataratas no enten-
dimento, teria percebido logo que ela estava com a ca-
bea virada. Virada para um sujeito que podia pagar-lhe
camisas de seda, meiaa de seda. Que valiam os tecidos
grosseiros comprados ao velho Abrao, ou Salomo,
o tio de Moiss? Nem olhou os pobres trapos, que ca-
ram em cima de uma cadeira, esquecidos.
Lembro-me perieitamente da cena muda que hou-
ve naquela tarde. 8entada, a cabea cada para o en-
costo da cadeira, aa pernas cruzadas, os dedos cruzados
num joelho, no me via, era como se estivesse s. A cara
parada mostrava cansao, enjbo. De longe em longe
batia com o calcanhar no cho. A saia esticada exibia
a coxa, mas a minha ateno se concentrava nos bra-
os e nos dedos. No trazia o relgio nem o anel que
eu lhe tinha oferecido na vspera. Isto me desapon-
tava, arrancava-me pragas e insultos, que eu engolia
com medo de praticar uma violncia - "Ordinria!
Arrasa-se a gente para ser agradvel a uma peste as-
sim, e o resultado  este : coice. Ordinria. Safada."
Desejei falar novamente em Julio Tavares, mas temi
no convencer-me de que me havia enganado. O rost
imvel, como se eu nio estivesse ali. As mos nas
cruzadas sobre o joelho. Ia escurecendo. Aquela hora
ssu Ramalho, coberto de azeite, abreriaa os dias no
calor da usina eltrica, limando bmn8es. D. Adlia, na
cozinha, enchio- se de fumaa, envenenava-se. Marina
permanecia imvel. Que  que eu estava iazendo, na-
quele constrangimento, olhando o pacote aberto, estri-
pado, em cima de uma cadeira? As entreristas no quin-
tal eram coisas muito antigas. O relgio e o anel ti-
85
nham sido oferecidos na vspera, mas eram antigos
tambm. E parecia-me que tinham sido dados a outra
pessoa. Em que estaria pensando Marina? Agora eu
no lhe via o rosto: as feies dilufam-se na escurido.
Sentia-me atordoado, com um n na garganta. Se fa-
lasse, diria injrias. Uma ingratido assim! No espe-
rava aquilo. Fatos e indivduos desencontrados, velhos
e novos, fervilhavam-me na cabea, misturavam-se. No
cop:ar da fazenda Jos Baa explicava-me as virtudes
da orao da cabra preta. Sen Evaristo balanava,
pendurado num galho de carrapateira. Berta me havia
segurado um brao e arrastado at a escada. E eu,
agarrando-me ao corrimo: - "Madame, a senhora
no est vendo que no posso encostar-me a uma cria-
tura da sua marca?" Tavares & Cia., negociantes de
secos e molhados na Rua do Comrcio, vestidos de brim
de linho, viviam escondidos por detrs dos fardos e
eram uns ratos. - "Escrevi muito atacando a primei-
ra repblica, doutor. As minhas opinies so conhe-
cidas." Pobre da mulher da Rua da Lama. Rondando
as mesas, com fome, s onze horas da noite.
- Bem. Parece que me vou embora, Marina. Boa
noite.
- J vai? perguntou Marina sem se mexer.
- J.
Saf resmungando:
#
- Escolher marido por dinheiro. Que misria! No
h pior espcie de prostituio.
* * *
Porque foi que aquela criatura no procedeu com
franqueza? Devia ter-me chamado e dito: - "Lus, va-
mos acabar com isto. Pensei que gostava de voc, en-
ganei-me, estou embeiada por outro. Fica zangado
comigo?" E eu teria respondido: - "No fico no, Ma-
rina. Voc havia de casar contra a vontade? Seria um
desastre. Adeus. Seja feliz." Era o que eu teria dito.
Sentiria despeito, mas nenhuma desgraa teria acon-
tecido. Lembrar-me-ia de Marina com vaidade, at com
orgulho: - "Sim senhor, gostei de uma mulher de
86
i,
        carter, mulher de cabelo na venta." N,o seria esta
        misria, esta recordao de coisas mesquinhas.
                De todo aquele romance as particularida,des que
        melhor guardei na memria foram os montes de cisco,
        a gua empapando a terra, o cheiro dos monturos,
        urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em
        decomposio no lixo. To morno, to chato! Nesse
        ambiente empestado Marina continuava a oferecer-se
        negaceando. Conservava-me preso, fazendo gatimanhos,
        esticando a saia estreita que lhe mostrava bem as
        coxas e as ndegas.
                - Marina, esse procedimento  incorreto. Porque
        no me larga? D o fora, desocupe o beco.
                - Est roendo courana. Coitadinho dele.
                No tornamos a falar em casamento. Creio que
        ela procedeu assim por hbito. Ou talvez quisesse pa-
        gar os objetos que tinham esgotado a minha fortuna.
        Mas ia-se distanciando, e eu no podia agarr-la. As
        vezes ficava trombuda, aparentando gravidade. As dis-
        traes eram constantes, aquele modo de se descango-
        tar, abrir a boca e olhar por cima da cabea da gente.
        Isto me amarrava e atenazava. Presumo que a inteno
        dela era desembaraar-se de mim lentamente, ou desem-
        baraar-se ela prpria do costume que havia adquirido.
                A tarde eram aqueles maneios, mas pela manh,
        quando eu saa para a repartio, plantava os coto-
        velos na janela e enxeria-s com Julio Tavares. Uma
        vez por semana eu largava o servio antes do meio-dia,
        s6 para peg-los. Ao dobrar a Rua Augusta, avistava
        Juli.o Tavares na prosa com ela, vermelho, soprando,
        derretendo-se, a roupa de brim com manchas de suor
        nos sovacos. Vendo-me, o cana,lha voltava as costas,
        porque estava intrigado comigo. Abri-me com d. Ad-
        lia, comentei aquele escndalo:
                - A senhora aprova o comportamento de sua
        filha?
                D. Adlia torceu as mos, engoliu em seco e res
        pondeu numa atrapalhao:
                -  a mocidade.
                Perdi os estribos:
                - Que mocidade! E sem-vergonheza. No lhe in-
        vejo a sorte, d. Adlia. Sua filha acaba mal.
                8?
                        - Quem tem famlia est sujefto a tudo, seu Lufs.
                Ningum deve dizer "Deste po no comere nem desta
                gua beberei."
                        - No deve no, d. Adlia. E uma tristeza. A se-
                nhora lavando, engomando, cozinhando, e seu Rama-
                lho na quentura da usina eltrica, matando-se para
                sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha no tem
        ,
                corao.
                        - Muito nova, dizia a me. Depois endirefta. Quan-
                do casar, endireta.
                        - E a senhora pensa que h no mundo um trouxa
#
                que se engane com ela? No casa no, d. Adlia. Aque-
                la d com os burros na gua.
                        D. Adlia tinha lgrimas na voz e gaguejava fra-
                ses truncadas:
        '                - Ento.. . Eu no sabia. Uma coisa apalavra-
                da... No h rnotivo, seu Lus, acredite que no h
                motivo. Porque foi?
                        Eu sentia prazer em atormentar a pobre da velha:
                        - D. Adlia, olhe para a minha cara. A senhora
                me acha com jeito de corno?
                        - Deus me livre, seu Lufs, exclamava a mulher
                recuando e arregalando os olhos. Eu havia de achar
                semelhante barbaridade?
                        - Ento, se no me acha com jeito de corno, no
                me faa perguntas dessa natureza.
                        O meu desejo era desligar-me daquela gente, pas-
                sar calado, carrancudo, as mos nos bolsos, o chapu
                embicado. Esforava-me por me dedicar s minhas
                ocupaes cacetes: escrever elogios ao governo, ler ro-
        ;.'        mances e arranjar uma opnio sobre eles. No h ma-
                ada pior. A princpio a gente l por gosto. Mas quan-
                do aquilo se torna obrigao e  precso o sujeito dizer
                se a coisa  boa ou no  e porque, no h livro que
                no seja um estrupfcio.
        ,.
                        O que eu devia fazer era mudar de casa,. Esta
                 inconveniente, cheia de barulhos, parece mal-assom-
                brada. Os ratos no me deixavam fixar a ateno no
                trabalho. Eu pegava o papel, e eles corneavam a dar
                uns gritinhos que me aperreavam. Tinham aberto um
                buraco no guarda-comidas, viviam l dentro, numa
                chiadeira infernal. As vezes havia um cheiro de po-
                88
drido. Vitria se enfrenesiava, andava para cima e
para baixo, manejando um regador com gua e creo-
lina, molhando tudo. Mas o fedor resistia. Afinal amos
encontrar o armrio dos livros transformado em cemi-
trio de ratos. Os miserveis escolhiam para sepultura
as obras que mais me agradavam. Antes, porm, fa-
ziam um sarapatel feio na papelada. Mijavam-me r
literatura toda, comiam-me os sonetos inditos. Eu no
podia escrever.
Os grilos no me incomodavam, escrevo perfeita-
mente ouvindo os grilos. Havia uma orquestra deles,
mas eu nem os notava. Saltavam-me em cima do pa-
pel, eu dava-lhes piparotes, e eles desapareciam.
Os ratos  que me roam a pacincia. Corrote,
corrote - era como se roessem qualquer coisa dentro
de mim. Lembrava-me do tempo em que andava pelas
ruas sentindo o cheiro das mulheres. Miudinhos, de-
viam ser catitas. Corriam pela sala de jantar, vinham
mexer nos meus chinelos, sem medo, sem vergonha.
Levantava-me, abria as portas do guarda-comidas, sal-
tavam trs, quatro, que se escapuliam para os buracos
das paredes. Voltavam, assustados, ganhavam confian-
a, aproximavam-se, bonitinhos, os olhos vivos e as
orelhas arrebitadas. O meio de obrig-los ao silncio
durante uns minutos era espalhar na sala pedaos de
miolo de po, que eles devravam depress. Casa in-
fame. E dr. Gouveia cobrava-me cento e vinte mil-ris
de aluguel! De quando em quando o madeiramento
bichado estalava.
- Qualquer dia esta cumeeira vem abaixo, gemia
Vitria. Porque  que o senhor no se muda?
As noites eram medonhas. Os galos marcavam o
tempo, importunavam mais que os relgios. E os ratos
no descansavam. Enquanto alguns roam a madeira
do guarda-comidas, outros deviam estar l dentro no
armrio, devastando os manuscritos, morrendo na lite-
ratura. Fogo nos livros imundos. Mas a casa enchia-se
#
de pulgas. O gato amava nos telhados, gato ordinrio.
Uns miados estridentes, indiscretos: - "Rasga, diabo!"
Marina, quando se excitava, enrolava-se como uma
gata e miava. Miava baixinho, para no acordar a vizi-
nhana.
89
                        Irritava-me um som de armadores de rede. Em
        
                noites de calor Marina dormia em rede, balanava-se.
                        Os armadores rangiam. O que eu precisava era ler
                um romance fantstico, um romance besta, em que os
                homens e as mulheres fossem criaes absurdas, n,o
                andassem magoando-se, traindo-se. Histrias fceis, sem
                almas complicadas. Infelizmente essas leituras j no
                me comovem.
                        Os armadores continuavam a ranger. Provavel-
                mente estava deitada de costas, as pernas cafdas, os
                ps no cho dando o impulso para o balano. Talvez
                estivesse nua por causa do calor.
                        Seu Ramalho tossia. D. Adlia descansava na cama
                dura a armao fatigada.
                        Ou no descansava. Era possfvel que fizesse contas,
                aperreada - tanto para o aluguel da casa, tanto para
                o mercado, tanto para a luz, tanto para a roupa. Vit-
                ria tambm calculava, resmungando. Os nmeros mis-
                turavam-se ao canto dos galos e ao chiar dos ratos. No
                princpio do ms iria revolver as pratas enterradas no
        ,.i .
                canteiro das alfaces, na raiz da mangueira, ao h da
                cerca. No havia agora ningum l. Bichos midos
        i        apenas, grilos, formigas.
                        Em que estaria pensando Marina? Provavelmente
                no outro. Um sujeito gordo, vermelho, suado, bexn fa-
                lante, de olhos abotoados. Seria possvel que ela gos-
                tasse daquilo?
                        Seu Ramalho tossia. Assaltava-me o desejo de ver
                Julio Tavares sujo de azeite e carvo, recebendo na
                cara as fascas da fornalha. Porque no? Derret,endo
                as banhas. Intil preguioso, discursador. Canalha.
                        * * *
Pouco a pouco nos fomos distanciando, um ms
, depois ramos inimigos. A princpio houve brigas, re-
conciliaes desajeitadas, conversas azedas com d. Ad-
lia. Tempo perdido. Marina estava realmente com a
cabea virada para Julio Tavares. Comecei a passar
trombudo pela calada, remoendo a decepo, que pro-
curei recalcar.
- Mulheres no faltam.
90
Entrei a procur-las, a observ-las. Porque s ha-
! veria de servir aquela safadinha? Uma datilgrafa que
me aparecia em toda a parte era bem engraada. Boni-
j tinha, com olhos verdes e rosto de santa. Eu ia dobrar
uma esquina - dava de cara com ela; tomava o bonde
- ela era minha companheira de viagem. Depois de
, ta.ntos acasos, a gente se cumprimentava, embora sem
saber que rumo cada um ia tomar. As vezes eu estava
distrafdo, pensando em coisas -toa. Quando menos
 esperava, surgiam os olhos de gato da datilgrafa.
I Outras vezes chegava-me de supeto a idia de que
! ia v-la. E acontecia acertar. Sumiu-se umas semanas.
I Se no se tivesse sumido,  possvel que a minha vida
fosse hoje diferente. E talvez no fosse. Duas criatu-
i
ras juntam-se um minuto, mas entre elas h um
I obstculo. Provavelmente a datilgrafa dos olhos ver-
des, enquanto sorria para mim no bonde ou na es-
quina, pensava numa espcie de Julio Tavares que
iria visit-la horas depois. Morava numa casa de quin-
tal sujo, lia romances tolos, admirava uma quenga
#
semelhante a d. Mercedes. O pai era um pobre homem
 carregado de achaques e consumido pelo trabalho, a
me lavava roupa e queixava-se da carestia.
Vitria  que tinha razo:
- Cabritinha enxerida. Esfregando-se nos homens.
O sem-vergonha metera-se na casa, ficava l horas,
intimo da famlia, unha com carne. Empurrava a por
; ta, entrava como se aquilo fosse dele. Seu Ramalho
I. nem se voltava: debruado  janela, aperreado, fuman-
do cachimbo, mordia os beios, encolhia os ombros.
Vinha conversar comigo, desabafava:
- No se case, seu Lufs.  o conselho que Ihe dou.
Quando o intruso saa, comeava a arenga:
- Isto tem cabimento? Entra quenl quer.
Marina defendia-se, malcriada:
- Entrou porque deixaram. Eu tenho culpa? No
mandei. Posso amarrar as pernas dos outros?
- Falem baixo, pedia d. Adlia. Os vizinhos esto
y ouvindo.
- Que vizinhos! grita.va seu Ramalho. Fao um
. ' escndalo. Isto  penso?
91
No fez o escndalo. E Julio Tavares continuou
freqentar a casa, levando presentes s mulheres. f
vezes jantava l. Nesses dias um carregador trazia i
armazm de Tavares & Cia. um caixo de embrulho
latas e garrafas. Da minha sala de jantar, eu ouv
as conversas, as risadas, o barulho dos vidros e di
talheres. No fim a coisa descambava em discurso.
Seu Ramalho no tomava parte nessas orgia
embicava o chapu, acendia o cachimbo e saa. D. R
slia balanava a cabea com um sorrisinho safado:
- Feias coisas. No dou um ano que isto chei
a alfazema.
Antnia ia comentar a histria com o guarda-civ
da esquina
Punha-me a passear pelo corredor, olhando as t
queiras dos sapatos, os tijolos gastos, o rodap verm
lho da parede mida. Por ali passava um cano. Alg
mas porcas das juntas estavam mal apertadas e pc
elas a gua esguichava, formando poas no tijolo gast
O cano estirava-se como uma corda grossa bem est
ca,da, uma corda muito comprida. Eu andava pa
cima e para baixo, o ouvido atento aos mais insignil
cantes rumores da casa vizinha. Preocupava-me sobr
tudo o silncio. Enquanto estavam batendo nos copo
tagarelando, nem por isso. Mas quando se calavar
vinham-me suposies que me davam tremuras. Prov,
velmente d. Adlia tinha ido  cozinha preparar o caf
E os dois aproveitavam o tempo. Sem dvida. Imag
nava o que eles faziam. Era aquilo, sem dvida.
- Que  que o senhor tem? perguntava-me Vitri
Sem dvida. Imaginava perfeitamente. E no t
ra.va os olhos da parede manchada, do rodap verm
lho, do cano.
- Um pedao daquilo  arma terrivel. Arma ten
vel, sim senhor, rebenta a cabea de um homem. J :
tem visto.
Mas aquele, comprido demais, pregado ao ch
no tinha jeito de arma: parecia uma corda estirad
Quando vinha o silncio, detinha-me na sala de jaa
tar, contgua  outra sala onde a scia se regalav
punha a mo atrs da orelha, continha a respira
Furava com os olhos a cal que se descascava e dav
92
,'%'r'
        %, ll ..: ;. , ,. '. ,  J                / ..  y                        .-y, :/ % .
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        r9, -
                                                                                ,
                        -                                        ..                                        ,
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                                                                                                                                ,                        .
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                        l'. -
r '  .J
ao muro a aparncia de uma cara sardenta, furava
` o reboco, furava os tijolos. No outro lado a mesa num
desarranjo, restos de comida, pontas de cigarros, n-
doas na toalha, garrafas abertas, os dois juntos, perna
com perna. D. Adlia, encostada ao fogo, respirava
fumaa, engelhava as plpebras, gemia uma desculpa:
- "E a mocidade." Estava invisvel e escaldava os dedos
torcendo o pano de caf. Os dois, grudados, cochicha-
vam, esfregavam-se. Alguns botes tinham sado dos
lugares. Afinal tudo era suposio. Talvez d. Adlia
estivesse ali, um pouco afastada, os olhos atentos,
observando o que se passava por baixo da mesa. His-
tria! Escondia-se e justificava aquela sem-vergonha:
- " a mocidade." Indecncia. Atracados, os olhos ver-
melhos, baba no canto da boca, uns bichos. Aproxi-
mava-me da parede. Ali a poucos passos, tontos pela
bebida, beijando-se. Conservavam-se em silncio um
instante, mas isto me parecia tempo excessivo, sufi-
ciente para todas as patifarias. Risos, a continuao
de uma conversa interrompida. A voz precipitada de
Marina era ininteligvel; a de Julio Tavares perce-
bia-se distintamente e causava-me arrepios: fazia-me
pensar em gordura, em brancura, em moleza, em qual-
quer coisa semelhante a toicinho cru. Pescoo enor-
me, sem ossos, tudo banha. Quando o homem andava
na rua, olhando para cima, risonho, aprumado, com
 passinhos curtos, a papada tremia. Aquilo era bambo
flc?do, devia ter a consistncia de filh. De repente
d. Adlia comeava a falar. As mesmas queixas de sem-
pre, lamentaes tranqilas. Nunca ouvi ningum se
:: lamentar assim. Palavras arrastadas, montonas, um
pequeno assobio no fim de cada pausa. Aquele sossego
me irritava quase tanto como os derramamentos de
Julio Tavares. Afastava-me, sacudia a cabea para no
i .. escutar a conversa, passeava pelo corredor, tossindo,
batendo os ps, encaminhando o pensamento para coi-
sas diversas, que se embaralhavam. Muitos crimes de-
pois da revoluo de 30. Valeria a pena escrever isto?
Impossvel, porque eu trabalhava em jornal do go-
verno. Moiss se tinha ausentado: a polcia incomo-
1 dava os rapazes que liam livros suspeitos e falavam
baixo. Seu Ivo furtara-me uns pratos. A menina dos
#
i"
, 94
olhos agateados desaparecera. A mulher da Rua da
Lama, a que eu encontrara uma noite no Helvtica,
andava caipora, no hospital, com doena do mundo.
A voz oleosa de Julio Tavares continuava a perso-
guir-me. Era como se eu estivesse diante de um apa-
relho de rdio, ouvindo lngua estranha. Distancia-
va-me. As palavras gordas iam comigo. Umas chega-
vam completas, outras alteravam-se - rudos confu-
sos e vogais indistintas. Necessrio dar cabo daquela
voz. Se o homem se calasse, as minhas apoquentaes
diminuiriam. A criatura faminta da Rua da I.ama, seu
Ivo, Moiss, a menina dos olhos agateados, tudo isto
me passava pelo espirito sem se fixar. Um tropel, de-
pois nada. O que ficava era aquela gordura que se
derramava pelas paredes. As vezes eu estava certo de
que Julio Tavares se tinha calado, mas a voz no
deixava de perseguir-me. Mexia-me, tossia. E olhava
com insistncia o cano que se estirava ao p da pa-
rede, como uma corda.
* * *
Aos domingos iam ao cinema, juntos, de brao
dado, bancando marido e mulher - ele com ar bicudo
e saciado, ela bem vestida como uma boneca e toda
dengosa. Seda, veludo, peles caras, tanto ouro nas mos
e no pescoo que era uma vergonha. O pessoal da
vizinhana povoava as janelas. D. Mercedes indigna-
va-se, as filhas do Lobisomem mastravam as caras es-
pantadas entre as rtulas. Antnia andava como lan-
adeira, ouvindo os comentrios. As exclamaes ia.m
de um lado para outro. S6 queriam saber se ainda
estava inteira. As opinies variavam. Discutiam as mo-
dificaes do tipo: a grossura da barriga, o modo de
andar. Eu, com os ouvidos abertos, simulando indife-
rena, escutava palavra aqui, palavra ali.
- Que  que temos, Antnia?
Antnia, bamboleando-se, cosia pedaos daqueles
fuxicos.
E os dois l iam at o fim da rua, grudados, ela
desconjuntando-se, enrolando-se, torcendo-se como uma
cobra de cip. Dobravam a esquina, a rua ficava de-
95
serta. Reaparecfam. Com certeza tinham desistido dc
cinema. Quando se aproximavam,  que eu notava
o engano: era outro casal. Julio Tavares e Marina
transformavam-se por momentos nas pessoas que vt
nham da Praa Deodoro, mas eu continuava a v-lo:
longe, em diferentes lugares.
As trs filhas de Lobisomem apareciam juntas
num feixe, confuso de cabelos arrepiados e olhos es
pantados. Antnia, colorida de vermelho e branco, safa
 procura de machos. O vento gemia nos arames da
Nordeste, e os arames balanavam como cordas.
Julfo Tavares e Marina tinham entrado no Livra
mento e l iam juntinhos, esfregando-se. Cadeiras na
calada. Era necessrio saltar no paraleleppedo. Urr
passo em falso, topada n sarjeta, e os dois corpos sE
chocavam. Diante da igreja, nos bancos da praa mi
da, gente esquisita: homens sujos, mulheres sem com
panhia. E crianas abandonadas pelos cantos. Cochi
chos, palavres, descontentamento, frases incendirias
Na calada estreita da igreja as crianas abandonada;
aplnhavam-se. Automveis parados, choferes adormeci
dos, vagabundos, exposio de prostitutas  entrada d
Rua da Lama.
D. Roslia conversava com d. Adlia. Picuinhas
perffdias: - "No se queixe no, minha negra. A se
nhora at no  das mafs caiporas. Tem quem lhe d
tudo." D. Adlia sorria vexada, mexia os befos e n.c
#
encontrava resposta.
Mass algumas pernadas, e os dois estavam defrontE
do caf. Julio Tavares passava como um pavo. E c
pessoal se calava, arregalava os olhos para Marina
que no ligava importncia a ningum, ia fofa, cor
'` ' o vestido colado s ndegas, as unhas vermelhas, o;
befos vermelhos, as sobrancelhas arrancadas a pina
Entravam no cinema, Julio Tavares comprava ur
jornal. Na sala de espera toda a gente se voltava, corr
uma pergunta nos olhos. Julio Tavares sentava-se
fingia ler os telegramas, vafdoso. - "Quem ?" Infor
maes em voz baixa, muita inveja. Sim senhor. QuE
bicho de sorte! Marina fazia gua na boca dos homens
Agora estava escuro. Debruado  janela, eu fuma
va sem ver a rua. Via seu Ivo, Pimentel, a datilgrafa
96
desaparecida. Onde estaria a datilgrafa? Bonitinha,
com uns olhos de gato que acariciavam a gente.
E amvel, sem fumaas. Quando eu tirava o chapu,
respondia com um sorrisinho modesto. O meu desejo
era sair de casa, ir procur-la. Talvez estlvesse num cI-
nema de arrabalde, com o namorado. Coitadinha. Pro-
vavelmente nem pensava nisso. O dia inteiro batendo
no teclado com os dedos entorpecidos, e duzentos mil-
ris por ms. Talvez tivesse irmos pequenos. Inva-
dia-me uma ternura, querla ligar-me quela moa que
vestia roupas ordinrias e andava  pressa, com uma
pasta debaixo do brao. Seriamos felizes. Ela trabalha-
ria menos. Ao chegar a casa, fatigada, distrair-sis
papagueando com o Currupaco, meteria as mos dodas
no plo do gato. Eu escreveria um livro de contos, que
ela datilografaria nas horas vagas, interessando-se.
Convidarfamos Pimentel e Moiss. Quando a corja esti-
vesse na sala vizinha, bebendo, ns conversarfamos
sobre literatura. Moiss atacaria os llvros feitos com
frases bem arrumadas. A arte deveria estar ao alcance
de todos, a servio da polftica. - "Que diz, seu Pi-
mentel?" Pimentel respnderia estirando o belo. Es-
crevendo,  capaz de demonstrar qualquer coisa. Dian-
te da folha de papel, em mangas de camisa, trabalha
como um carroceiro, os dedos grossos pegando a ca-
neta com fora. Depois fecha o crebro e desenruga
a testa. - "Que diz, seu Pimentel r" No diria nada.
Para que um homem discutir, se no  obrigado a isto?
Do outro lado da parede, risos, tinir de copos. Ns
continuarfamos a conversa tranqilamente.
Onde andaria a datilgrafa dos olhas agateados?
0 que  certo  que eu precisava mulher. Devia acabar
aquela maluquelra e meter-me na farra. Se achasse
uma criatura como Berta... O diabo da alem vol-
tava-me sempre  lembrana, provavelmente por ter
sido a primeira mulher bonita e limpa a que me en-
costei - "Senhor no quer entrar?" Tipo admirvel
,
ariano puro. - "Madame, um sujeito como eu pode
agarrar-se a uma pessoa da sua marca?" A ariana pura
tinha respondido numa lingua embrulhada.
As vezes seu Ramalho puxava uma cadeira, sen-
tava-se  porta. Eu olhava distraido os arames, que
97
balanavam como cordas bambas. Esta compara.o dos
arames a cordas vinham-me ao esprito com nsistncia.
Se pudesse trabalhar, escrever, lvrar-me daqueles ara-
mes... No podia: a literatura cambembe para os po-
lticos da roa tinha parado. Alm disso eu necessitava
beber muito, sentia preguia, passava horas no caf,
esbagaando dinheiro. O ordenado voava, as dividas
cresciam.
Naquele momento, porm, no pensava em nada
disso. Pensava na misria antiga e tinha a impresso
#
de que estava amarrado de cordas, sem poder mexer-me.
No banco do jardim, com os sapatos gastos, as meias
reduzidas a canos, esperava ansosamente um auxllo
qualquer. Estudava as caras, numa agonia. A fome tri-
turava-me a barriga, uma fome de muitos dias, enga-
nada com pedaos de po e clices de aguardente. -
"Cidado, um nortista perseguido pela adversidade . . "
No distinguia bem a cara do cidado: a cabea incli-
nava-se, a vista escurecia e pregava-se nos dedos dos
ps, que saam pelos buracos dos sapatos. Se pudesse,
se no estivesse policiado e exausto, mataria o cidado
para roubar-lhe um nquel. Andava sujo, as calas com
os fundilhos rotos e as bainhas esfiapadas, a gravata
feita uma corda. Apanhava os jornais esquecidos nos
bancos e procurava os anncios midos para ver se
descobria trabalho, mas as letras danavam, fugiam.
Imaginava fortunas absurdas: dinheiro achado na rua,
um roubo que nunca tive coragem de praticar, o apare-
cimento de um fazendeiro rico e atlado que me diria:
- "Ningum percebe o seu valor, rapaz. O que lhe
falta  roupa. Roupa e trato. Vamos comer no restau-
rante. E toca para S. Paulo, meter a cara na lavoura
do caf: ' Qualquer servio que me dessem seria bom.
Oferecia-me para garom de botequim, para revisor de
jornal. Tinha uma inclinao maluca para os jornais.
- "Queria que o senhor experimentasse, que me dei-
xasse trabalhar uns dias de graa." Humilhaes. De-
,
pois era a penso de d. Aurora. A fome desaparecera
mas a falta de mulher atormentava me. As que pas-
savam na rua tinham cheiros violentos, e eu andava
com as narinas muto abertas, farejando-as, como um
bode. No colcho duro da minha cama de ferro os
98
percevejos passeavam sobre os ossos amarelos que Da-
goberto jogava l.
Tarde. Os meninos de d. Roslia corriam no cal-
amento e faziam algazarra doida. As rtulas da casa
de Loblsomem estavam cerradas. Encostado  janela,
fumando, eu olhava a rua comprida e estreita. De
quando em quando vultos distantes assustavam-me.
E os arames balanavam como cordas.
O meu pensamento fugia dali, entrava no quarto
escuro que ficava ao p da escada. Dagoberto pegava
uma vrtebra, eu escancarava o compndio. A caveira
desdentada era horrvcl, toda queimada de cigarros,
o frontal cheio de buracos que serviam de cinzeiros.
De que teria morrido o dono daquela caveira? Mas
Dagoberto e os ossos desapareciam. L vinham d. Au-
'ora e a neta marchando para o cinema. As minhas
mos midas apertavam no bolso as notas, eu sorria
encolhido e silencioso, fazendo clculos. D. Aurora,
mole, tomava no bonde o lugar de dois passageiros,
sacolejava-se com o movim.ento do carro, os caracis
brancos agitavam-se. Parecia-me que, se ela no esti-
vesse entrouxada, as banhas se despegariam do corpo.
A neta emproava-se, a vaidade pingava do leque, do
torgnon, dos olhos. Na sala de projeo a gente no
via a tela. Iioras horrivelmente cacetes, em que peda-
os de duas pessoas se encontravam. S uns pedaos,
os outros estavam longe. As pernas da moa eram
frias. Onde andariam o pensamento dela? Eu pensava
nos bancos do passeio, nos sapatos sem sola, no galego
do frege, no chefe da reviso. Com os dedos esmore-
cidos no joelho da pequena, lembrava-me tambm da
cesta de ossos de Dagoberto e dizia mentalmente ex
presses tc.nicas. D. Aurora dormia.
Com r.erteza quela hora o Capitlio se esvaziava,
uma expsio de roupas desfilav nos corredores que
limitam a sala de espera. Os ventiladores parados,
#
grande calor. Marina, bamba, apertava os olhos, en-
colhia-se no vestido machucado, bocejava; Julio Ta
vares abanava-se com o jornal.
Que diabo fazia eu ali, debruado  janela? Entrar
va, ia para a sala de jantar, abria um livro, punha-me
a ler marcando os perodos com o dedo. Quando ter.
99
minava um perfodo, baixa o dedo a um lugar onde era
provvel haver ponto final. Pa,recia-me que este exercf-
cio me fixava a ateno na leitura: s vezes conse-
gnla compreender uma pgina inteira. Mas o dedo fati-
gava-se, entorpecia, e os olhos desviavam-se das letras,
pregavam-se na toalha, nas moscas adormecidas sobre
as ndoas. Um relgio batia. Julio Tavares e Marina
ausentes. Vitria falava alto na cozinha. Antnia em-
balava o filho mais novo de d. Ros,lia, e a criana
manhosa berrava com de.sespero. Felizmente ainda era
cedo para os ratos roerem a madeira do guarda-co-
midas. A vitrola de d. Mercedes comeava a tocar,
o galo de d. Adlia batia as asas. Alguma cantiga dis-
tante, de bbedo. Que fim teria levado seu Ivo, coi-
tado? Apito de trem, provavelmente dez horas. O re-
lgio da sala de jantar quase sempre parado. Passos
na calada. Quem seria? Muito tarde. O rolar dos vef-
culos esmorecia. O gato j andava miando nos telha-
aos. Os papis, livros com as folhas intactas, esquec-
dos nas cadeiras, causavam-me enjo. Rumor de ferro-
lho na casa vizinha, pisadas no corredor. Com certeza
tinham voltado. Engano. Era seu Ramalho que entrava,
aperreado, ia arengar com a mulher por causa do pro-
cedimento da filha. As vezes a discuss,o se arrastava
durante horas, mastiga,da e rancorosa. E Marina au-
sente.
- Isso tem jeito?
D. Adlia chorava, assoava-se, gemfa desculpas sem
p nem cabea.
* * *
D. Roslia era casada, mas eu no conhecia o ma
rido dela, caixeiro-viajante que andava sempre no in
terior. Conhecia a voz. Quando ele chegava, depois de
uma ausncia de meses, a casa ficava em rebulfo. Um
sujeito moreno e calvo rosnava um cumprimento e to
cava o chapu ao passar na minha calada. Presumc
que era o marfdo de d. Roslia, mas no tenho a cer
teza. Fala mansa e abafada, muito diferente da quE
eu ouvia da minha sala de jantar. Nunca vi o homexr
calvo e moreno entrar na casa  esquerda, mas comc
o aparecimento dele coincidia, com a presena do ma
100
I
rido de d. Roslia, suponho que os dois eram uma
pessoa s.
Antnia chegava  minha janela e, piscando os
olhos, segredava: - "O homem est af." Mordia o beio
e safa bamboleando-se, com um risinho canalha, as
pernas grossas muito abertas exibindo marcas de fe-
ridas. Para no descontentar a rapariga, eu sorria agra-
decendo a comunicao, aperreado em excesso, porque
nesses dias no me era possvel dormir sossegado.
D. Roslia, honesta, vivia excitada, e o marido vinha
feito um bode. Aquilo durava uma semana, mais de
uma semana, at que o casal se acalmava e surgia
nova viagem.
Nessa lua-de-mel, sempre renovada, as crianas
marchavam cedo para a cama. Antnia aprontava o
caf, ia correr a zna. E o trabalho do amor comeava,
ruidoso, indiscreto. Antes da minha cabeada com Ma-
rina, eu no agentava aquilo. Escrevia, lia, dormia,
acordava, levantava-me, tornava a deitar-me. No me
continha: vestia-me, ia para a rua, meia-noite, de ma-
#
drugada. Por fim nem esperava tanto: quando Ant-
nia servia o caf, aos muxoxos, derrubando loua, e a
porta da frente se fechava com um baque, eu agar-
rava o chapu e saa. Agora no podia arredar-me dali.
Parecia-me que, na minha ausncia, Julio Tavares
penetraria na casa e levaria o que me restava: livros,
papi.s, a garrafa de aguardente. Sentia-me preso como
um cachorro acorrentado, como um urubu atrado pela
carnia. Se pudesse dormir . . .
Durante o dia passava muitas vezes pela porta de
Marina, desejando reconciliar-me com el. Faltava-me
coragem, a vergonha baixava-me o rosto, esquentava-me
as orelhas.
Que me importava que Marina fosse de outro? As
mulheres no so de ningum, no tm dono. Sinha
Germana fora de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante
e Silva, s dele, mas h que tempo! Trajano possura
escravos, prendera cabras no tronco. E os cangaceiros,
vendo-o, varriam o cho com a aba do chapu de couro.
Tudo agora diferente. Sinha Germana nunca havia tras-
tejado: ali no duro, as costas calejando a esfregar-se no
couro cru do leito de Trajano. - "Sinha Germana!"
101
E sinha Germana, doente ou com sade, quisesse ou
no quisesse, l estava pronta, livre de desejos, tran-
qila, para o rpido amor dos brutos. Malfcia nenhuma.
Como a cidade me afastara de meus avs! O amor para
mim sempre fora uma cosa dolorosa, complicada e in-
completa.
Se Marina voltasse . . . Porque no? Se voltasse es-
quecida inteiramente de Julio Tavares, serfamos felizes.
Absurdo pretender que uma pessoa passe a vida com
os olhos fechados e v abri-los exatamente na hora em
que aparecemos diante dela.
Nu, deitado de costas na cama de ferro, esfrega-
va-me no colcho estreito e coava-me, mordido pelas
pulgas. No quarto, escuro para a conta da Nordeste no
crescer, a luz que havia era a do cigarro, que me fazia
desviar os olhos de um lado para outro. No podia di-
xar de olh,-la. As vezes me entorpecia, e a luz ia diml-
nuindo, cobria-se de cinza. De repente despertava sobres-
saltado: parecia-me que, se o cigarro se apagasse, algu-
ma desgraa me sucederia. E entrava a fumar desespe-
radamente, e soprava a cinza. Impossivel dormir. O quar-
to de d. Roslia ficava paredes-meias com o meu. An-
tnla tinha-me dito, em confidncia: - "O homem
chegou." Devia ser o sujeito calvo e moreno que tocava
o chapu e rosnava um cumprimento. Agora se dis-
tinguiam palavras claras: - "Bichinha, gordinha..."
No sef como aquelas criaturas se podiam amar assim
em voz alta, sem ligar importncia  curiosidade dos
vizinhos. D. Roslia resfolegava e tinha uns espasmos
longos terminados num ui! medonho que devfa ouvir-se
na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava
paavres obscenos. Parecia-me que o meu quarto se
enchia de rgos sexuais soltos, voando. A brasa do
clgarro iluminava corpos atracados, gemendo: - "Bi-
chinha, gordinha . . . " - "Ui! " Na escurido a parede
estreita desaparecia. Estvamos os trs na mesma pea,
eu rebolando-me no colcho estrelto, picado de pulgas,
respirando o cheiro de pano sujo e esprma, eles agar-
rados, torcendo-se, espumando, mordendo-se. Aquilo
iria prolongar-se por muitas horas. Depois o silncio,
o cansao, a luz da madrugada, o sono, a parede, nos
afastaram. Se nos encontrssemos, farfamos um ligei-
102
    Este livro foi digitalizado por Paulo Srgio Resende de Almeida, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..
ro movimento de cabea, resmungarfamos uma sau-
dao apressada. D. Roslia, pendurando-se  janela,
comentaria os modos suspeitos de Lobisomem e o pro
cedimento de Marina; o homem calvo e moreno pros-
seguiria nas suas viagens pelo interior; eu redigiria
informaes. "Em conformidade com o artigo tal do
regulamento . . . "
No havia regulamento, nem janela, nem mostru-
rios. O que havia eram duas camas prximas. Uma
delas rangia escandalosamente. - "Bichinha, taludi-
nha..." Esses diminutivos contrastavam com a voz do
homem, grossa, arrastada. Alm disso d. Roslia tinha
bem quarenta anos e no ra taluda: era magra, cheia
de ngulos, o caro chupado com duas olheiras fundas
que no dia seguinte estariam medonhas. Silncio de
alguns minutos. Iam deixar-me dormir. Nada. Acendia
outro cigarro e continuava com a vista presa na brasa,
que se aproximava e afastava, em movimentos bruscos,
como uma coisa viva mordida pelas pulgas. Aquela es-
pcie de fogo-corredor me fascinav. Se Marina vol-
tasse . . . Porque no? A gua lava tudo, as feridas ci-
catrizam. No valia a pena pensar no outro. Julio
Tavares era um caminho errdo. Tantos caminhos er
rados na vida! Quem sabe l escolher com segurana
os atalhos menos perigosos? A gente vai, vem, faz
curvas e ziguezagues, e d topadas de arrancar as
unhas. A gua lava tudo, as feridas mais graves cica-
trizam. Lembrava-me de uma queda antiga que me
tinha jogado  cama quinze dias. O cavalo se havia
empinado, eu cara nas pedras do Ipanema, rachara
a cabea, esfolara a coxa. Porque era que uma ferida
devia ser vergonhosa e outra no? Depois desse tom-
bo, andara uns tempos bambo, tossindo, e nunca me
havia consolidado, nem com os exercfcios da caserna.
- Ora af esto ferimentos que me deviam enver-
gonhar, porque .me tornaram fraco. E no me enver-
gonham.
A brasa do cigarro chegava-me perto dos beios,
brilhava, faiscava, parecia mangar de mim na escuri-
do. Sinha Germana s tinha aberto os olhos diante
do velho Trajano. Sem dvida. Mas eu queria ver
8inha Germana agora, no cinema, ou correndo as ruas,
103
com uma pasta debaixo do brao, e mais tarde n
escritrio, batendo no teclado da mquina, ouvindo a
cantigas dos marmanjos. Hbitos diferentes, necessida
des novas.
Afinal porque seria que d. Roslia afirmava qu
Marina dera com os burros na gua? No havia cei
teza. E para que certeza?
- Que me importa o que se passa nas casa
alheias?
O que se passava na cama de d. Roslia era quas
pblico, pelo menos estava no conhecimento dos viz
nhos. Fazia minutos que os doi.s se conservavam en
silncio. Enjoados, provavelmente, separados, cada un
com o seu lenol. Engano. O barulho recomeava: cc
chichos que iam crescendo e se transformavam en
gritos, beijos compridos, chupes gorgolejados.
Quando se debruava  janela, fiscalizando a rua
d. Roslia usava linguagem decente para censurar a
filhas de Lobisomem, engulhava, cheia de pudores.
Uma criana urinava na cama e chorava. Distin
guia-se perfeitamente o som das gotas que batiam m
cho.
- Cala a boca! ordenava d. Roslia.
O choro findava, mas as gotas continuavam a ca.n
e a respirao do homem se arrastava, entrecortada
encatarroada, fungada, interrompida por um pigarrc
uma respirao de quem se est estrangulando. Aquil
#
me irritava tanto que eu apertava as mos nos ouvido
e mordia as cobertas para no gritar. O resfolegar d
cachorro cansado atravessava-me as palmas das mos
rasgava-me os ouvidos, e os pingos de urina, penetran
do a palha podre do colcho, caam-me dentro da ca
bea como martela.das. A criana recomeava a chorar
- Cala a boca.
Soluos engolidos da criana e a respirao arque
jante do homem. Intil apertar os ouvidos que si
pegavam s palmas como ventosas. Estirava-me, espre
guiava-me. De costas, as mos sobre o peito, experi
mentava relaxar os msculos e no pensar. Atravs da;
plpebras meio cerradas via apenas a brasa do cigarro
que se cobria de cinza. Tranqilo, tranqilo, nenhun
104
pensamento. Sentia vontade de chorar, tinha um bolo
na garganta.
- Tranqilo, tranqilo.
Esta repetio me exasperava e endoidecia. O cor-
po em completo sossego, o cfgarro apagado. No sabia
em que posio estavam as pernas. As mos pesa-
vam em cima do peito. Mas as pernas, onde estariam
elas? Flutuava como um balo. O corpo quase adorme-
cido e sem pernas. As idias, porm, no me deixavam,
idias truncadas. Uma guerra na Europa. D. Mercedes
comprara discos novos para a vitrola. Moiss se oculta-
va, com medo da polcia. Um espito puro, um esp-
rito boiando, livre da matria. As botinas de Lobiso-
mem estavam cada vez mais cambadas. Onde andaria
seu Ivo? Um esprito boiando. Como seria? O esprito
de Deus era levado sobre as guas.
As pulgas mordiam-me. Sem mudar de posio,
esforava-me por no fixar o pensamento em coisa n
nhuma. Quando vinha uma idia, afastava-a, agarra-
va-me a outra, que saa logo. Algumas voltavam com
insistncia. As botinas de Lobisomem estavam cam-
badas. O esprito de Deus boiava sobre as guas.
Suava irio, mas prolongava a tortura que produ-
ziam as picadas das pulgas e a imobllidade. Afinal as
picadas das pulgas e a imobilidade me distrairiam da-
queles beijos e daqueles uivos. Outra vez o choro da
criana, novamente a voz de d. Rosaia, arreliada:
- Cala a boca, diabo!
O pranto continuava. Pisadas de ps descalos,
palmadas, muxices. A criana choramigava baixiriho
e aquietava-se. Novos passos abafados e um baque na
cama, que rangia. O esprito de Deus boiava sobre as
guas. Como estariam as minhas pernas? Cruzadas ou
afastadas? Seria mais fcil saber como estavam as per-
nas de d. Roslia. O resfolegar prosseguia, resfolegar de
porco fossando. Quantas horas aquilo duraria ainda?
Seu Ivo, os dfscos da vitrola, Moiss, as botinas de
Lobisomem, tudo intiL Inteis as picadas das pulgas.
O homem calvo e moreno, com os olhos abotoados,
tungava e arquejava, a baba escorrendo no beio e
umedecendo a pele seca de d. Roslla. Estava mesmo
assim: os olhos arregalados, as ventas muito abertas,
105
a boca pingando gosma, a cara barbuda arranhando e
escovando o couro de d. Roslia. E aquela respirao
estertorosa de bicho sufocado!
Sentava-me e acendia um cigarro. Perdido o sacri-
ffcio de permanecer imvel, suportando as pulgas. Fe-
chava as mos com fora. Estertor de bicho sufocado.
O que eu desejava era apertar o pescoo do homem
calvo e moreno, apert-lo at que ele enrijasse e
esfriasse. Lutaria e estrobucharia a princpio, depois
seriam apenas convulses, estremecimentos. Os meus
dedos continuariam crispados, penetrando a carne que
se imobilizaria, em silncio. Este pensamento afugen-
#
tava os outros. O esprito de Deus deixava de boiar
sobre as guas. Uma criatura morrendo e esfriando,
os meus dedos entrando na carne silenciosa. No me
lembrava de Julio Tavares. O que me aparecia na
mente era o sujeito calvo e moreno que eu presumia
ser o marido de d. Roslia e talvez nem fosse. Enfim
desejava matar um homem que me roubava o sono.
* * *
H nas minhas recordaes estranhos hiatos. Fixa-
ram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento
quase completo. As minhas as surgem baralhadas
e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa. Penso
nelas com indiferena. Certos atos aparecem inexpli-
cveis. At as feies das pessoas e os lugares por onde
transitei perdem a nitidez. Tudo aquilo era uma con-
fuso, em que avultava a idia de reaver Marina. Mais
de um ms, quase dois meses em intimidade com o
outro. Procurei por todos os meios uma nova aproxi-
maco. O despeito, a raiva que senti naqueles dias com-
pridos, uns restos de amor prprio, tudo se sumiu.
A tarde voltava a sentar-me na espreguiadeira, abria
um livro. Marina ausente. Deitava-me, fingia dormir,
ficava uma hora espiando o quintal vizinho atravs
das pestanas meio cerradas. As galinhas ciscavam,
d. Adlia cantava no banheiro, a sombra da mangueira
crescia, alm do muro a mulher que lava garrafas tra-
balhava sacolejando-se num ritmo de batuque e o ho-
mem triste enchia dornas. As vezes passos apressados
106
revelavam-me a presena de Marina. Eu tinha vergonha
de abrir os olhos, e quando me decidia a acordar, j
ela estava longe. Erguia-me irritado. Perdendo ali, como
um rapazinho, momentos preciosos! Esforava-me por
acreditar que os meus momentos eram preciosos.
* * *
A noite sentava-me  calada e olhava a rua. Seu
Ramalho fazia o mesmo. Palavra de c, palavra de l
- como falvamos baixo, era necessrio aproximarmos
as cadeiras. Depois do namoro da filha com Julio
Tavares, d. Adlia mostrava-me antipatia. A princpio
era aquela subservincia, tremura, cumplicidade; mas
agora nem me via; enrugava a testa e grunhia "Huml
hum!" com um modo insuportvel. Seu Ramalho, que
meses atrs me olhava desconfiado, tornara-se um ex-
celente amigo e dava-me conselhos.
- No se case, seu Lus. Casamento  buraco.
O mundo est perdido.
- Isso  por causa do cinema, seu Ramalho. O se-
nhor nunca vai l. E feliz. Nem calcula as sem-vergo-
nhezas que h na tela.
Seu Ramalho baixava a cabea, pensativo:
- Deve ser tambm por falta de religi.o.
- E. Deve ser tambm por isso.
Realmente a minha vizinha desconhecia as igrejas,
e isto no me preocupava.
- O cinema  o diabo, seu Ramalho. O senhor
no imagina. So uns beijos safados, lingua com ln-
gua, nem lhe conto. Provavelmente as moas saem de
l esquentadas.
- Devem sair, concordava seu Ramalho. Por isso
h tanta gente de rdea no pescoo.
- Que rdea! Hoje no h rdea. Um sujeito
corre atrs de uma saia, pega a mulher, larga, pega
outra, e  aquela garapa.
- Safadeza.
- E. Tudo  safadeza. Antigamente essa histria
de honra era coisa sria. Mulher falada no tinha valia.
- Nenhuma, exclamava seu Ramalho, cansado,
tossindo. E eram vinganas medonhas.
107
#
.- Vinganas horrorosas, bradava eu excitado.
Nesse ponto da conversa contvamos sempre ama
srie de casos que ilustravam as nossas afirmacwes.
Animado, o cachimbo apertado entre os dentes, seu
Ramalho assobiava as mesmas anedotas, empregando
o mesmo vocabulrio. As vezes eu o interrompia:
- O senhor j contou essa.
Mas seu Ramalho continuava sem se perturbar:
falava para dar prazer a si mesmo, no me escutava.
Talvez quisesse enganar-se e convencer-se de que
seria tambm capaz de praticar faanhas. As palavras
saam-lhe sem variaes. Era amigo da verdade e tinha
imagina.o fraca. As minhas narrativas no se com-
paravam s dele: sendo muito numerosas, eu esquecia
freqentemente certas passagens, ficavam brechas, so-
lues de continuidade. Alm di.sso eram transmitidas
em linguagem artificial, que o vizinho achava falsa e
retocava.
O conto sensacional de seu Ramalho era o seguinte.
Um moleque de bagaceira tinha arrancado os tarnpos
da filha do senhor de engenho. Sabendo a patifaria,
o senhor de engenho mandara amarrar o cabra e 
boca da noite comeara a fur-lo devagar, com ponta
de faca. De madrugada o paciente ainda bulia, :mas
todo picado. A cortaram-lhe os testculos e meteram-
lhos pela garganta, a punhal. Em seguida tiraram-lhe
os beios. E afinal abriram-lhe a veia do pescoo, por-
que vinha amanhecendo e era impossvel continuar a,
tortura.
- Medonho! Seu Ramalho. Que coisa extraordi-
nria!
Pedia-lhe explicaes:
- Porque foi que arrancaram os quibas antes dos
beios?
- Quem sabe?
No dia seguinte reproduziria o mesmo caso : o mo-
leque morreria lentamente, sem beios, a boca enchu-
maada, por causa dos gritos. Eu desejava que seu
Ramalho acrescentasse alguma coisa  histria. Mas
seu Ramalho s sabia aquilo e era incapaz de inventar.
Por isso fazia pausas para recordar os fatos com segu-
rana, batia na testa, interrogava-se a cada ins.tane e
108
acusava-se quando avanava uma informao inveri-
dica:
- 1910. Minto, 1911. 1911, Manoel?
As duas datas produziam-lhe verdadeira aflio.
Nunca pde fixar-se em nenhuma. Detinha-se em cl-
culos, sempre se reportando a acontecimentos notveis
na sua pequena vida: o dia do casamento, a mudana
para a capital, o sarampo da filha. D. Adlia, com flo-
res de laranjeira, sem aquele corpo mole e pesado, era
bem bonita; na viagem, em estrada de ferro, o trem
da Great Western descarnlara; Marina ficara coberta
de calombos e verges encarnados.
Naquela noite seu Ramalho voltou a referir-se a
esses trs casos importantes. Nunca tinha viajado em
estrada de ferro. Um descarrilamento para comear.
- No  esquisito? Todos os dias rodam trens, que
chegam no horrio. Pois justamente quando eu embar-
co vem o desastre. No parece que estava ali um diabo
esperando por mim para botar as rodas fora dos trilhos?
E descreveu a cena. Abandonados no campo, os
passageiros metiam os olhos pela.s vidraas, e s enxer-
gavam uma luzinha distante. Fazia frio. Ele tirava o
palet e enrolava a menina, que esperneava no banco
do carro de segunda classe. Alguns trabalhadores, de
malotes, dormiam. Uma velha gemia de quando em
quando: - "Fechem essa janela." Uma rapariga chei-
rosa encostava-se so.s homens. Ele acalentava a meni-
#
na, que se arreliava no banco imundo. E olhava des-
confiado a rapariga, receando que ela se aproximasse
de d. Adlia. Mulher da vida, cheirosa, roando-se nos
homens, ali no carro pequeno, cheio de gente e quase
sem luz. Apenas um lampio fumacento, de vidros tis-
nados.
D. Adlia, corada, risonha, de carnes enxutas, era
um mulhero. O casamento foram quatro anos antes
da viagem. Bonita de verdade. Com o vu, a grinalda de
flores de laranjeira, danara uma noite sem descansar.
Olhava os moos cara a cara, e eles baixavam a cabea.
- Ah! Os marmanjos desanimavam.
O sarampo de Marina tinha sido dez anos depois
da viagem. Estivera vai no vai, batendo a caoleta.
109
- Antes tivesse batido, que era inocente e no
dava desgosto a ningum.
A febre durara muitos dias. Mal respirava, magrf-
nha como um palito, e por cima dos olhos vidrados
as moscas passeavam. D. Adlia, bamba, arrastava os
chinelos de trana que pareciam dois sapos. Estava
mole, encolhida, machucada, e habituara-se a falar
cochichando e a baixar a cabea diante de toda a
gente.
Seu Ramalho deu um suspiro e empurrou a his-
tria do moleque da bagaceira, o que havia arrancado
os tampos da filha do patro.
- 1910 ou 1911?
Nunca pude saber com preciso a data da morte
do moleque. Isto no tinha importncia: no guardo
nmeros, e a angustiada confuso de seu Ramalho irri-
tava-me. Enquanto ele batia na testa, avanava e
recuava, eu ia pouco a pouco distinguindo uma fzgura
nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era
uma pasta escura de carne retalhada; os membros, tor-
cidos na agonia, estavam cobertos de buracos que es-
guichavam sangue; a boca, sem beios, mostrava den-
tes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os
olhos esbugalhados tornavam-se vermelhos. O negro ar-
quejava. Corria sangue entre as frestas dos parallepf-
pedos e empoava na sarjeta. A poa crescia, em pouco
tempo transformava-se num regato espumoso e ver-
melho.
- Af, ai! suspirou seu Ramalho. Vou chegando ao
servio.
Ergueu-se como se levantasse da cadefra um peso
enorme. E, descontente, arfando, um ombro alto, outro
baixo, o cachimbo entre os dentes, l se foi para a usf-
na eltrica. Seguf-o com a vista at a esquina. Quando
ele de.sceu da calada, estremeci: pareceu-me que tinha
sujado os sapatos no sangue.
A vitrola de d. Mercedes rodava marchas de car-
naval; d. Adlia abriu os postigos: - "Hum, hum!";
a cabea de d. Roslia tinha os cabelos vermelhos. An-
tnia, pintada de vermelho, as pernas abertas, passou
bamboleando-se. Das saias dela desprendeu-se um chei-
ro forte de sangue. Provavelmente estava menstruada
110
e no se lavava. Os arames da Nordeste balanavam
como cordas. Eu receava que os transuntes tropeas-
sem no moleque estendido no calamento. Rangia os
dentes e dizia baixinho:
- Que estupidez! Que estupidez!
Mas a figura continuava a escabujar no cho.
Agora no era preta nem estava nua. Pouco a pouco
ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava,
as feridas saravam.
Aquela hora Marina devia descansar, escanchada
na rede, deitada de costas. Uma perna dava o impulso
para o balano, e os armadores rangiam: ran, ran.
#
Provavelmente se estragava pensando num romance
besta. O ar refrescava-lhe as coxas suadas. E os arma-
dores faziam: ran, ran.
- Que estupidez! Que estupidez!
A figura deitada no calamento estava branca e
vestida de linho pardo, com manchas de suor nos sova-
cos. Felizmente o sangue tinha desaparecido, j no
havia a umidade pgajosa na sarjeta, nos cabelos de
d. Roslia, nas saias de Antnia. Em redor tudo calmo.
Gente indo e vindo, crianas brincando, roncos de au-
tomveis. O hmem tinha os olhos esbugalhados
e estrebucha  -~ rrn, nedao de corda
amarrado n -
e duas mo
parecia que'
o
seguravam :
gordura bal   ' "   ; ' c o  
A vitrol   o  o  o      cor-
entava
os armador   ente. Os
tado balan
rena. Eu   o' ' . Sentar
0 osene, encos-
palmas, trc    t O . ~
va-me a ca o ~ r a   cachaa. Mas
no tinham para
os olhos a
a lngua '  o ,, o, 0 4ualquer coisa, dar
abundo, que tinha an-
sa,  nos bancos dos passeios,
 riam a srio. Viam um su-
  , plido, tossindo por causa da
Quar  olhado a roupa. A luz do can-
pletamen oscilava no balc.o gorduroso. Iio-
.' 113
casa e os bilhetes errados e grosseiros de dr. Gouveia.
Aporrinhaes. Por causa de uma porcaria, alguns
meses de aluguel deste chiqueiro, coices. Pagar tudo,
perfeitamente. Bastava reduzir um pouco as despesas
e voltar ao jornal. Marina que fosse para o diabo.
Agarrava a papelada com entusiasmo de fogo de
palha. Tempo perdido. Marina no ia para o diabo,
E eu m metia por estas ruas, passava horas no caf,
lesando, bebendo. Seria fcil regularizar a minha vida,
liquidar as contas, botar tudo de novo nos trilhos. Un:
pouco de boa vontade, mtodo.
- Outro conhaque.
Mtodo, perfeitamente, tudo se arranjaria. Sai
dali, ia olhar as vitrinas e os cartazes. Bacharel idiota
aperreando um bom inquilino. Porcaria.
- Quem andou por este mundo roendo chifre nc
se engancha em bobagens. Porcaria. Tenho comidc
toicinho com mais cabelo.
Foi nesta disposio que li os cartazes da compa
nhia lrica. No dei importncia a ela. Companhu
vagabunda, com pessoal rouco, as cantoras canhes
provavelmente. Encolhi os ombro.s: no sei msic:
e tenho pssimo ouvido. As paredes dos cafs co
briam-se de retratos de artistas. Visa no papel, havi
uma soprano bem regular.
No dia da estria notei rebulio em casa de sei
Ramalho. Pela manh chegaram caixas e pacotes; mai
tarde bateu palmas uma criatura de preto, certament
a modista; o menino da sapataria apareceu muita
vezes; depois seu Chico, o carteiro, que sabe corta
cabelos de senhoras. Marina largava os sapatos e corri
pelo corredor, aos gritos com a me, que se mexia con
dificuldade. A noit2 um carro buzinou  porta, e M
rina saiu de casa, bem vestida como as senhoras d
#
Ate.~ro quando vo s festas da Associao Comercia:
Atravessou a calada, sem se virar, e entrou na Limoa
sine, onde brilhava a cam.sa de Julio Tavares, so
o foco eltrico. Os pneumticos rodaram senciosos er
direo  Praa Deodoro, e na rua ficou um cheir
esquisito de gasolina, po-de-arroz e perfumes.
Cinco dias seguidos a mesma cena se reproduziu
Marina atravessou a calada com o andar seguro da
112
senhoras do Aterro, o peitilho engomado brilhou, o ar
se encheu de uma estranha mistura de gasolina e per-
fumes.
No me continha: saa de casa e andava  toa
por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas.
O inverno tinha comeado, quase sempre caa uma
chuvinha renitente. Ia sentar-me num ba,nco da Praa
dos Martrios, e os pingos que tombavam da folhagem
das rvores molhavam-me a cabea descoberta e escal-
dada. A sentinela cochilava no porto do palcio. Ao
p do morro, pedaos da igreja fechada apareciam en-
tre os ramos. Um barulho horrvel de motores e rodas.
Automveis a roncar. Todos queimavam gasolina mis-
turada com perfume. Depois um rdio comeava a tro-
vejar peras. O cheiro e o som tornavam-se insuport
veis. Esforava-me por esquecer o nariz e o ouvido,
abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao
fuzil. Servio pau. Um pobre homem dormindo em p.
Acordava, escancarava a boca, via com tdio as grades
do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha.
O tapete vermelho da escada me dava impresso desa-
gradvel. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mn-
davam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca,
vermelha. Porque no aparecia uma terceira cor? Aquilo
era irritante, mas a farol me atraia. Pelo menos va-
riava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sen-
tinela.
Levantava-me, subia a Ladeira Santa Cruz, percor-
ria ruas cheias de lama, entrava numa bodega, tentava
conversas com os vagabundos, bebia aguardente. Os
vagabundos no tinham confiana em mim. Senta-
vam-se, como eu, em caixes de querosene, encos-
tavam-se ao balco mido e sujo, bebiam cachaa. Mas
estavam longe. As minhas palavras no tinham para
eles significao. Eu queria dizer qualquer coisa, dar
a entender que tambm era vagabundo, que tinha an-
dado sem descanso, dormido nos bancos dos passeios,
curtido fome. No me tomariam a srio. Viam um su-
jeito de modos corretos, plido, tossindo por causa da
chuva que lhe havia molhado a roupa. A luz do can-
deeiro de petrleo oscilava no balco gorduroso. Ho-
113
mens de camisa de meia exibiam msculos enormes, que
me envergonhavam.
Encolhia-me timidamente. No simpatizavam co-
migo. Eu estava ali como um reprter, colhendo im-
presses. Nenhuma simpatia.
A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto
nos livros. Comovo-me lendo os sofrimentos alh2ios,
penso nas minhas misrias passadas, nas viagens pelas
fazendas, no sono curto  beira das estradas ou nos
bancos dos jardins. Mas a fome desapareceu, os to.~-
mentos so apenas recordaes. Onde andariam os ou-
tros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome
antiga me enfraqueceu a memria. Lembro-me de vul-
tos bisonhos que se arrastavam como bichos, remoendo
pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais,
nas cadeias, debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos
das favelas. Alguns, raros, teriam conseguido, como eu,
um emprego pblico, seriam parafusos insignificantes
na mquina do Estado e estariam visitando outras fa-
#
velas, desajeitados, ignorando tudo, olhando com assom-
bro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequeninas
almas de parafusos fazendo voltas num lugar s.
Ia sentar-me no canto mais escuro, longe do can-
deeiro de petrleo, longe dos homens de camisas sem
mangas e das mulheres que arrastavam tamancos.
Vagabundos? Nada. Estavam ali indivfduos de vrias
profisses. O moleque tisnado era engraxate. A mulher
de chinelos, que trazia uma garrafa de querosene pen-
durada no dedo por um cordel, tinha modos de p: ssoa
sria, casada ou amigada. A rapariga pintada de branco
e vermelho, com marcas de feridas nos braos, devia
ser uma ratufna como Antnia. O homem gordo era
pedreiro, via-se pelas manchas de cal na roupa. Pe-
dreiro com aquele corpo, que perigo! Um cochilo no
andaime, pisada em falso na ponta da tbua, e no dia
seguinte a famflia estaria de luto. O rapaz de cabelos
compridos que tocava violo provavelmente no se
ocupava. No carnaval devia ser uma das figuras mais
importantes do cordo, e pela festa de Natal, na barca
de terra e varas que ali estava armada em frente 
bodega, seria um bicho na chegana, contramestre pelo
menos, talvez almirante. Os meninos que brincavarn na
114
rua quando estiava, s carreiras e aos gritos, horas de-
pois estariam no grupo escolar, os cotovelos na car
teira, escutando, ou no escutando, a voz da profes-
sora. Vinte anos depois seriam balizas no clube carna-
valesco, contramestres de chegana, donas-de-casa sos-
segadas que levariam, pendurada no fura-bolo, uma
garrafa de querosene amarrada pelo gargalo, mendigos
como aquele que ali estava com a perna estirada co-
berta de trapos. Felizmente as moscas dormiam, e o
homem dos trapos no precisava mandar as almas cari-
dosas para o reino do cu em voz alta, para a casa
do diabo em voz baixa. Agora no havia esmolas e o
homem da perna entrapada conversava com os outros
quae naturalmente. O dno da bodega era triste. Cer-
tamente pensava no aluguel, na figura odiosa de um
dr. Gouveia, no imposto e nas faturas dos gneros.
Talvez dentro de seis meses a bodega estivesse fechada,
e ele, com os cacarecos, a mulher, de garrafa pendu-
rada no dedo, e os filhos, que agora danavam na rua
molhada, tivesse descido o morro pela banda do norte
e vivesse  beira do Reginaldo, onde h febres, inun-
daes e lixo. As crianas danavam e cantavam na rua
molhada. Dentro de vinte anos as que gostassem de
torcer-se no mesmo canto seriam parafusos. Ignora-
riam o que existisse longe delas, mas conheceriam per-
feitamente as coisas por onde passassem as suas roscas.
Haveria dentro de vinte anos criaturas assim encaraco-
ladas que, tendo corrido mundo, se resignam a viver
num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, res-
pirando podrides, desejando um pedao de carne vi-
ciada? Tudo ali era to simples! Os bordes do violo
gemiam, as gargalhadas sonoras da mulher pintada
enchiam a praa. A histria que o homem acaboclado,
de peito cabeludo e cicatrizes no rosto, contava ao
engraxate devia ser interessante. Gestos expressivos,
provavelmente faanhas de capueiras. Eu no compreen-
dia a linguagem do narrador, as particularidades que
provocavam admirao perdiam-se. As gargalhadas da
mulher transformavam-se naquela viagem curta aos
meus ouvidos, chegavam-me frias, geladas. E a marcha
do carnaval entristecia nos bordes do pinho. Todas
aquelas pessoas entendiam-se perfeitamente. Diferiam
115
, muito umas das outras, mas havia qualquer coisa que
as aproximava, com certeza os remendos, a roupa suja,
a imprevidncia, a alegria, qualquer coisa. Eu  que
#
` no podia entend-las. - "Sim senhor. No senhor."
' Entre elas no havia esse senhor que nos separava. Eu
era um sujeito de fala arrevesada e modos de parafuso.
Aquele tipo acaboclado, que dizia histrias de capueira
e se balanava num p s, tinha bceps enormes, pro-
vavelmente estrangularia um homem sem grande es-
foro. A rapariga pintada cheirava a p-de-arroz. A p-
de-arroz e a gasolina. O rapaz de cabelos compridos
' largava os sambas carnavalescos e punha-se a arrancar
do pinho coisas absurdas que pareciam trechos de pe-
ras. Insuportvel. Afinal que estava eu fazendo ali,
sentado num caixo, diante de um copo vazio? Pro-
curava fixar a ateno nas crianas que danavam e
corriam, como danavam Q corriam, na areia do Ca-
valo-Morto, os meus companheiros, alunos de mestre
Antnio Justino. L estava novamente entrando no pas-
sado, torcendo-me como parafuso. - "Rei meu senhor
mandou dizer que fossem ao cemitrio e trouxessem
um osso de defunto." Quem tinha coragem? Os mais
atrevidos chegavam at o muro de seu Honrio, no
m da rua. Adiante o lugar era mal-assombrado e nin-
gum se aventurava por l. Eu queria gritar e espo-
jar-me na areia como os outros. Mas meu pal estava
' na esquina, conversando com Teotoninho Sabi, e no
consentia que me aproximasse das crianas, certamente
receando que me corrompesse. Sempre brinquei s. Por
isso cresci assim besta e mofino.
Lembrava-me da minha chegada  vila. As ruas
me causavam grande espanto: nunca havia imaginado
que as ruas fossem to compridas e to largas. Sai de
casa e comecei a passear na calada, olhando a janela
de um sobra.dinho onde se debruava um homem far-
dado. Quis recolher-me e entrei pela primeira porta que
encontrei. Na sala de jantar descobri uma mulher
amamentando o filho, sentada numa esteira, com um
gato de banda. Fiquei encabulado e perguntei: - "De
quem  csse gato?" A mulher respondeu: - "E meu."
Sa e continuei a passear na calada, mas sem prestar
aten,o ao homem de farda que se debruava  janela
116
! do sobradinho. Arrisquei-me a entrar por outra porta.
Na sala de jantar a mulher amamentava o filho. E o
gato de banda. Tornei a perguntar: - "De quem  esse
gato?" A mulher respondeu : - " meu." Mais tarde
cabo Jos da Luz me encontrou perdido e levou-me para
casa. Um menino grande e besta, muito diferente dos
que brincavam junto  barca de terra e varas. Na escola
de mestre Antnio Justino sentava-me afastado dos ou-
tros, naturalmente para no me corromper.
E ali estava encostado ao balco, sem perceber
o que diziam, meio bbedo, susceptivel e vaidoso, des-
conffado como um bicho. Tudo aquilo me envergo-
nhava: as conversas simples, a alegria, especfalmente
oa msculos do homem que falava ao engraxate. Ms-
culos e mos enormes, que esganarfam facilmente um
inimigo. Levantava-me.
- Insuportvel.
A mulher cheirava a gasolina. O violo tocava
peras.
- Insuportvel.
Os bfceps e as mos do homem acaboclado eram
realmente enormes.
* * *
O ltimo dia foi medonho. Quando a limozcsine
rolou no paralelepfpedo e o peftilho de Julio Tavares
se sumfu, no me afastei da janela,. Fiquef mastigando
o cigarro e respirando aquela mistura desagradvel que
enchia a rua. Nenhum desejo de ir aos Martirios, subir
o morro do Farol e escutar os tipos que se encostavam
ao bako sujo e gorduroso da bodega. Apalpei a car-
#
tefra vazia, meti os dedos noa bolsos midos, vazios.
Sentia-me incompleto e sem nimo de me aventurar
sozimho por aquelas ruas esquisitas. sentia,-me iraco e
desarmado.
Porque serfa que o peftilho de Julio Tavares bri-
lhava tanto e no se amarrotava? Julio Tavares licava
duro como um osso fraturado envolvido em gesso, tinha
o espinhao aprumado em demasia., olhava em lrente,
oom segurana, a vinte passos. O peitilho da camisa
absolutamente chato.
117
A minha camisa estufa no peito,  um desastre.
Quando caminho, a cabea baixa, como a procurar df-
nheiro perdido no cho, h sempre muito pano subin-
do-me na barriga, machucando-se, e  necessrio pux-lo,
ajeit-lo, sujeit-lo com o cinto, que se afrouxa. Estes
movimentos contnuos do-me a aparncia de um bo-
neco desengonado, uma criatura mordida pelas pulgas.
A camisa sobe constantemente, no h meio de conser-
v-la estirada. Tambm no  possivel manter a es-
pinha direita. O diabo tomba para a frente, e l vou
marchando como se fosse encostar as mos no cho.
Levanto-me. Sou um bfpede,  preciso ter a dignidade
dos bpedes. Um cachorro como Julio Tavares andar
empertigado, e eu curvar-me para a terra, como um
bicho! Desentorto o espinhao. Que  que me pode
acontecer? Se dr. Gouveia passar por mim, finjo no
v-lo. E impossfvel pagar o aluguel da casa. No pago.
Hei de furtar? Dr. Gouveia que se lixe. Se o governador
e o secretrio me encontrarem,  como se no encon-
trassem. No os enxergo, na rua sou um homem. Pen-
sam que vou encolher-me, sorrir, o chapu na mo, os
ombros derreados? Pensam? Esto enganados. Sou um
bfpede. E isto, um bpede. Mas no  necessrio que
dr. Gouveia, o governador e o secretrio apaream na
rua. Alis  bom que eu no veja essas criaturas exi-
gentes. Se elas desejarem qualquer coisa de mim, fala-
ro de longe: escrevero um bilhete ou daro uma
ordem para o jornal, ao Pimentel, pelo telefone. Man-
darei um ms do aluguel da casa, se puder, ou escre-
veref mais uma coluna que j escrevi centenas de
veze e reproduzo sempre, substituindo palavras. Esses
homens dominam-me sem mostrar o focinho: manifes-
tam-se pelo arame, num pedao de papel.
Pensam que vou ficar assim curvado, nesta posi-
o que adquiri na carteira suja de mestre Antnio
Justino, no banco do jardim, no tamborete da reviso,
na mesa da redao? Pensam? Procuro ajeitar as vr-
tebras, mas as vrtebras parecem soltas, presas apenas
por um fio, como as que Dagoberto vinha jogar em
cima da minha cama. Resvalam pouco a pouco, e ao
cabo de vinte minutos de exerccio penoso o meu cor-
no toma a configurao de um arco. A cabea pende,
118
como se procurasse dinheiro na calada, e a camisa
taz pafos no peito. Intil tentar abaix-la e prend-la
na cintura Sobe sempre e me arrelia. Enquanto me
aperreio com ela, no vejo as pessoas. Que ser de
mim para o futuro? Est claro que no inspiro confi-
ana aos trabalhadores. Na sesso mais agitada seu
Ramalho gemer, cansado e asmtico, um ombro alto,
outro baixo: - "Camarada Lufs da Silva, voc escre-
veu um artigo defendendo o imperialismo " - "No
escrevi no. Sou l homem para defender o imperia-
lismo?" - "Est aqui o original,  a sua letra", dir
o rapaz de cabelos compridos, que toca violo. Moiss
no ter coragem de interceder por mim. Pimentel
estar fuzilado. Lobisomem tomar uma nota lenta
nos papis. Fico pensando em coisas assim, cabisbai-
xo, a testa enrugada. Se dr. Gouveia, o governador, o
#
secretrio, passarem por mim, no os verei: seguirei o
meu caminho com dignidade curva, o espirito distan-
te. Os conhecidos que me virem pensaro: - "Lus da
Silva  um sujeito que no tem subservincia nenhu-
ma." E os que me cumprimentarem e no obtiverem
resposta diro: - "Lufs da Silva  uma besta, um
imbecil, um cretino." E bom no levantar a espinha.
& a levantasse, teria de baix-la de novo a cada pas.
so, aflito e apressado, o chapu na mo. Assim, no
vejo ningum, caminho batendo nos transeuntes,
enmlando palavras de desculpa, entrando no fqturo
como um parafuso. - "Camarada Luis da Silva, antes
da revoluo voc elogiava os polfticoa safados do inte-
rior, os prefeitoz ladres. Onde est o dinheiro que
esza gente lhe deu?" Sabia l!
Agora no tinha dinheiro. De quando em quando
metia a mo no bolzo. Desarmado e s, inteiramente
d, encoatado  janela, ouvindo o barulho dos autom
veis. Nenhum desejo de lugir daa pessoaa que Iam ao
teatro. &ntia era vontade de ir tambm, sentar-me
auma cadeira junto do palco, bater palmas, olhar os
camarotes. Faltavam-me cinco ou seis dias para rece-
ber o ordenado. Agora no havia dinheiro, s resta-
vam niqueis. Um emprstimo, sem dvida, um emprs-
timo. Mas quem me iria emprestar vinte mil-ris qus-
la hora?
119
D. Mercedes entrou no carro. A personagem off-
cfal no a acompanhava. Tipo de responsabilidades,
pai de famflia, ia ao teatro em companhia da mulher
e das filhas. D. Mercedes sentava-se num camarote
fronteiro, no bem fronteiro, um pouco de esguelha, e
no se exibia demais.
Se Pimentel aparecesse, talvez me arranjasse o
ingresso do jornal. Ou um emprstimo. Dentro de cin-
co dias, seis quando muito, o Tesouro pingaria o orde-
nado da gente.
- Daqui a dez anos terei esse ordenado?
E Julio Tavares? Julio Tavares estaria expatria-
do, fuzilado ou enforcado. Enforcado, Julio Tavares
enforcado. Marina deixaria de pintar as unhas e iria
trabalhar no asilo das rfs.
Vinte mil-ris, vinte mil-ris. Lembrava-me dos
leiles em que se cavava dinheiro para um santo, dian-
te da igreja da vila. - "Vinte mil-ris me do por esta
prenda..." O olho de vidro de padre Incio, imvel
na rbita escura, tinha uma dureza sinistra.
Vinte mil-ris, vinte mil-ris. No haveria leiles,
no haveria santos, Marina trabalhando no asilo das
rfs, Julio Tavares enforcado, padre Incio morto
muitos anos antes.
Aquela hora a platia, comeava a encher-se, um
garoto dizia pilhrias, as cantoras pintadas e empaca-
viradas em mantos compridos entrvam pela portinho-
la da caixa. Mantos pretos. Pareceu-me que os man-
tos deveriam ser pretos, mas no pude saber porque
me vinha esta idia.
Vinte mil-ris, vinte mil-ris. Padre Incio cravava
nos ofertantes o olho duro e imvel, andava em torno
da mesa com as mos atrs das costas, todo preto.
Um emprstimo, era o que me valia. Pensei nas
minhas entrevistas com Marina, ,lta noite, no quin
tal. Certamente ela havia esquecido aquilo, mas eu me
lembrava de tudo muito berr. As formigas rendilha-
vam as folhas. Um grilo saltava no canteiro. A ilumi-
nao da cidade chegava ali muito reduzida. Quase
no tfnhamos necessidade de roupa. - "Vamos entrar
meu corao." As luzes se tinham apagado e eu con-
seguira que Marina se despisse. Beijara-a da cabea
120
#
aos ps, sentira nos beios os carocinhos que se forma-
vam na pele macia. Ela curvava-se e cobria os peitos
com as mos. Olhava-a e apenas distinguia uma som-
bra que se torcia junto ao tronco da mangueira. Pare-
cia-me que Marina estava vestida de preto.
Ali, perto da raiz, ao p da cerca, no canteiro das
alfaces, escondia-se a fortuna de Vitria. Aqueles pon-
tos me eram familiares, seria capaz de encontr-los
com os olhos fechados.
Tempo sem fim  janela, olhando os automveis
que passavam para o teatro. Ainda passavam alguns.
Bem. A representao ainda no tinha comeado.
Vinte mil-ris. Cinco ou seis dias depois pagaria,
com juro de cento por cento. Daria cento por cento ao
velho Abrao. Uma semana de prazo. Pimentel no
aparecia, Moiss no aparscia.
Com certeza a platia estava quase cheia, serfa
diffcil encontrar cadeiras perto da orquestra. - "Letra
D, letra F" - "Acabaram-se. S h de S para trs."
Marina passeava o Lorgnon pelos camarotes, indiferen-
te, e os rapazes abotoavam para ela os olhos gulosos.
D. Mercedes mordia os beios com despeito. Julio
Tavares, apertado no smokzng, parecia menos gordo.
Dentro de alguns anos estaria enforcado, mas agora
estava bem vivo. E na camisa branca, sem uma dobra,
as pedras dos botes faiscavam, no dedo grosso o rubi
faiscava, a gola do srcoking faiscava.
Entrei desanimado, fui debruar-me  janela da
sala de jantar. Vitria ps a xfcara, o aucareiro e a
garrafa trmica sobre a mesa, foi deitar-se. Ouvi o
rumor da chave na fechadura, depois o resmungar de
oraes e o chocalhar das contas do rosrio. Em segui-
da houve silncio. Os olhos de um gato passaram por
cima do muro de d. Roslia. Currupaco mexeu-se na
gaiola e bateu as asas.
Uma a.o indigna. Perfeitamente, ao indigna,
mas no ousei confessar a mim mesmo qual era a
ao, qual era a indignidade. Horrivel fixar aquilo no
pensamento. No queria pensar.
A casa devia estar cheia, o homem da bilheteria
cochilava. Um olho, no palco, observava a platia por
121
um buraco do pano de boca. Marina bocejava por
detrs do leque, Julio Tavares amolava-se.
Afinal Vitria encontrava sempre moedas minhas
no cho quando varria a casa. Depois elas apareciam
em cima da mesa de jantar, nas cadeiras, debaixo dos
travesseiros, mas antes tinham estado ocultas naqueles
lugares que eu conhecia bem. Muito provvel que a
velha se enganasse nas contas e deixasse algumas l
enterradas. Natural estarem ali vinte mil-ris meus.
Indignei-me com a pobre e entrei a descomp-la men-
talmente:
- Ladra! Estar um homem em dificuldade por
causa de vinte mil-ris, uma porcaria, e saber que essa
miservel esconde as economias dele, economias suadas,
em buracos no cho.
Decidi-me a ir pisar mais uma vez a terra que
Marina havia pisado, encostar-me ao tronco da man-
gueira, onde ela estivera nua, enrolada na escurido,
torcendo-se e mordendo os braos para no gritar por
causa dos beijos que eu Ihe dava na barriga e nas
coxas. Deci os degraus. Na porta do banheiro meti o
p numa poa.
Julio Tavares serfa enforcado. Marina trabalhai.
ria no asilo das rfs.
Perfeitamente, era ali que ela havia tirado a cami-
sa uma noite. Agora estava embrulhada em roupa com-
prida, o largnon insultando as mulheres dos outros
camarotes. O pano j se tinha levantado, Ffgaro e
#
Almaviva se escondiam perto da janela de Rosina, o
dr. Bartholo fechava a porta. Marina olhava a cena
com fastio.
Meses atrs estava ali no escuro, nua, o corpo todo
coberto de carocinhos midos como pontas de alfine-
tes. Inteiriava-me, rangia os dentes, pisava com raiva
o cho que escondia o tesouro de Vitria. Debaixo das
solas dos meus sapatos, a alguns centfmetros de pro-
fundidade, estavam as moedas que eu precisava. Ras-
par um pouco a terra, mergulhar a mo, agarrar um
punhado delas.
Os olhos do gato brilharam outra vez em cima do
muro de d. Roslia e ficaram parados, redondos e fos-
forescentes. Pensef na datilgrafa que tinha desapare-
122
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cido. Talvez estivesse doente. Ou morta. Franzina,
com aquele peitinho estreito, batendo na mquina.
Mexia-me, e no podia desviar os olhos das duas
tochas que me espiavam por cima do muro. Sentia os
torres se esfareL3rem sob as solas dos sapatos, quase
que ouvia o tilintar das moedas. Soaram pisadas perto.
Encolhi-me e acocorei-me, receando que algum tre-
passe o muro e viesse reforar a espionagem do gato.
Estava cheio de atrapalhao e vergonha. Uma ao
indgna. Procurava afastar esta idia pensando em
Marna, imaginando-a vestida de preto. Um manto
impalpvel que eu atravessava com as mos e com os
beios.
D. Baslio comparava a calnia a um incndio.
Que fazia Marina, chateada, bocejando por detrs do
leque? S para se mostrar, s para mostrar a roupa e
o orgnon. Amolada, sonolenta. Julio Tavares tam-
bem estava amolado e sonolento. D. Baslio descrevia
o incndio, acompanhando com as mos o movimento
das labaredas. A princfpio eram chamas fracas, e d.
Baslio, para segui-las, baixava-se, estava quase encos-
tando as mos no soalho.
As minhas mos encontraram-se esgaravatando a
raiz da mangueira.
- Que misria! Que misria!
Repetia as palavras como um idiota, olhando as
duas brasas imveis em cima do muro. Mas os dedos
continuavam a remexer os torres. Cavando a terra
com as unhas, como um gato!
- Que misra! Que misria!
Umidade pegajosa corra-me pelos braos, molha-
va a camisa. Cinco dias, seis dias depois, receberia o
dinheiro no Tesouro. Recebera o dinhero, trocaria
uma cdula por pratas e deitaria ali as moedas, com
acrscimo de cnto por cento. Se Moiss tivesse apa-
recido. . . Moiss e Pimentel s apareciam quando no
eram necessrios. Restituiria as moedas com aumento.
Considerei que Vitria no se assemelhava ao tio de
Moiss. Vitria no tinha a paixo do lucro: apenas
guardava enterrado o dinheiro ganho. E queria que,
muito ou pouco, ele estivesse al em segurana. A idia
de que ela ia surgir, resmungando, arrastando os ps
124
I
reumticos, paralisou-me os dedos. Survreendi-me a
dizer e a repetir em voz baixa:
- O dinheiro foi feito para circular.
Com certeza Vitria estava dormindo, sonhando com
os navios e com o Currupaco. Os olhos do gato
 cresciam, cresciam extraordinariamente, iluminavam o
I quintal todo.
- Sim ou no. Sim ou n.o.  estpido, absoluta-
mente estpido. Afinal o dinheiro foi feito para cir-
cular.
Lembrei-me do jogo das crianas. Cara ou cunho?
Se desse cara, sim; se desse cunho, no. Mergulharia
a mo na terra mida, tiraria uma moeda, acenderia
um fsforo. Se sasse cunho, iria deitar-me, no torna-
#
ria a ver Marina. Tantos tormentos por causa de uma
fmea! Dorrrir, dormir. Senti as plpebras pesadas;
I julgo que, fascinado pelos olhos do gato, deixei a cabe-
a inclinar-se num cochilo. Se saisse cara, acabaria
depressa com aquilo e iria ao teatro. Tinha quase a
certeza de que, indo ao teatro, tudo se arranjaria:
Marina voltaria para mim, Julio Tavares se achata-
ria, se desagregaria, como um pouco de azeite em
gua corrente. Meter a mo na terra, agarrar um
dobro do imprio, riscar um fsforo. Afastei a idia.
Que lembrana! Bastavam as luzes medonhas dos olhos
do gato. Acabar depressa, acabar depressa. No era
nenhum selvagerr para adotar recursos infantis. Sim
ou no. Um homem livre. Perfeitamente, um homem
livre de supersties. Comecei a cavar a terra com
desespero, ralando os dedos. Estava decidido. Pronto!
Seis dias depois colocaria no buraco o duplo da quan-
tia retirada.
- Nenhuma ao indigna. Nenhuma ao indigna.
Continuei a aprofundar a cova com as unhas,
' como um gato. Restituiria o dnheiro com acrscimo
' de cento por cento. Um roubo. Roubaria de mim mes-
mo para aumentar o tesouro da ladra. Sobressaltei-me.
Se as moedas no estivessem ali? Se a velha as tivesse
transportado para outro lugar? Revolvi apressado a
terra mole. Chegaria a tempo de alcancar o segundo
ato? Agora no sentia vergonha: indignava-me por
 causa da hesitao que tinha consumido uma eterni-
125
dade. Um homem livre, sem dvida. O que me incomo-
dava era o gato. Se no fosse o receio de fazer baru-
lho, atiraria um punhado de torres no animal. As
tochas desapareceriam, eu me tranqillzaria.
At que enfim! L estavam elas debaixo dos
dedos: dobres enormes da colnia, peas menores e
mais fornidas, da monarquia, rodelas atuais, de dez
tostes e de dois mil-ris. Apanhei vinte destas lti-
mas. Vinte mil-ris, ou mais, que Vitria no ia enter-
rar nqueis. Fechei a cova, fui ao banheiro lavar as
mos e as moedas. Esfreguei-as, enxuguei-as com o
leno. E fugi, atravessei a casa, abri a porta da rua.
Alcanaria o fim do segundo ato ou o princpio do ter-
ceiro. Lembrei-me de contar o dinheiro. Desdobrei o
leno, examinei as moedas ainda midas. Vinte e seis
mil-ris em prata e duas libras esterlinas. Tomei o
chapu, desci a calada. Como diabo teria Vitria con-
seguido agadanhar aquele ouro?
Pus-me a andar lentamente, a pressa havia desa-
parecido. Atnito, o leno com as pratas na mo
esquerda, as duas libras na direita, avizinhei-me da
praa. Tfnha repugnncia de meter as moedas no bol-
so. Olhei os dedos com ateno, cheirei-os. Fedor de
azinhavre, terra nas unhas. Porcaria. Esfreguei as
mos no leno molhado.
Era necessrio livrar-me do dinheiro. Pensei em
voltar, afrontar de novo os olhos do gato. Um engra-
xate ambulante olhou-me os ps e bateu na caixa.
Onde guardaria aquilo? J perto do teatro parei, meio
aliviado. Baixei-me e escondi num sapato as duas
libras esterlinas. As pratas ficaram envolvidas no
leno.
* * *
Introduzi perturbaes muito srias numa vida
Quando recebi o ordenado, obtive no caf cinqen
ta e dois mil-ris em prata. Vitria fazia inconsci
entemente timo negcio. Juro de cento por cento. f
noite juntei a isso as duas libras esterlinas e
tarde, quando houve silncio, pus tudo sob a raiz dF
mangueira. Infelizmente coloquei as moedas empilha
das, como num cartucho, posio diferente da que ti
#
126
nham as que l estavam. Suponho que isso provocou
a desconfiana de Vitria.
No dia segulnte paguel o salrio dela. E via-a,
como todos os meses, andar numa agltao, trocando
as cdulas, sumlndo-se  noite em viagens ao quintal.
Mas a confuso, que ordinariamente dura trs, quatro
dias, desapareceu logo e foi substituda por um abati-
mento que me causou grande mal-estar. Ouvia-a uma
noite intelrinha contar dinheiro. Como j disse, ela
pensa em voz alta. O metal tilintava em cima da cama
da velha, e os nmeros se acumulavam numa soma
infindvel, sempre emendada. As vezes a chave ran-
gia na fechadura, a porta abria-se, tornava a fechar-
se, abrla-se a da sala de jantar, os passos pesados des-
ciam os degraus. Meia hora depoiz a mulher voltava,
as moedas tiniam novamente em clma da cama. Outro
sumio. Eu adormecia, mas o ferrolho da sala de jan-
tar e a fechadura do quarto prxlmo acordavam-me.
O solilquio e os tinidos tiravam-me o sono.
Levantei-me cedo e encontrei Vltria muito velha e
muito bamba. Delxava-se cair a um canto da cozinha,
e era difcil arrancar-se dali. Interrompeu as idas ao
quintal e abandonou as lies ao Currupaco. Notei
que as covas estavam revolvidas e mal cobertas.
- Vitria!
Tinha vergonha de cham-la, temia que ela me
pregasse os olhos brancos e cansados, cheios de aflio.
- Vitria!
Estava sentada, encolhlda, movendo em silncio
os belos moles. E quando levantava a cabea, mostra-
va no rosto uma suspeita agoniada. Se ela andava com
as suas contas em ordem, certamente se espantava de
haver achado em um dos buracos vinte e seis mil-ris
a mais; se as contas no estavam em regra, talvez se
julgasse roubada. E Vitria engolia em seco, olhava o
Currupaco ansiosa, numa interrogao desalentada
que fazia pena.
- V descansar, Vitria. Voc est doente.
No podia descansar, e a minha piedade era ind-
til. Level o desespero a uma alma que vivia sossegada.
Toda a segurana daquela vlda perdeu-se. A linha tra.
ada do quarto  ralz da mangueira, uma linha curta
que os passos trpegos e vagarosos percorriam na
escurido, fora de repente cortada.
- V descansar, Vitria.
Conselho intil. O cu de Vitria, miudinho, onde
grilos e formigas moravam, tinha sido violado.
* * *
As visitas de Julio Tavares foram escasseando e
a alegria ruidosa de Marina pouco a pouco desapare-
ceu. Havia grande silncio na casa vizinha. Seu Rama-
lho estava contente.
- Parece que a tonta criou juzo.
- Acha? perguntei incrdulo.
-  c uma idia. Essa gente moa desembesta
e faz tolice.  o sangue. Mas um dia acerta a pisada.
D. Adlia andava com a cara comprida e o nariz
vermelho, assoando-se e soltando longos suspiros. Uma
tarde encontrei Marina engulhando junto ao mamoei-
ro. Eram arrancos que a sacudiam toda, a faziam tor-
cer-se agarrada ao tronco, o rosto contrado, muito
descorado. No me viu e entrou em casa cuspindo.
- Que ter ela? diss comigo sem atinar com o
motivo dos engulhos, da palidez e das cusparadas.
- An! Estava feia. Bem. Estava feia demais,
amarela, torcendo-se, enxugando na manga a cara
molhada de suor, tentando vomitar, cuspindo  toa
na roupa.
- timo!
#
Onde andavam os vestdos caros, as tintas, os tre-
meliques e os modos insolentes que escandalizavam
d. Roslia? Estava ali com os msculos da cara repuxa-
dos, fechando os olhos, agitando a cabea como uma
lagartixa.
- Que diabo tem ela?
Desgovernada, cuspindo-se.
- timo! Est muito bem assim. Que se lixe.
* * r
Uma criatura dissipou as fumaas mesquinhas de
vingana, uma figura que apareceu numa esquina e
128
logo se sumiu, mas que me ficou profundamente gra-
vada na cabea.
Como certos acontecimentos insignificantes to-
mam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem
nada ver. O mundo  empastado e nevoento. Sbito
uma coisa entre mil nos desperta a ateno e nos
acompanha. No sei se com os outros se d o nlesmo.
Comigo  assim. Caminho como um cego, no pode
ria dizer porque me desvio para aqui e para ali. F`re-
qentemente no me desvio - e so choques que me
deixam atordoado: o pau do andaime derruba-me o
chapu, faz-me um calombo na testa; a calada foge-
me dos ps como se se tivesse encolhido de chofre; o
automvel pra bruscamente a alguns centimetros de
mim, com um barulho de ferragem, um raspar violen-
to de borracha na p_ edra e um berro do chofer. Entro
na realidade cheio de vergonha, prometo corrigir-me.
- "Perdo! Perdo!" digo s nessoas que me abal
roam porque no me afastei d caminho. As pessoas
vo para os seus negcios, nem se voltam, e eu me con-
sidero um sujeito mal-educado. Tenho a imbresso de
que estou cercado de inimigos, e como caminho deva-
gar, noto que os outros tm demasiada pressa em
pisar-me os ps e bater-me nos calcanhars. Quanto
mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeo. Que-
ro recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que no
compreendo, ouvir o Currupao, ler, escrever. A mul-
tido  hostil e terrivel. Raramente percebo qualquer
coisa que se relacione comigo: um rosto bilioso e
faminto de trabalhador sem emprego, um cochicho de
gente nova que deseja ir para a cama, um choro de
criana perdida. As vezes isso me perturba, tira-me o
sono. Se o marido de d. Roslia est presente,  o que
j se sbe; se no est, penso nos namorados que se
atracam junto a uma vitrina, em posio inc8moda,
no operrio que tem fome e ameaa o patro, na crl-
anca pue chora perdida, chamando a mamezinha.
Tudo foi visto ou ouvido de relance, talvez no tenha
sido visto nem ouvido bem, mas avulta quando estou
s - e distingo perfeitamente a criana, o operrio
faminto, os namorados que desejam deitar-se. Eles me
lnvadiram por assim dizer violentamente. No fiz ne-
129
nhum esforo para observar o que se passava na mul-
tido, ia de cabea baixa, dando encontres a torto e
a direito nos transeuntes. De repente um grito, uma
palavra amarga, um suspiro - e algumas figuras se
criaram, foram bulir comigo na cama.
A pessoa a que me referi surgiu de supeto entre
a Rua lo de Maro e a Rua do Comrcio. Eu ia dobrar
a esquina, ela vinha em sentido contrrio - e foi uma
coliso feia. A aba do meu chapu de palha bateu-lhe
na testa, provavelmente feriu-a.
- Perdo! Perdo!
Dei um passo para trs e distingui uma criatura
enorme que tambm havia recuado com o choque e
estava diante de mim, a m,o cobrindo um dos olhos,
onde tinha batido a aba do chapu. O olho descober-
#
to, os beios contrados, as rugs da cara exprimiam
espanto, raiva e dor. Encostei-me  parede, deixei-a
passar. Foi um tempo insignificante, mas deu para
v-la da cabea aos ps. Um minuto depois tinha desa-
parecido, a banda do rosto crispada, o olho disponi-
vel voltado para mim com um brilho de dio. O espa-
o que ocupara na calada era atravessado por outros
corpos que iam e vinham, sem me despertar intersse.
Mas a imagem do primeiro corpo vivia em mim. Era
uma mulher gorda, amarela, mal vestida, com uma
barriga monstruosa. No sei como podia andar na rua
conduzindo aquela gravidez que estava por dias. A
saia, esticada na irente, levantava-se exibindo pernas
sujas e inchadas. Os ps, sujos e inchados, cresciam
demais nos sapatos cheios de buracos. Com uma das
mos segurava o brao de uma criana magra e pli-
da, com a outra escondia o olho e um pedao de cara.
Eu encostava-me  parede, resmungando atrapalhado:
- Perdo! Perdo!
Findo o primeiro momento, aquela figura me pro-
vocara ccegas na garganta e um desejo idiota de rir.
A barriga disforme resistia ao pano desbotado que
tentava cont-la e empinava-se, tinha uma forma
agressiva. Estava ali um cidado que, antes de nascer,
ameaava a gente. A me, que s tinha uma banda de
rosto, torcia-se por causa da pancada recebida e cra-
130
vava-me um olhar duro, a metade de um olhar irrita-
do e cheio de sofrimento.
 - Perdo! Perdo!
Subitamente as ccegas desapareceram, a vontade
de rir morreu, atentei vexado naquela barriga enorme
que me provocava. A roupa esgarava-se, desbotada,
fuxicada e remendada; os ps, metidos  fora nos
sapatos furados, pareciam bolos. Dera, recuando, um
puxo na criana, que se pusera a chorar. Nenhuma
palavra, apenas uma interjeio de dor e raiva, grito
rouco, perfeitamente selvagem. Com certeza j vinha
; recebendo encontres, e aquele, demasiado rude, Ihe
esgotara a pacincia. Andar no meio da multido, aos
embolus, com semelhante barriga! S muita neces-
sidade.
Era o tipo da mulher de subrbio mesquinho, que
varre a casa lava as panelas e prega os botes com
as dores do parto. pare sozinha e se levanta trs dias
depois, vai tratar da vida. Vida infeliz, vida porca. O
I homem para um lado, ela para outro, arrastando a
! filha pequena, a barriga deformada, estazando-se,
i agentando pancadas nos olhos. Ta,lvez estivesse na
vspera de ter menino, talvez estivesse no dia, talvez
j sentisse as entranhas se contrarem. Rebolar-se-Ia
dentro de algumas horas na cama dura, a carne can-
sada se rasgaria, os dentes morderiam as cobertas
remendadaz. E o macho ausente, ningum para ir cha-
mar a parteira dos pobres. Uma vizinha tomaria con-
' ta da casa, faria o fogo, prepararia tisanas, aos repe-
' les, rosnando:
- Porcaria. Que gentel
' Depois ofereceria consolaes:
- Tenha pacincia. Isso vai logo. Faa fora.
A mulher tinha desaparecido, a banda do rosto
; passara cravando-me o olho carregado de dio. Eu no
sentia desejo de rir. Na calada um ventre extraordi-
nrio ia inchando, ventre que tomava propores ian-
tsticas. Os transeuntes atravessavam aquela barri-
! ga transparente, s vezes paravam dentro dela, e isto
era absurdo, dava-me a idia de gestaes extrava-
, gantes.
131
Agora havfa duas imagens distintas: uma barriga
#
que se alargava pela cidade e a mulher que mostrava
apenas um pedao de cara. Nessa parte vfsfvel, endu-
recida pelo sofrimento, pouco a pouco se esboavam
as feies de Marfna. Os cabelos, que a mulher tinha
grisalhos, tornavam-se louros. A bochecha era pfnta-
da, a metade da boca excessivamente vermelha, o olho
nico muito azul.
Eu fervfa de raiva. Se tivesse encontrado Julio
Tavares naquele dia, um de ns terfa ficado estirado
na rua.
* * *
Alguns dias depois achava-me no banheiro, nu,
fumando, fantasiando maluqueira, o que sempre me
acontece. Fico assim duas horas, sentado no cimento.
Tomo uma xfcara de caf s seis horas e entro no
banheiro. Sajo s oito, depofs das oito. Visto-me 
pressa e corro para a repartio. Enquanto estou
fumando, nu, as pernas estiradas, do-se grandes revo-
lues na minha vida. Fao um livro, livro notvel,
um romance. Os jornais gritam, uns me atacam,
outros me defendem. O diretor olha-me com raiva,
mas sei perfeitamente que aquilo  cime e no me
incomodo. Vou crescer muito. Quando o homem me
repreender por causa da informao errada, compre-
enderei que se zanga porque o meu livro  comentado
nas cidades grandes. E ouvirei as censuras resignado.
Um sujeito me dir:
- Meus parabns, seu Silva. O senhor escreveu
uma obra excelente. Est aqui a opinio dos crfticos.
- Muito obrigado, doutor.
Abro a torneira, molho os ps. As vezes passo uma
semana compondo esse livro que vai ter grande xfto
e acaba traduzfdo em lfnguas distantes. Mas isto me
enerva. Ando no mundo da lua. Quando saio de casa.
no vejo os conhecidos. Chego atrasado  repartio.
Escrevo omitindo palavras, e se algum me fala, acon-
tece-me responder verdadeiros contra-sensos. Para limi-
tar-me s prticas ordinrias, necessito esforo enor-
me, e is.to  doloroso. No consfgo voltar a ser o Lufs
132
da 8va de todos os dias. Olham-me surpreendidos:
naturalinente digo tolices, sinto que tenho um ar apa-
lermado. Tento reprimir essas crises de megalomania,
luto desesperadamente para afast-las. N,o me do
prazer: excitam-me e abatem-me. Felizmente passam
 meses sem que isto me aparea.
De ordinrio fico no banheiro, sentado, sem pen-
sar, ou pensando em muftas coisas diversas uma das
outras, com os ps na gua, fumando, perfeftamente
Lufs da Silva. Uma formiga que surge traz-me quanti-
dade enorme de recordaes, tudo quanto li em alma-
naques sobre os insetos. Agora no h nenhum livro
traduzido, nenhuma vafdade. Olho a formiga. Quando
ela vai entrar no formiguefro, trago-a para perto de
mim, fao no cho um circulo com o dedo molhado,
deixo-a numa ilha, sem poder escapulir-se. Observo-a
e penso nos costumes dela, que vi nos alinanaques.
O banhefro da casa de seu Ramalho  junto, sepa.
rado do meu por uma parede estreita. Sentado no
cimento, brincando com a formfga ou pensando no
livro, distingo as pessoas que se banham l. Seu
Ramalho chega tossindo, escarra e bate a porta c;om
fora. Molha-se com trs baldes de gua e nunca se
esfrega. Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um
minuto. D. Adlia. vem docerente, lava-se docemente
e canta baixinho: - "Bendito, louvado seja..." Ma-
rina entra com um estouvamento ruidoso. Entrava.
Agora est reservada e silenciosa, mas o ano passado
surgia como um p-de-vento e despia-se s arranca-
das, falando alto. Se os botes no safam logo das
#
casas, dava um repelo na roupa e largava uma prar
ga: - "Com os diabosl" L se iam os botes, l se
rasgava o pano. Notavam-se todas as minudncfas do
banho comprido. (astava dez minutcs escovando os
dentes. Pancadas de gua no citnento e o chiar da
escova, interrompido por palavras soltas, que no
tinham sentido. Em seguida mijava. Eu continha a
respirao e aguava o ouvido para aquela mijada lon-
ga que me tornava Marina precfosa. Mesmo depois que
ela brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele
momento e dedicar a ele uma ateno concentrada.
Quando Marina se desnudou junto de mim, no egpe-
133
rimentei prazer muito grande. Aquilo vefo de supeto,
atordoou-me. E a minha amiga ops uma resistncfa
desarrazoada: cerrava as coxas, curvava-se, cobria os
peitos com as mos, e no havia meio de estar quieta.
Agora arrancava os botes, praguejava, escovava os
dentes, mijava. Abria-se a torneira: rumor de gua,
uns gritinhos, resfolegar de animal novo. A torneira
se fechava - e era uma esfregao interminvel.
- Para casa, Marina, bradava d. Adlia. Acabe
com isso. Voc gasta o sabo todo.
Marina dava um muxoxo, e o movfmento das mos
frfccionando a pele macia continuava.
- Baixe o fogo, Marina. Venha para casa.
A espuma entrando nos sovacos e nas virilhas fazia
um gluglu que me excitava extraordinariamente. Pare-
cia que Marina queria esfolar-se. Imaginava-a em car-
ne viva, toda vermelha. Imaginava-a branquinha, co-
berta de uma pasta de sabo que se rachava, os cabe-
los alvos, como uma velha Essas duas imagens me
davam muito prazer. Queria que aparecesse a Julio
Tavares assim encarnada e pingando sangue, ou
encarquilhada e decrpita, os plos do ventre como
um capulho de algodo. A torneira se abria. L esta-
va Marina outra vez nova e fresca, enchendo a boca
e atirando bochechos nas paredes, resfolegando, sape-
cando frases desconexas.
Nunca tive o desejo de v-la nesse estado. No alto
da parede h um tijolo deslocado que se pode retirar
facilmente. Pondo um caixo na beira do tanque, ser-
me-ia possvel afastar o tfjolo e distinguir o corpo de
Marina. A experincia no me tentou. O esforo neces-
srio para manter-me em equilbrio reduzir-me-ia a
ateno. E eu no queria v-la despida sem o consen-
timento dela. Contentava-me com aqueles rumores, e
percebia-a como se a visse Poderfa daqui palestrar
com ela no tempo em que ramos amigos. Terfamos
a impresso de que nos banhvamos juntos. Mas a
minha amiga ficaria limitada pelas convenincias,
armando frases, procurando ser amvel. O que me
encantava eam aqueles modos de garota estabanada,
as palavras soltas  toa, pedaos de cantigas, o gluglu
da espuma e a mijada sonora.
134
Pois tudo isso desapareceu. Fazia algum tempo
que os rumores familiares se vinham atenuando, mas
 naquele dia tudo se tornou claro, a suspeita que tive
j na rua se confirmou. Marina entrou no banheiro e
esteve uns minutos em silncio, despindo-se com lenti-
do. Os movimentos dela eram to vagarosos que eu
os percebia a custo. Era preciso adivinh-los. Assoou-
se e lavou as mos na torneira.
- Virgem Nossa Senhora!
E punha-se a cusp:r. Aquela queixa, mostrava um
desengano enorme. Pareceu-me que o mundo se tinha
despovoado e Marina estava completamente s. Senti
o desejo de bater na parede e cham-la:
- Marina, que foi que aconteceu?
#
Queria que ela me iludisse, jurasse que no havia
acontecido nada. Mordi as mos para no gritar.
Afastei-me, como um bbedo. Mas o ventre disfor-
me continuava a perseguir-me. Era-me necess.rio
falar, ir ao caf, libertar-me da obsesso, do dio que
me enchia.
Com certeza no precisava de mim. Precisava de
Julio Tavares, que tinha levado sumio. As cuspara-
das sucediam-se. Marina assoava-se e lavava os ddos.
Os soluos subiam e desciam. Aquele muco que a gua
levava, as lgrimas, a saliva abundante, aquela mis-
ria, aquele abandono, tudo me atraa.
- Valha-me Nossa Senhora.
Isto me cortava o corao e aumentava o meu
dio a Julio Tavares. Vi-o claramente como o vi na
tarde em que o surpreendi  minha janela, derreten-
do-se para Marina. Atrapalhado, procurara tapear-me
com adulaes. Eu resmungava pragas obscenas e anda-
va de uma parede a outra, sentia desejo imenso de
 fugir, pensava na fazenda, em Camilo Pereira da Sil-
va, em Amaro vaqueiro e nas cobras, especialmente
i numa que se enrolara no pescoo do welho Trajano.
j - Que vai ser de mim, santo Deus?
O escorrego de Marina era evidente. Lembrei-me
do meu despeito, de palavras duras jogadas a d. Ad-
lia meses antes: - "A senhora pensa que ela endirei-
ta? Perca as esperanas. Aquela d com os burros na
 gua." Estava agora ali, enojada, cuspindo, apalpan-
135
do a barriga e os peitos intumescidos. E o pranto
subia e descia, era s vezes um lamento de criana
fatigada, outras vezes os soluos rebentavam, numa
rajada de gritos histricos e bestiais. Olharia realmen-
te a barriga e os peitos que se avolumavam? Impos-
sfvel imaginar qualquer coisa sobre os movimentos
dela. Ciemidos e choro. Nenhum outro som. Desespero
estpido, revolta de bicho logrado. Nem palavras sol-
tas, nem cantigas, nem passos no cimento molhado,
nem gua correndo da torneira. Dias antes esses rumo-
res combinados me davam uma imagem quase perfei-
ta de Marina. Sabia quando ela se baixava, quando se
levantava, quando enxugava os cabelos, quando aca-
riciava com espuma o umbigo, os bicos dos peitos, as
virilhas. Ciritinhos, respirao diferente da respirao
ordinria. Agora estava provavelmente imvel. Esses
gestos no lhe dariam nenhum pra,zer. As cantigas
truncadas no lhe dariam nenhum prazer. Talvez nem
olhasse a barriga e os peitos, que dofam e se deforma-
vam. Todo o corpo era um instrumento de desgosto.
O p da barriga endurecido, uma coisa apertando-lhe
a cabea como esses aparelhos de suplcio que usam
no serto, feitos de pau e corda. Os pauzinhos tor-
ciam-se, a corda penetrava na carne, os ossos estala-
vam, os miolos queimavam. Eu sentia raiva, aborreci-
mento, piedade e nojo. E cuspia, como Marina. Aque-
la imobilidade e aquele choro me afligiam. Porque no
se molhava, no passava uma hora debaixo da tornei-
ra, esfregando-se, ensaboando-se? F'ungava; provavel-
mente as lgrimas se misturavam com restos de po-de-
arroz e poeira; o suor lustrava-lhe a pele e produzia
coceiras nos sovacos; a moleza do sono amorrinhava-
Ihe o corpo. Estava suja e feia, precisando banho.
Houve umas pancadas na porta, o choro desapa-
receu. O meu banheiro tornou-se vazio. Agucei o ouvi-
do, arregacei as narinas: apenas o cheiro desagrad-
vel da gua que escapava da sarjeta e se estagnava
numa poa, a parolagem do Currupaco, que arengava
com outros Currupacos invisveis. Novas pancadas na
porta e a voz de d. Adlia:
- Marina!
#
136
Marina abriu a torneira e entrou a lavar-se, can-
tando uma cantiga rouca, estrangulada, medonha.
Mas as pancadas e a voz cresciam.
- Marina, abra a porta. Abra a porta, minha
filha.
Uma splica zangada e arquejante que sxigia gran-
de esforo. Marina devia estar quase limpa. O suor, O
catarro, a poeira, as lgrimas e as tintas rolavam no
enxurro, e Marina era outra, vermelha, o espinhao
levantado, como um ano antes, quando havia surgido
entre os canteiros, empinando-se, os cabelos pegando
fogo. As vises do sono tinham-se dissipado.
- Marina!
Marina continuava a cantar, a gritar, em gra,nde
espalhafato. Para que serviam as queixas e as expro-
braes de d. Adlia? A gua corria e se desperdiava,
abafando a voz aguda e trmula. E Marina enxugava-
se cantando com raiva.
- Abra, meu corao.
O ferrolho correu, a porta se abriu de chofre e
tornou a fechar-se. Estavam as duas cara a cara, num
silncio de atrapalhao. Sentei-me  beira do tanque,
olhei o tijolo deslocado.
- Que latomia  essa? perguntou d. Adlia com
autnridade mole. Creio em Deus Padre. Parece que
morreu gente.
Provavelmente d. Adlia conhecia mais ou menos
o que tinha sucedido. Mas queria acreditar que no
houvera infelicidade sem remdio, ou ento, caso isto
no fosse possvel, botar os quartos de banda, lamen-
tar-se e atirar a responsabilidade para o destino.
- Estou desconhecendo voc. Que foi que houve?
Af o pranto de Marina rebentou novamente, enro-
lado com palavras speras que no entendi. D. Adlia
baixou a pancada:
- Que horror, filns, da minha alma! Santo Deusl
valha-me Nossa Senhora do Amparo.
- Que Deus, que Nossa Senhora, que nada! gri-
tou Marina reduzindo a cacos as lamrias e a religio
da me. De quem  a culpa? A senhora no sabia?
Para que fingir que no sabia? A senhora sabia.
Calaram-se, fungando.
13?
- Criar uma filha tantos anos, gemeu d. Adlia,
passar a vida sonhando com a felicidade dela, e ue
repente uma desgraa desta!
- Pois sim, disse Marina com um risinho. Boni-
ta criao. Est vendo?
Tlnha-se acalmado um pouco e podia falar, j no
estava sozinha no mundo, urrando lamentaes. Arro
metia contra a me, arfando, grunhindo, como um
bicho mal domesticado que quer morder:
- Coitadinha! No via, no sabia. To inoceate!
Agora j sabe. Pois . Escangalhada, com um filho na
barriga. No faa essa carinha de santa no.  o que
lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um mole
que no bucho. No quer ouvir no? Tape os ouvidos.
- Cale a boca, Marina, gaguejou d. Adlia tre
mendo. Me respeite, Marina.
Esta ordem bamba pareceu-me ridicula e despro-
positada, mas produziu um efeito que me espantou:
Marina deitou gua na fervura. Virei d. Adlia po
todos os lados e no achei que ela fosse digna de res
peito. Nem de respeito nem de dio. Lembrei-me da:
referncias do marido: - "Com as flores de laran
jeira na cabea, danava como carrapeta, olhava o;
homens sem baixar as pestanas. An! E eles se atra
palhavam." Agora, aquela moleza, aquela confusc
angustiada, o desejo de minguar, achatarse, a pisadt
#
macia do chinelo de corda, os modos lentos e sutis dE
quem pega nas coisa,s s escondidas e tem medo dE
quebr-las, de levar caro. Nada disso podia inspira:
respeito. Toda ela era uma desgraa arrastada e obli
qua, destinada a suportar grosserias e rejeles. Quan
do o homem da casa vinha receber o aluguel atrasa
do, gritava: - "Boto-lhe os troos na rua." Seu Rama
lho brigava por causa das cuecas sem botes. Coita
da! Ela era uma s para tanto trabalho! D. Roslif
escarnecia dela: - "A senhora no se anerta. Ten
quem lhe d tudo." D. Adlia torcia as mos, engolit
em seco. Julio Tavares dirigia-Ihe graolas pesada,s
aquele cachorro. D. Adlia baixava a cabea. Apena
um gmnhido de reprovao, quase imperceptivel: -
"Hum! hum!"
- Me respeite, Marina.
138
i Aquela ordem gaguejada nem era ordem: era um
pedido assustado em voz de choro. Marina calou-se e
entrou a soluar. Tive o desejo de gritar atravs da
j parede estreita:
- A senhora no tem culpa de viver nesse esta-
do, d. Adlia. A senhora no nasceu assim. Era cora-
da, risonha, danava como carrapeta, olhava os ho-
mens cara a cara, e os homens se desaprumavam. Seu
marido impava de orgulho e fazia: - "An!" Depois
transformaram a senhora nisso, d. Adlia. Um trapo,
uma velha sem-vergonha. Qualquer caixeiro de bodega
chega-lhe  porta e berra para dentro: - "Mande
pagar a conta, madama. O patro est s cascas." E
a senhorn sofre com isso, porque tem uns restos de
dignidade e quer que a respeitem. Nunca se acaba a
dignidade da gente, d. Adlia. A gente  molambo
sujo de pus e rola nos monturos com outras porca-
rias, mas recorda-se do tempo em que estava na pea,
antes de servir. D. Adlia se lembra das flores de
laranjeira que lhe enfeitavam a cabea bonita. Tantas
esperanas! Hoje  essa misria que se v. Fizeram da
senhora uma bola de bilhar, uma coisa que vai para
onde a empurram. Entretanto a senhora danava
como carrapeta, e seu Ramalho estava contente.
Marina continuava a chorar. D. Adlia queixava-
se baixinho. Eu tinha vontade de chorar tambm, con-
doia-me da sorte das duas mulheres e da minha pr
j pria sorte.
* * *
E estranho que elas no houvessem aludido uma
nica vez a Julio Tavares. Nenhuma referncia que-
le patife. Era o que me espantava quando sai do bar
nheiro, j muito tarde. Nesse dia faltei ao ponto.
Marina acabara numa resignao estpida, entre-
gara-se a Deus; d. Adlia no responsabilizara ningum.
Julio Tavares era como viga que tomba do andaime
e racha a cabea do transeunte. Ou um castigo, um
decreto da Providncia, qualquer coisa deste gnero.
Ningum falava nele. Tinha aparecido cheio de lam-
banas, usando falsidade em tudo. Entrara-me em
casa sem ser chamado e deixara-se ficar, interrompen-
l39
do o meu trabalho, afugentando os amigos. Aprovei-
tando a minha ausncia, seduzira Marina. E azulara.
Mostrava-se rarament, em visitas rpidas, com certeza
receando que a moa cometesse um desatino c lhe
atrapalhasse a vida.
No haveria desatino: as duas mulheres eram fa-
talistas e queixavam-se da sort. Malucas. Revoltava-
me o recurso infantil de se xingarem, arrancare:n os
cabelos. Era evidente que Julio Tavares devia mor-
rer. No procurei investigar as razes dsta necessida-
de. Ela se impunha, entrava-me na cabea comu um
#
prego. Um prego me atravessava os miolos.  estpido,
mas eu tinha realmente a impresso de que um objeto
agudo me penetrava a cabea. Dor terrvel, uma idia
que inutilizava as outras idias. Julio Tavares devia
morrer.
D. Adlia estava justificada: - "A senhora no
nasceu assim. Era forte e bonita. Passou de carrapeta
a bola de bilhar. A senhora  um pedao de pano
sujo." Marina tinha sido julgada e absolvida. Prova-
velmente me deixei influenciar por leituras romnti-
cas. Esqueci que ela um ano antes invejava as mQia
de seda e os vestidos de d. Mercedes. Agora tinha
tudo: meias, vestidos, um filho no bucho, um filhc
que sairia gordo, bochechudo e safado, como o pal
como o av, o Tavares dos Tavares & Cia., uns ratos
Marina era instrumento e merecia compaixo
D. Adlia era instrumento e merecia compaixo. Ju
lio Tavares era tambm instrumento, mas no tivE
pena dele. Senti foi o dio que sempre me inspirou
aora aumentado.
Necessrio que ele morresse. Julio Tavares cor
tado em pedaos, como o moleque da hlstria que set
Ramalho contava. Logo me aborrecia da tortura com
prida. Nojo, medo, horror ao sangue. Julio Tavare:
morreria violentamente e sem derramar sangue. En
sonhos ou acordado, vi-o roxo, os olhos esbugalhados
a lngua fora da boca. Pensei muitas vezes nos bcep
do homem acaboclado que ensinava capueira ao ra
paz, no alto do Farol. Por uma aberrao, ima;inav
que aqueles msculos eram meus.
140
Os msculos de mestre Domingos eram do velho
Trajano. Os msculos e o ventre de Quitria tambm.
Sinha Germana concebia e paria no couro de boi, a
que o atrito e a velhice tinham levado o cabelo. Qui-
tria engendrava filhos no cho, debaixo das catin-
gueiras, atrs do curral, e despejava-os na esteira da
Isidora, em partos difceis. Crias de cores e idades di-
ferentes espalhavam-se por aquela ribeira, vrias de
Trajano, cabras alatoados que apareciarn de longe em
longe e pediam a bno do velho s escondidas. Os
partos de sinha Germana perderam-se: escapou ape-
nas Camilo Pereira da Silva, que parafusou no roman-
ce e me transmitiu esta inclinao para os impressos.
Quitria e outras semelhantes povoaram a catinga de
mulatos fortes e brabos que pertenciam a Trajano Pe-
reira de Aquino Cavalcante e Silva.
So do meu tempo os dois ltimos partos de
Quitria. Sinha Terta, parteira da fazenda, batia a
taramela do quarto pegado  cozinha. Trajano ronda-
va a porta, preocupado com a cria, que no era dle.
Depois da abolio, j sem foras, ainda conservava
os modos de patriarca. Estava arrasado, aos sbados
subia  vila, entrava na carrasparZa, encostava-se ao
ombro de mestre Domingos, babando-se: - "Negro!
Tu no respeitas teu senhor no, negro?" No o al-
cancei gerando filhos nas pretas, mas alcancei os ca-
bras que lhe pediam a bno cochichando e vi-o nas
pontas dos ps rondando o quarto de Quitria, interes-
sando-se pelos moleques, como se fossem dele.
Quitria esperneava, espojava-se e soprava na es-
teira, as varas da isidora estalavam. Havia silncio, ru-
mores esquisitos, roncos, voz de sinha Terta, que a
de Quitria acompanh2va, arrastada e nasal:
Minha santa Margarid.a,
No estou prenha nem paa ida.
Tircv-me ese corpo morto
Que ec tenho na barriga.
Depois uma coisa se derramava e sinha Terta
dizia:
#
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
141
Meu av serenava.
As outras pretas da fazenda tinham deixado a co
zinha depois de 88, e Trajano era senhor de uma es
crava s, que se deitara com ele sob as catingueiras 
no queria ser livre. Conheci Trajano decadente, exce
dendo-se na pinga e j sem prestgio para armar ca
broeira e ameaar a cadeia da vila. Mas os cangacei
ros ainda se descobriam quando o avistavam, tipo
sarars de olho vermelho, cabolos de msculos de fec
ro. Se o velho quisesse extinguir um proprietrio vizi
nho, chamaria Jos Baa, o camarada risonho que m
vinha contar histrias de onas no copiar, ajustari
a empreitada por meias-palavras, dar-lhe-ia uma cdu
la. E ficaria tranqilo, de alpercatas, camisa e cerou
las de algodo cru, tomando tabaco, escanchado n
rede de varandas coloridas que arrastavam.
Lembrava-me disso e apalpava com desgosto 0
meus muques reduzidos. Que misria! Escrevendo con:
tantemente, o espinhao dodo, as ventas em cima d
papel, l se foram toda a fora e todo o nimo. D
que me servi;a aquela verbiagem? - "Escreva assin
seu Lus." Seu Lus obedecia. - "Escreva assado, se
Lus." Seu Lus arrumava no papel as idias e os ir
teresses dos outros. Que misria!
Pensava no homem acaboclado que encontrei n
alto do Farol, membrudo como os sujeitos que, n
presena de Trajano, varriam o ptio da fazenda cor
chapus de couro.
As cascavis torciam-se por ali. Uma delas enro;
cou-se no pescoo de Trajano, que dormia no banc
do alpendre. Trajano acordou, mas no acordou u
teiramente, porque estava caduco. Levantou-se, tropi
ando, gritando, e sapateou desengonado como m
doente de coria. Uma alpercata saltou-lhe do p.
ele, arrepiado, metia os dedos entre os anis do coh
vivo :
- Tira, tira, tira.
Quem ia tirar a cascavel que chocalhava no pe
coo do velho? Eu era mido e olhava aquilo com e
panto. Parecia-me que a cobra era um enfeite, um
coisa que Trajano enrolara no pescoo para ficar dif
rente dos outros velhos. Quem ia tocar nela?
142
- Tira, tira, tira.
Quitria puxava o rosrio de contas brancas e
azuis: - "Misericrdia!" Trajano Pereira de Aquino
Cavalcante e Silva danava no cho de terra batida.
Afinal a cobra se soltou, Camilo Pereira da Silva ma-
tou-a com o macete de capar boi e Quitria levou-a
pendurada num pau, a cabea encostada ao rabo, ba-
lanando como uma corda, e foi jog-la para l dos
juazeiros.
Agora Quitria estava morta. E os filhos dela e
os das outras pretas que, depois de 88, foram viver
em ranchos de palha, nas ribanceiras do Ipanema,
comeavam a desacatar os descendentes dos antigos
senhores. Muitos andavam nos grupos de salteadores
que assolam o nordeste, queimando propriedades, vio-
lando moas brancas, enforcando os homens ricos nos
ramos das rvores.
* * *
Seu Ivo apareceu aqui em casa faminto, meio nu
e meio' bbedo, como sempre. Enquanto Vitria lhe
preparava a comida, fez-m um presente:
- Est aqui, seu Luisinho, que eu lhe trouxe.
E ps em cima da mesa uma pea de corda.
- Para que me serve isso, seu Ivo? Onde fol
que voc furtou isso?
#
- No furtei no, seu Luisinho, achei na rua.
Guarde para o senhor.  bonitinha.
E entregou-se ao prato que Vitria lhe ofereceu.
- Muito obrigad, seu Ivo.
Aproximei-me da mesa, desenrolei a pea de corda.
Mas, com um estremecimento, larguei-a e meti as mos
nos bolsos, indignado com o caboclo:
- Retire isso da, seu Ivo. Que diabo de lem-
brana idiota foi essa?
O homem espantou-se:
- Porqu? Guarde, seu Luisinho. E dada de bom
corao. Serve para armar rede.
Pensei na rede onde Marina descansava  noite e
que me roubava o sono, ringindo nos armadores.
- No quero. Tire isso depressa,.
143
Evtava dizer o nome da coisa que ali estava em
cima da mesa, junto ao prato de seu Ivo. Parecia-me
que, se pronunciasse o nome, uma parte das minhas
preocupaes se revelaria. Enquanto estivera dobrada,
no tinha semelhana com o objeto que me perseguia,
Era um rolo pequeno, inofensivo. Logo que se desen
roscara, dera-me um choque violento, fizera-me re
cuar tremendo. Antes de refletir, tive a impresso df
que aquilo me ia amarrar ou morder.
Lembrei-me de Chico Cobra, um curandeiro quf
na vila andava, sempre com um cabao cheio de jara
racas. Quando Chico Cobra matou um homem na fei
ra, entrou na mata, fez um rancho de palha e cercou
se de surucucus e outros viventes semelhantes. Toda;
as diligncias da polcia para prend-lo falharam
Nunca ningum chegou ao rancho do criminoso:
distncia de quinhentas braas o que se via eram bar
rocas com enormes rodilhas de serpentes.
Desejei insultar seu Ivo. Pareceu-me que ele tinhs
vindo aqui mangar de mim. No era justo. Empurrav
a porta, entrava sem vergonha, nunca lhe faltou a bia
Zombar de mim! N.o me contive:
- Caboclo safado, mal-agradecido.
Seu Ivo olhou-me com assombro:
- Oh! xente!
Acanhei-me. Dizendo tolices.
- Est bem. No discutamos.
Entrei a caminhar de uma parede a outra, ma:
como numa das viagens batia com a biqueira do sapa
to no cano de gua, desisti do exercfcio e pus-me F
andar em torno da mesa, descrevendo crculos qm
pouco a pouco se reduziam. Afinal ia quase tocandc
as cadeiras, e isto me dava a impresso de que set
Ivo e a mesa estavam sendo amarrados. Sentei-me. C
horror que a corda me inspirava foi diminuindo, ma
o desconchavo nos meus modos e nas minhas idia
continuou. Pareceu-me que uma das idias estava al
em cima da mesa, simulando laadas e espirais. Istc
era to burlesco, to extravagante, que me veio di
repente um acesso besta de hilaridade que espantoi
seu Ivo. O conjunto daquelas voltas emaranhada;
formava um molho no centro da mesa, e tinha feic
144
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vagamente arredondada. Com um pouco de esforo pa
dia admitir-se que fosse redondo, mafs ou menos redon
do, comparvel a uma cabea chata feita de curva,
caprichosas que se torciam como tripas. Pensei em cir
cunvolues cerebra.is, levantei-me e fui beber un
gole de aguardente. Voltei a sentar-me. Continuava a
rir, mas sem vontade de rir. Seu Ivo arregalou o:
olhos, e isto me paralisou o riso idiota. Sentindo-mE
fiscalizado, reprimi aquela manifestao ruidosa. Acal
mei-me, aparentemente. Nem riso nervoso nem raiva
despropositada. Toda a minha ateno se concentrava
no molho confuso de anis que ali estava em cims
da mesa.
- Coma descansado.
Seu Ivo comeu tudo, Vitrfa retirou o prato. Beb:
mais um pouco de aguardente e fiquei arriado na ca.
deira, as mos esquecidas na toalha coberta de man
chas, olhando a corda.
Recordei-me da morte de Fabricio, amigo e com
padre de meu paf. Nunca tinha vfsto um homem as
sassinado. Assoando-se e gemendo, sentada na prens
de farinha que apodrecfa no quintal, Quitria falavz
de Fabrcio como de uma criatura extraordinria, nar
rava faanhas maravilhosas dele. Rosenda escutava-F
corn interjeies, eu pensava em Jos Baa. Mais tardE
fugi de casa e cheguei-me  cadeia pblica, onde o cor
po de Fabrcio estava exposto, o tronco nu, os olho;
vidrados. Esse cangaceiro tornou-se para mim excessf
vamente grande, e nenhum dos defuntos que encontre:
depois, na vida e em livros, foi como ele. Comparei s
Fabrfcio mortos ilustres, e Fabrfcio resistfu  compa
rao, porque foi o primeiro homem assassinado quE
vi, tev os elogios de Quitria e era compadre de meu
#
pai. No jornal, consertando a sintaxe na reviso ou
escrevendo notas de polfcia, quantos cadveres passa
ram diante de mim! Nenhum deixou mossa. Fabrcic
estava nu da cintura para cima, cosido de facadas, ers
horrfvel. Passei vrfas noites sem dormr direito, acor
dando agoniado e aos gritos. O segundo homem assas
sinado que vf impressionou-me, mas no me tirou c
sono. Depois me habituei.
146
i.
Seu Ivo pediu uma pnga. Enchi um clice para
ele, outro para mim
- A sua sade, seu Luisinho.
Foi acocorar-se e cochilar encostado  parede,
junto ao cano de gua. Sentei-me outra vez  mesa,
o brao sobre a toalha, a mo perto da corda. Estava
meio entorpecido, as plpebras pesadas. Os armadores
na casa vizinha rangiam. Seu Ivo tinha dito: - "Giuar-
de, seu Luisinho. D para armar rede." Avancei os de-
dos em direo aos anis, mas quando ia toc-los, um
se desfez e bateu-me na mo como coisa viva.
Marina, enjoada e abatida, embalava-se para es-
quecer a desgraa. O barulho dos armadores lembrou-
me o tempo em que ela me endoidecfa com risadas e
cantigas. A compaixo que eu havia sentido alguns
dias antes esmoreceu. Encolerizei-me e disse-lhe men-
talmente toda a sorte de nomes feios. Levantei-me,
bati na mesa, e as voltas da corda tremeram. Olhei
com desgosto os olhos sem brilho de seu Ivo.
Defuntos no me comovem. Na vila apareciam
muitas pessoas acabadas a tiro e a faca. Habituei-me
a v-las de perto. Por fim no me produziam nenhum
abalo. Quando a rede apontava na extremidade da rua,
os punhos amarrados num pau que dois caboclos
agentavam nos ombros, eu saltava para a calada,
curioso de ver a cor do pano que vinha em cima. Se
era branco, o cortejo passava perto de mim, entrava
no beco, dobrava o Cavalo-Morto e seguia para o cemi-
trio. Isto no me despertava interesse. As redes que
transportavam individuos mortos em desgraa eram
cobertas de vermelho e iam pelo outro lado da praa,
dirigiam-se  cadeia. Escapulia-me. Nenhum constran-
gimento. Tornei-me insensfvel. Cinqenta estocadas
no peito e na barriga! Muito bem.
Agora estava ali com medo de pegar numa corda.
- Voc j matou gente, seu Ivo?
O caboclo abriu os olhos, espantado:
- Eu? Deus me livre. Dou pra isso no, seu Lui-
s;nho. Nunca matei um pinto.
- Mas tem tido vontade, n,o?
- Deixe de histrias, seu Luisinho. Isso  con-
versa?
14?
Pus-me a rir de novo, esfregando as mos. De re-
pente o riso se imobilizou, e fiquei em p diante de
seu Ivo, com as mos postas, engasgado.
As vezes, horas depois de entrar na vila a rede co-
berta de vermelho, uma tropa de cachimbos invadia a
praa, conduzindo o criminoso amarrado. Os cachim-
bos falavam alto e mostravam, cheios de suficincia,
faces e lazarinas; o matador tinha os braos presos,
da barriga para cima estava todo embirado de cordas
A gente se alvoroava. Os tabuleiros de gamo ficavam
abandonados nos tamboretes. Seu Acrisio, quase cego
batia com o cajado no cho e pedia explicaes .
paredes. O doutor juiz de direito, que mentia demais
contava casos do Amazonas. Como o Amazonas ers
longe e ningum ia apurar a veracidade das narraes
o doutor juiz de direito mentia  vontade. Seu Batista
safa de casa vestido em robde-chambre, Andr Laerte
#
com os bigodes tesos como um gato, andava  pressa
sem rumor, como um gato. Padre Incio sacudia c
guarda-chuva e gritava: - "Canalhat Raa de cachor
ro com porco!" Cabo Jos da Luz, banzeiro, arrastavf
a importncia, marchava para a cadeia, bambo, os pas
sos lerdos, o cinturo frouxo, cantando baixinho: -
"Assentei praa. Na policia eu vivo . . . " E o criminoso
pisando com fora, atravessava o quadro, a cabea er
guida, a testa cortada de rugas, o olhar feroz, trom
budo, impando de orgulho. Algumas horas depois esta
ria acocorado a um canto da priso, sem vontade
como seu Ivo. Mas ali, diante dos curiosos que se em
purravam, representava o papel de bicho: franzia a
ventas, mordia os beios, dava puxes na corda e gru
nhia. Olhavam para ele com admirao, e os cachim
bos se envaideciam por hav-lo pegado vivo. Rosenda
pasmava.
- Estamos costumados a amansar brabo, minh
negra.
O carcereiro balanava as chaves, e o delegad
dava encontres no povo, carrancudo, quase to impor
tante como o preso. As trs mulheres velhas que pa
reciam formigas chegavam  janela, em seguida e:
condiam-se precipitadamente. Seu Filipe Benigno al;
sava a barba e gastava palavras diffceis e comprida:
148
O povaru se apertava na calada da cadeia. Os ca-
chimbos iam matar o bicho no balco de Teotoninho
Sabi. E o criminoso, entregue  polfcfa, furava a mul-
tido, entrava no corpo da guarda, preto de poeira e
azeitado de suor. Na escur:do do crcere, depois que
a chave tilintava na fechadura da grade, o juiz da ca-
deia recebia os duzentos ris do torno e desfazia os
laos que deslocavam os ossos, entravam na carne do
homem. Um ladro de cavalos seria maltratado, agen-
taria faco, de joelhos, nu da barriga para cima, um
soldado segurando-lhe o brao direito e batendo-lhe no
peito, outro segurando o brao esquerdo e batendo nas
costas. Depois os presos se aproximariam, camaradas,
de repente lhe afastariam as pernas. O corpo cairia na
pedra negra, suja de escarros, sangue, pus e lama. O
cip de boi chiaria no ar, cortaria o lombo descoberto.
Mas isto era com os ladres, os vagabundos, os auto-
res de delitos midos. Um criminoso de morte era dife-
rente, merecia considerao. Quando ele chegava  cal-
ada, toda a gente se espremia, abrindo caminho, e os
olhos se arregalavam num pasmo quase religioso, mis-
tura de aprovao e medo. Na presena da personagem
havia silncio. Depois vinham as conversas cochicha-
das em que se exagerava o feito. As aes de outros
criminosos empalideciam. Aquele, sixn, era turuna. Con-
tavam-se as facadas ou os tiros. Nas tarimbas sujas os
soldados bocejavam, fartos de sangue. O sujeito repre-
sentava o seu papel de brabo, a cara enferrujada, es-
curo de poeira e molhado de suor. Eu procurava des-
cobrir nele semelhana com meu amigo Jos Bafa.
Vitria retirou o prato e limpou a toalha. Com
uma sacudidela que deu, a corda se espalhou e ficou
ocupando quase metade da mesa. Vitria foi sentar-se
 porta da cozinha, desdobrou o jornal. Uma das vol-
tas da corda parecia um desses laos que as crianas
fazem com um cordo nas caladas. A gente pe o
dedo no meio e aposta, o parceiro puxa as extremida-
des do cordo. Quando o dedo fica preso, a gente ga-
nha. Se eu pusesse o dedo naquele cfrculo que ali esta-
va junto a uma ndoa de caf, o dedo ficaria preso?
Caso ficasse, que iria acontecer?
149
Pensei em Amaro vaqueiro e em seu Evaristc
Trepado no mouro do curral, Amaro passava um
#
hora abolando.
- Vou laar a novilha careta.
E a corda de couro girava. Na extremidade o la
ia acima e vinha abaixo. Na escola de seu Antni
Justino, decorando a geografia, eu comparava Amar
vaqueiro ao sol. Amaro vaqueiro era uma espcie d
sol trepado num mouro. O lao que girava em redo
dele era a terra. De repente essa terra esquisita ca
sobre a novilha careta e prendia-lhe os chifres. Quan
do havia poucas reses, o exerccio era brincadeira. Ma
em tempo de pega o curral se enchia, os cornos s
chocavam, e mal se distinguia a cabea do animal vi
sado. O lao rodava no ar uma eternidade, descia, pas
sava perto do alvo, tornava a subir. Amaro aboiava, 
os animais agitavam-se, batendo as pontas. Sentad
no ltimo pau da porteira, eu tinha o corao ao
baques e torcia desesperadamente. As minhas mo
umedeciam-se de suor. Porque era que Amaro no aca
bava logo aquilo? Subitamente o aboio estacava, o la
caa, o zunido da corda continuava um instante m
ouvido da gente. O animal estava preso.
Seu Evaristo sofria necessidades. Tinha vivido en
boas condies, fora eleitor, jurado, dera dinheiro par,
festas de igreja. E as pessoas que o encontravam na
ruas da vila tocavam no chapu.
Homem de poucas palavras, trabalhador, o sujeit
mais srio do mundo. Dedicava-se a vrios ofcios, en
agricultor, redigia procuraes e peties. Beirando 0
setenta, comeou a vender macacos. Os olhos cansa
ram, a memria emperrou, os braos descarnados n
tiveram fora para ma.nejar a enxada, a garlopa, i
martelo de ferreiro e a tesoura de cortar metais. Sei
Evaristo fabricava muitas coisas, mas no se ajeitav
em nenhuma profisso. E quando a velhice chegou
sentiu-se fraco, uma tremura nos dedos, que segura
vam mal o cajado. Andando, formava dois arcos: un
por detrs, nas pernas, outro adiante, no peito; sen
tado, firmava as mos na extremidade do cacete,
sobre as mos, duras e peludas, de veias enormes, as
sentava o queixo, donde pendiam pelancas escuras qm
150
 balanavam como teias de pucum. Foi baixando, bai-
xando, e na casinha que se escondia no m da Rua
C da Cruz o fogo se apagou. Nos meses compridos daque-
les invernos de serra seu Evaristo e a mulher tremiam
e comeavam a tresvariar, porque a fome era grande.
A noite andavam tropeando nos cacarecos, pois na
casa no havia candeia, olhavam a rua triste sob a
F
: chuvinha impertinente que embaava os vidros dos
` lampies esmorecidos. Apertavam-se para enganar o
 frio, e os moleques que passavam na calada metiam
 os olhos pelos buracos das janelas e gritavam:
- Velhos imoraisl Abraados, fazendo safadeza.
A caridade chegou: seu Filipe Benigno, Andr
Laerte, o velho Acrfsio, as trs mulheres que pareciam
formigas, fizeram uma subscrio - e seu Evaristo co-
meou a receber dez mil-ris por semana. Passou-se o
inverno. Plantou uma roa no quintal. E quando
o feijo verde apareceu e o milho deu bonecas, masti-
gou uns agradecimentos e dispensou a caridade.
- Pobre orgulhoso, disse uma das mulheres que
pareciam formigas.
Rosenda e cabo Jos da Luz concordaram.
A safra cabou, o velho sentiu fome, olhou os qua-
tro cantos e no encontrou amparo. Procurou traba-
lho, mas tinha setenta anos, e ningum confiava nele.
Um dia, com a mo na barriga, entrou na padaria de
seu Jos Incio.
- Uma esmola pelo amor de Deus, cochichou.
#
8eu Jos Incio estava aporrinhado.
- Uma esmola pelo amor de D2us, gemeu seu
Evaristo quase sem voz.
- Ora...
Seu Jos Incio gritou uma praga que ofendeu os
ouvidos de seu Evaristo.
- Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus,
rosnou o velho espantado, sem sa.ber que aquele des-
propsito era com el.e.
Tlnha auxiliado muito mendigo, nunca fora gros-
reiro. Chegava num momento em que o dono da pada-
ria estava zangado.
151
- Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus,
repetiu baixinho.
Seu Jos Incio apontou um cesto de pes dormi-
dos e gritou brutalmente:
- Tira ali.
Mais tarde arrependeu-se, como disse a Teotoni-
nho Sabi, lembrou-se de que o velho nunca havia im-
portunado ningum. Ainda chegou  porta para cha-
m-lo e pedir desculpa, mas a rua estava deserta.
Nesse dia seu Evaristo entrou em casa arrastan-
do-se como um aleijado e deu um po seco , compa-
nheira. Ficou uns minutos vendo-a meter as gengivas
na crosta dura, em seguida avizinhou-se da parede,
onde havia uma corda pendurada a um torno.
- Hum! hum! exclamou a mulher. Pior que mas-
tigar chifre.
- Com certeza, murmurou seu Evaristo.
A mulher comeu o po e foi deitar-se na esteira.
Viu o marido passar a mo pela parede, mas como
estava com a vista curta, no percebeu o que ele fazia.
- S vi que passava a mo pela parede, confessou
no dia seguinte a Andr Laerte. Virei-me na esteira
e peguei no sono.
Horas depois encontraram seu Evaristo enforcado
num galho de carrapateira. Fui v-lo, mas no tive cora-
gem de me aproximar: fiquei de longe, olhando o corpo
que balanava, os ps tocando o cho, como se estives-
sem preparando um salto. Eu estranhava que uma pes-
soa pudesse agentar-se numa coisa to frgil como
um galho de carrapateira. Rosenda me diss que no
momento em que um cristo bota o lao no pescoo
o diabo monta nos ombros dele. Seu Evaristo balanava.
As vezes apareciam as costas curvadas. Outras vezes
surgiam a barba branca, a lngua fora da boca, os
olhos abotoados, a careca, e era como se ele fosse dar
um salto. Esta idia absurda de um homem saltar de-
pois de morto bulia comigo. Aquele defunto levantado,
com os ps no cho, ameaando-me com um salto que
poderia traz-lo para junto de mim, apavorava-me.
A corda que o sustinha, apenas visivel de lvnge, fininha
como aquela que ali estava em cima da mesa, torcia-se
152
e destorcia-se. A mulher de seu Evaristo, caduca, olha-
va-o. sem lgrimas.
Vitria, na cozinha, lia o jornal. Os armadores se
tinham calado. Seu Ivo dormia encostado  parede, com
a boca aberta. Agarrei a corda, fiz dela um bolo, meti-a
no bolso. O coraa'.o batia-me desesperadamente.
- V para o diabo, seu Ivo, berrei.
Seu Ivo roncava. Sacudi-o. Levantou-se e ficou in-
clinado, como se estivesse armando um salto.
- V para o diabo. Aqui amolando! Eu tenho nada
com voc? Suma-se.
Seu Ivo baixou a cabea:
- Est direito. At logo, seu Luisinho. Deus lhe
acrescente.
* * *
#
Julio Tavares entrava no caf. Ia sentar-me longe
dele, voltava-lhe as costas, mas examinava o espelho
coberto de letras brancas. Afetava desprezo, aparente-
mente ignorava a existncia do homem. Via, porm,
a roupa molhada nos sovacos, os olhos que saltavam
das rbitas, o cabelo escorrido, a papada balofa, as
bochechas enormes, tudo riscado de traos brancos que
anunciavam bebidas. Se me falavam, eu respondia com
uma interjeio qualquer, voz selvagem, gutural, ouvida
antigamente aos almocreves e aos tangerinos e que no
perdi, apesar dos anos de cidade. Enquanto lanava dis-
traido esses gritos estranhos e speros, lia os anncios
que havia no espelho. Juntava letras das palavras mais
compridas e formava nomes novos.
Esse exercicio tornou-se em mim um hbito de que
no me posso libertar. Conto pelos dedos as combina-
es que vo surgindo, em sries de vinte, correspon-
dentes s duas mos fechadas e abertas. Quando h
muitas vogais, consigo arranjar sessenta, oitenta, s
vezes cem palavras ou mais. Fao assim com os letrei-
ros das casas de comrcio, com os cartazes de cinema,
com os ttulos dos jornais e dos livros. Esse passatempo
idiota d-me uma espcie de anestesia: esqueo as hu-
milhaes e as dvidas, deixo de pensar. Pelo menos no
penso numa coisa s. Mas vejo perfeitamente o que se
153
passa em roda. Pouco a pouco chegam sinais de impa
cincia: os dedos apertam-se, as unhas ferem a palma
e zango-me por estar perdendo tempo com semelhant
estupidez, mas ordinariamente no interrompo a con
tagem.
Ali sentado a um canto, voltado para a parede, sen
tia-me distante do mundo. S via as letras brancas qm
se estampavam na cara vermelha de Julio Tavares
Lembrava-me dos desenhos medonhos que os selvagen,
fazem no rosto e do costume que os cangaceiros tn
de marcar os inimigos com ferro quente. Dos letreiro;
brancos safam s vezes nomes que se aplicavam ben
a Julio Tavares. Se eu fosse um cangaceiro sertanejo i
encontrasse Julio Tavares numa estrada, meter-me-u
com ele na capueira e imprimir-lhe-ia no focinho, con
ferro, algumas das letras brancas que lhe apareciam n:
pele e na roupa. Segurava a xcara desatento, derrama
va acar no pires e no mrmore, bebia o caf maqui
nalmente. Os traos de alvaiade zebravam as pessoa
que transitavam na rua. Certamente Marina ia surgi;
entre elas.
Depois que Julio Tavares tinha deixado de freqn
tar a casa vizinha, qualquer ausncia de Marina me tra
zia a suspeita de que os dois iam encontrar-se. Tomav
o chapu e acompanhava-a, escondendo-me, encostan
do-me s paredes, receando que a espionagem fosse des
coberta. Evidentemente as relaes dos dois estavan
reatadas. O homem gordo ia virar uma esquina e da
o brao  amante, lev-la a uma ca,sa de recurso. A evi
dncia esmorecia. Marina andava como as outras mu
lheres, olhava as vitrinas, entrava nas lojas. Ia esper-l;
no primeiro poste cintado de branco. Minutos depoi;
a perseguio recorpeava, at que ela se recolhia. Sen
tia-me a um tempo aliviado e logrado. Era claro qm
eles iam juntar-se em qualquer parte. Acusava-me d
no ter prestado bastante ateno  rua. Com certeza
tinha-me escapado uma porta meio aberta, uma escada
sombria onde aquele sem-vergonha atocaiava. O mei
desejo era voltar, examinar os arredores, as esquinas
as rvores da Rua Augusta. Estava certo de que, en
quanto eu vigiava Marina, Julio Tavares me vigiav
de longe, parando, escondendo-se.
154
Ali no caf, com o jornal enrolado sobre o mr
#
more, a mo gorda e curta distribuindo acenos, o sor
riso nos beios grossos, derretia-se para as moas que
passavam na calada. Por detrs das linhas brancas do
espelho, a cara redonda se afogueava, as bochechas
moles inchavam, o olho azulado queria escapulir-se da
rbita. e meter-se no seio das mulheres.
Eu procurava um cigarro, sentia a aspereza da
corda. Ficara no bolso desde aquela tarde, misturan-
do-se aos cigarros soltos e machucados.
As letras dos anncios desapareciam, e toda a mf-
nha ateno se concentrava em Julio Tavares. Lem-
brava-me do primeiro encontro que tivemos, no Insti-
tuto. Ele catalogava frases monstruosas a respeito da
bandeira nacional. A safda dava-me um empurro, segu-
rava-me um brao e escorregava na intimidade. Meia
hora depois expunha-me projetos de reforma.
- O pafs precisa isto, precisa aquilo.
- Ah! Eu conheci logo que o senhor era patriota.
L estava amolando outro, com o cotovelo no mr-
more, a voz oleosa, o olho derramado sobre as mulheres.
Agitava-me, rangia os dentes, grunhia uma obscenidade.
No ligava importncia quelas bestas, fossem para a
casa do diabo. Tinha dormido juntos, ela estava pejada.
Muito bem. Era encher-se, parir, enjeitar o filho, mar-
char para a Rua da Lama, acabar-se no esquentamento.
Um filho na barriga, um filho daquele sem-vergonha.
To bom era um como 0 outro.
E apertava a corda com fora. Quando retirava
a mo do bolso, via nos dedos os sinais que ela dei-
xava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era
dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoo
do homem.
O doutor chefe de policia estava ali tomando caf,
de cabea baixa, preocupado com alguma encrenca.
Que  que me podia acontecer? Ir para a cadeia,
ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir
sentena. A vida na priso no seria pior que a que
eu tinha. Realmente as portas ali so pretas e sujas, as
grades de ferro so pretas e sujas, os mveis so pretos
e sujos.  o que me amedronta. Aquele bolor, aquele
cheiro e aquela cor horrfveis, aquela sombra que trans-
155
forma as pessoas em sombras, os movimentos vagaro-
sos de almas do outro mundo, apavoravam-me. No
posso encostar-me s grades pretas e nojentas. Lavo
as mos uma infinidade de vezes por dia, lavo as cane-
tas antes de escrever, tenho horror s apresentaes,
aos cumprimentos, em que  necessrio apertar a mo
que no sei por onde andou, a mo que meteu os dedos
no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Pre-
ciso muita gua e muito sabo. Viver por detrs da-
quelas grades, pisar no cho mido, coberto de escarros,
sangue, pus e lama,  terrvel. Mas a vida que levo
talvez seja pior. No tinha medo da cadeia. Se me
dessem gua para lavar as mos, acomodar-me-ia l.
Podia o resto do corpo ficar sujo, podiam os piolhos
tomar conta da cabea e as roupas esfrangalhadas
cobrir mal a carne friorenta. Se me dessem gua para
lavar as mos, estaria tudo muito bem. Dar-me-iam
gua para lavar as mos? A cara do doutor chefe de
polcia era triste. Provavelmente ele vivia cheio de abor-
recimentos, tinha uma necessidade qualquer e compreen-
deria a minha necessidade de lavar as mos. Decidida-
mente a polcia no me inspirava receio.
Medo de Julio Tavares? No havia motivo. Julio
Tavares procuraria levantar-se do tamborete, faria um
barulho intil, bateria com os braos na mesa e que-
braria a xfcara. As bochechas vermelhas se tornariam
roxas, os olhos se rodeariam de olheiras roxas, os bel-
os roxos e intumescidos se descerrariam mostrando os
#
dentes de rato e a lingua escura e grossa, os movimen-
tos das mos se espaariam, afinal seriam apenas
sacudidelas, contraes. A imobilidade dos dedos sobre
o mrmore, os ps das unhas roxos. Um rebulio, me-
sas cafdas, o guarda-civil do relgio oficial apitar.do,
gente correndo, aos gritos.
Medo da opinio pblica? No existe opinio p-
blica. O leitor de jornais admite uma chusma de opi-
nes desencontradas, assevera isto, assevera aquilo
atrapalha-se e no sabe para que banda vai. Ouvindo-o,
penso no tempo em que os homens no liam jornais.
Penso em Filipe Benigno, que tinha um certo nmero
de idias bastante seguras, no velho Trajano, que tinha
idias muito reduzidas, em mestre Domingos, que era
156
privado de idias e vivia feliz. E lamento esta balbr-
dia, esta torre de Babel em que se atarantam os freqen-
tadores do caf. Quero bradar:
- Eles escrevem assim porque receberam ordem
para escrever assim. Depois escrevero de outra forma.
 tapeao,  5afadeza.
Aborreo a lida enfadonha, que sd serve para gerar
confuso no espfrito de seu Ramalho. Pimentel  um
malandro. Porque ser que Pimentel no escreve sem-
pre as mesmas coisas? Repetindo-as, ele prprio, que
no acredita em nada, acabaria acreditando nos seus
artigos.
No h opinio pblica: h pedaos de opinio,
contraditrios. Uns deles estariam do meu lado se eu
matasse Julio Tavares, outros estariam contra mim.
No jri metade dos juzes de fato lanaria na urna
a bola branca, metade lanaria a bola preta. Qualquer
ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opi-
nio. Intil esperar unanimidade. Um crime, uma ao
boa, d tudo no mesmo. Afinal j nem sabemos o que
 bom e o que  ruim, to embotados vivemos.
Eu no podia temer a opinio pblica. E talvez
temesse. Com certeza temia tudo isso. Era um medo
antigo, medo que estava no sangue e me esfriava os
dedos trmulos e suados. A corda spera ia-se amacian-
do por causa do suor das minhas mos. E as mos
tremiam. O chicote do feitor num av negro, h du-
zentos anos, a emboscada dos brancos a outro av8,
caboclo, em tempo mais remoto . . . Estudava-me ao es-
pelho, via, por entre as linhas dos anncios, os beios
franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho,
a testa enrugada. Procurava os vestgios das duas raas
infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga
e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolam-
bado e cheio de sonhos. N,o preciso de automveis nem
de rdios, viveria bem numa casa de palha, dormiria
bem numa cama de varas, num couro de boi ou numa
rede de cordas, como Quitria, como o velho Trajano
e Camilo Pereira da Silva. Para que me habituei a ler
papel impresso, a ouvir o rumor de linotipos? Deseja-
ria calar alpercatas, descansar numa rede armada no
157
copiar, no ler nada ou ler inocentemente a histria
dos doze pares de Frana.
Onde estariam os descendentes de Amaro vatlueiro?
Talvez o guarda-civil do relgio oficial fosse um deles.
Se eu mata-sse Julio Tavares, o guarda-civil no levan-
taria o cassetete: apitaria. Chegariam outros, que me
ameaariam de longe. O guarda-civil no tem coragem.
Se tivesse, no olharia os automveis horas e horas,
junto ao relgio oficial: ocupar-se-ia devastando fazen-
das, incendiando casas, deflorando moas brancas, en-
torcando proprietrios nos galhos dos juazeiros. Os ser
tanejos fortes revoltaram-se e andam matando, rouban-
do, violando, quase selvagens, sujos, os cabelos compri-
#
dos, enfeitados de penduricalhos, os chapus de couro
cobertos de medalhas, as cartucheiras pesadas, enormes.
Nenhum respeito  autoridade. Se um oficial de polcia
viajar pela estrada, morre na tocaia. E se no morrer
logo,  pior: levam-no para a capueira e torturam-no.
Os campos esto desertos, o gado enegreceu com o
carrapato, os homens valentes pegaram o rifle, amar-
raram a cartucheira na cintura. O guarda-civil do re-
lgio oficial veio para a cidade e arranjou emprego.
E um sujeito magro como eu, civilizado como eu. Se
houver barulho na rua, ele apita. Se houver greve nas
fbricas e lhe mandarem atirar contra os grevistas,
atira tremendo. As greves acabam. E ele voltar para
a chateao do ponto, magro, triste. E pouco mais ou
menos como eu.
- Escreva um artigo a respeito de salrios, seu
Lus.
Bocejo e sapeco uma literatura ordinria, cons-
trangido. Sei que estou praticando safadeza. Penso no
que acontecer depois. Quando houver uma reviravol-
ta, utilizaro as minhas habilidades de escrevedor?
E o guarda-civil? Continuar junto ao relgio, olhando
os automveis, apitando em caso de necessidade? E Ju-
lio Tavares, patriota e versejador? Para que serviria
Julio Tavares? Agora era uma figura importante de-
mais. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados
na Rua do Comrcio, eram uns ratos. A personagem
oficial que visitava d. Mercedes, alta noite, devia muito
158
a Tavares & Cia. E Julio Tavares era importante. Fazfa
receio matar um sujeito importante como Julio Ta-
vares.
* * *
Nas horas de servio conseguia distrair-me. Os
livros enormes de lombos de couro e folhas rotas, os
offcios, a ca,mpainha do telefone e o tique-taque das
mquinas de escrever me arrastam para longe da terra.
O que l fora  bom, til, verdadeiro ou belo no tem
aqui nenhuma significao Tudo  diferente. Respira-
mos um ar onde voam particulas de papel e de tinta
e trabalhamos quase s escuras. A voz do diretor 
doce, ranzinza e regulamentar. Se um funcionrio co-
mete falta, o diretor mostra o pargrafo e o artigo ade-
quados ao caso. Sucede que o funcionrfo se defendE
apontando outro artigo. A o diretor perturba-se e des-
contenta-se: compreende que o servio no vai bem,
mas encolhe-se diante do regulamento e admira e re-
ceia o empregado que soube encapar-se nele. Move
mo-nos como peas de um relgio cansa,do. As nossas
rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras
rodas velhas, de dentes gastos. O que tem valor c den-
tro so as coisas vagarosas, sonolentas. Se o maqui-
nismo parasse, no darfamos por isto: continuarfmos
com o bico da pena sobre a folha machucada e rota,
o cigarro apagado entre os dedos amarelos. Deixarfa-
mos de pestanejar, mas ignorarfamos a extino dos
movimentos escassos. Os rumores externos chegam-nos
amortecidos. Que barulho, que revoluo ser capaz de
perturbar esta serenidade?
Era, pois, na repartio que eu obtinha algum sos-
sego. As imagens que me atormentavam na rua sur-
giam desbotadas, espaadas e incompletas. O ambiente
era imprprio  vida intensa que elas tinham l fora.
Quando se iam fixando, um tique-taque de mquina de
escrever, o chiar de uma folha que roava sobre outra
como lixa, um toque distante de campainha, uma voz
descontente e adocicada, todas as complicaes midas
que me sustentam, cortavam as figuras esboadas. Ju-
lio Tavares era uma sombra que se arredondava, toma-
va a forma de um balozinho de borracha. Este objeto
#
159
colorido flutuava, seguro por um cordel. O vento arras-
tava-o para um lado e para outro, mas o cordo curto
no o deixava arredar-se muito do caf. Marina era
outra sombra que se balanava devagar na rede. O ru-
mor dos armadores era interrompido pelo tilintar do
telefone. A rede ia e vinha, Marina se deslocava um
metro para a direita, um metro para a esquerda, e no
podia ir mais longe. Desaparecia o risco de se aproxi-
marem os dois, era como se estivessem amarrados.
Logo que me afastava da repartio, tudo mudava.
Tropeando no paraleleppedo, via, meio sncandeado
pelo sol, os transeuntes juntarem-se e apartarem-se, e
isto me parecia cheio de malcia. Havia intenes reser-
vadas nos homens que se acercavam das mulheres, havia
promessas nos olhos das mulheres que se desviavam doa
homens. Automveis abertos exibiam casais, automveis
fechados passavam rpidos, e eu adivinhava neles saias
machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os vef-
culos transportavam pecados. A cidade estava em cio,
era como o chiqueiro do velho Trajano. Que perigo!
Trs horas escondido - e c fora esta gente desen-
freada, bodejando, com estilo, com demoras e requintes,
mas bodejando como os bodes do velho Trajano.
Os relgios batiam. Com certeza os machos olhavam
os mostradores, pensando em entrevistas. Apressava-me.
Trs horas metido entre as paredes de uma catacumba
oficial. Imaginava o que teria podido acontecer nessas
trs horas e aterrorizava-me. Corria para casa desem-
bestado A sala de jantar, a barra vermelha com man-
chas de umidade, o cano de ferro. Vitria punha os
pratos na mesa. Esforava-me por conversar, lembra-
va-me das moedas e sentia remorso, falava nos vapores.
Vitria dizia a lista dos passageiros. Tentara fazer
Currupaco decorar uma das listas, mas Currupaco no
dera conta do recado e ficara nos versos da mulher do
macaco, que fia e cose e toma tabaco h muitos anos.
- O senhor est magro como um cassaco. N,o
come!
Arreliava-se e dava-me conselhos. Como eu no lhe
prestava ateno, afastava-se e ia explicar-se junto 
gaiola do Currupaco:
- Papagaio no comeu, morreu.
160
Eu mastigava uns bocados, enganava o est8mago,
olhava o quintal, enfadado com a tagarelice da velha.
Zangava-me e tinha vontade de lhe pedir silncio. Con-
tinuando a falar to alto, no me deixaria ouvir mais
nada.
- V comprar um mao de cigarros, Vitria.
Quando ela voltava, dava-lhe outra incumbncia e
conseguia ficar s algum tempo. Aproximava-me da pa.
rede manchada, aumentava a orelha com a mo e espe-
rava, esperava, at que percebia aquela voz sacudida
que ia ficando quebrada. Afastava-me, atravessava o
corredor, chegava  porta da rua.
Dez minutos depois entrava no caf. L estava
Julio Tavares na prosa. Ia sentar-me no meu lugar.
Se Moiss e Pimentel apareciam, conversvamos, dis-
cutamos os fuxicos do jornal, metamos o pau nos
literatos da terra. Sentia-me em segurana. Na anima-
o da palestra procurava cigarros, mas retirava a mo
do bolso como se tivesse sido mordido. Aquela coisa
punha termo aos momentos de tranqilidade.
- Um mao de cigarros.
Abria o mao de cigarros e deixava-o sobre a mesa.
No dia seguinte jogaria a corda por cima do muro de
d. Roslia.
- Fume um cigarro, Pimentel.
No. As crianas pegariam aquilo, brincariam com
#
aquilo, e aquilo era sujo e perigoso. Atiraria a corda
por cima do muro do fundo, no monte de lixo e cacos
de vidro, onde lanavam ratos mortos. Seu Ivo, aquele
cachorro, achava poucas as minhas aporrinhaes e
ainda me trazia encrencas. Seu Ivo que fosse para
o diabo.
- A arte deve ser assim e assado, explicava Moiss.
A tecla de sempre, arte como instrumento de pro-
paganda poltica. Eu queria contrariar o judeu, mas
esmorecia, sem coragem para a discusso.
- Estou em segurana, em perfeita segurana.
Cada vez mais me convencia, porm, de que no
estava numa segurana assim to perfeita. Parecia-me
que na calada inimigos embiocados me espiavam.
isi
- Um homem de reparti,o habitua-se a no ver
nada fora dos processos. Vive lesando, como um cego,
no  verdade, Pimentel?
- Sem dvida.
Pimentel concordava distrafdo. No desgosta nin-
gam. Escrevendo, agarra uma opinio e, sinta quem
sentir, sapeca tudo no papel. Saem artigos furiosos,
agressivos como uma peste. Mas em conversa aprova
o que a gente diz.
- Continue, Moiss. Como  l isso?
Tranqilo, perfeitamente tranqilo. Seu Ivo era um
grande patife. Onde andaria seu Ivo? Vagabundeando
pelos municfpios. Uma tristeza pensar em seu Ivo, que
s servia para incomodar os outros.
- Vai tudo muito mal, minha gente. Vai tudo
escangalhado. No h segurana nenhuma.
No havia. A tranqilidade era pouco a pouco
substitufda por uma inquietao que me tornava bru-
tal com os companheiros. Instabilidade, ruina, o mun-
do perdido. No argumentava, no me explicava: que-
ria descontentar Moiss.
- No h remdio n,o. 8istria. Tudo perdido.
Repisava no mesmo terreno, desajeitado. Uma tei-
mosia estpida. Procurava andar para diante, sentia-
me burro, e isto me irritava mais. Ridiculo, absoluta-
mente ridfculo. E zangava-me com Moiss, que falava
sem se alterar. De quando em quando tudo escurecla
- ficavam-me diante dos olhos listras coloridas.
Receava-me de ofender gravemente Moiss. As minhas
mos dirigiam-se para ele, apertavam-se, como se o
fossem estrangular. Eu procurava qualquer coisa, apal
pava o bolso que tinha a corda e fazia um chumao
no palet velho. Baixava a cabea, prendia as mos
entre as pernas, envergonhado, perguntava a mim
mesmo se Moiss teria percebido a tentao e os movi-
mentos. Parecia-me ter cometido uma falta. Selvagem.
- Ora, sim senhor. Em conversinhas como esta
 que se armam fuzus medonhos.
Dizia isto em voz baixa, mas os dois amigo,
ouviam algumas palavras e espantavam-se. Fuzu.
medonhos, brigas, sopapos, tiros L vinha o titulc
enorme da notfcia, em quatro colunas: "Comunists
162



I
assassinado num caf." Ruim tftulo. Pimentel arran-
jaria outro melhor. E escreveria durante uma semana
coisas interessantes. Enquanto matutava nestes absur
dos, olhava-me ao espelho: uma cara besta. Evidente
mente o pessoal mangava de mim; Julio Tavares, no
outro lado da sala, m,angava de mim, via-se muito bem
entre as linhas brancas do espelho. Esforava-me por
endireitar o rosto descomposto, procurava entender o
#
discurso de Moiss. Com os olhos arregalados e os
queixos contrafdos, o que me dava  boca uma apa-
rncia de focinho, era como um rato, um rato bem-
educado, as patas remexendo o mao de cigarros.
- Perfeitamente, perfeitamente.
Agora concordava com tudo. Eu tinha l convic-
o! Baixava a mo lentamente, tocava no bolso volu
moso. Pensava em Chico Cobra e no cabao cheio de
jararacas. Faltava-me qualquer coisa.
- Perfeitamente.
Levantava-me:
- Est bem. J volto.
Corria  Rua do Macena, entrava em casa, ia 
sala de jantar, ao quintal, ao banhefro, demorava-me
at perceber sinais da presena de Marina. Ento vol-
tava  conversa interrompida com os amigos.
- Tranqilo, tranqilo.
Quando no encontrava Julio Tavares, detinha-
me um instante  porta, depois safa pelas ruas, a pro-
cur-lo.
i i 
Marina caminhava depressa, virava esquina,s, vol
tava-se, como se tivesse medo de ser perseguida.
Entrou em vrfas lojas, escondeu-se num cinema. Dis
tanciei-me dela e estive quase a perd-la de vista. Apra
ximei-me de novo. Marina andava de um lado para
outro, como formiga desnorteada. Parecia ter o diabo
no couro. Meteu-se por uma rua onde os sapatos mer-
gulhavam na areia. Segufa com dificuldade, curva,
passando o leno na cara. Escondi-me numa esquina,
porque de quando em quando ela se aprumava e exa-
minava " rua. Duas vezes parou, descalou-se e esvar
163
ziou os sapatos cheios de areia. Em seguida comeot
a observar os nxneros das casas. Como se afastassi
muito de mim, sa, atravessei rapidamente um quar
teir.o e fui ocultar-me noutra esquina. Arrisquei-mi
depois a nova escapada e avizinhei-me bastante dela
O bairro era uma desgraa: mato nas caladas, lixo
ces soltos, um ou outro maloqueiro vadiando  port
de quitandas miserveis. As casas suj as, muito risca
das com letras a carvo profundamente revolucion
rias. Pensei em Tavares & Cia. e no dr. Gouveia.
- Com certeza Moiss anda por aqui, distribuin
do boletins a esta gente.
Mas no se via a gente. Apenas maloqueiros cochi
lando, alguns mendigos, crianas barrigudas e amare
las. O resto devia estar no trabalho: os homens na
oficinas, nos estribos dos bondes da Nordeste, nos quai
tis, em todos os infernos que h por a; as mulhere
la,vando roupa, amando por dinheiro, preparando
comida ruim e insuficiente. Os filhos, rodos pelos ver
mes, seriam vagabundos mais tarde, dormiriam a
meio-dia nas portas das bodegas. Dormiriam? Quand
eles crescessem, haveria pessoas dormindo ao meio-di
nas portas das bodegas? Muitos agora tiritavam, baten
do os dentes como porcos caititus, na maleita que
lama da lagoa oferece aos pobres.
"Proletrios, uni-vos." Isto era escrito sem vfrgL
la e sem trao, a piche. Que importavam a vrgula
o trao? O conselho estava dado sem eles, claro, num
letra que aumentava e diminufa. Talvez a datilgraf
dos olhos agateados morasse por ali, num dos beco
que iam ter  rua suja. Escondida num quarto escurc
a datilgrafa dos olhos agateados ocupava-se em bate
na mquina um boletim subversivo. Um irmo decc
raria dele a frase mais incendiria, que seria copiad
a carvo no muro de uma igreja de arrabalde.
Aquela maneira de escrever comendo os sinai
indignou-me. No dispenso as vfrgulas e os traos. Qm
#
reriam fazer uma revoluo sem vfrgulas e sem traos
Numa revoluo de tal ordem no haveria lugar par
mim. Mas ento?
- Um homem sapeca as pestanas, conhece liter
tura, colabora nos jornais, e isto no vale na,da? Po:
164
sim. E s pegar um carvo, sujar a parede. Pois sim.
Moiss que se arranje.
Senti despeito. Afastar-me-iam da repartio e do
jornal, outros me substituiriam. Eu seria um anacro-
nismo, uma inutilidade, e me queixaria dos tempos
novos, bradaria contra os brbaros que escrevem sem
vfrgulas e sem traos.
Marina parou diante de uma casinha baixa, hesf-
tou, bateu  porta. Toda a minha aten.o se concen-
trou num olho, porque na esquina em que me achava
apenas apresentava  rua uma banda da cara. Quan-
do ela entrou, desentoquei-me, aproximei-me da casi-
nha e vi uma placa azul com letras brancas: "Alber-
tina de tal, parteira diplomada." Fui at o fim da rua.
Aparentemente observava os letreiros das bodegas e as
legendas revolucionrias. As bodegas tinham nomes
difceis. Julguei que os vagabundos me achavam dife-
rente dos habitantes do bairro. E isto me fez apressar
o passo e virar o rosto. Desejei retirar-me dali, ingres-
sa.~ de novo na sociedade dos funcionrios e dos lite-
ratos.
Crianas de azul e branco, naturalmente de volta
da escola,. tinham a pele enxofrada, o rosto magro
cheio de fome. Sentia-me intruso. A minha roupa era
velha, a gravata enrolada como uma corda. Com cer-
teza os rapazes do bairro tinham melhor aparncia.
Em dias de descanso usavam roupa nova, leno de
seda, sapatos lustrosos. Mas havia em mim qualquer
coisa que denuncfava um estranho. As crianas olha-
vam-me como olham os homens que aparecem nas
escolas pelos exames. Eu era uma das criaturas que
elas estavam acostumadas a aborrecer, uma das cria-
turas que dizem palavras compridas em discursos. Vol-
tei, parei novamente diante da casa de d. Albertina
de tal, parteira diplomada. Atravessei a rua, entref
numa bodega.
- Faz o obsquio de me dar um pouco de aguar-
dente? ,
O homem da venda trouxe a garrafa, ps-se a des-
pej,-la num copo sujo. Como eu no o interrompes-
se, derramou a bebida com sovinice.
- Quer que encha?
165
- V botando.
- An! bom.  o que se leva deste mundo, opi
nou entregando-me o copo cheio.
Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fron
teira, o pensamento espalhado.
- Seu Ivo deve andar por aqui, no?
O homem no respondeu logo: franziu a testa E
agitou vagamente o brao peludo. No conhecia set;
Ivo. Naturalmente. Mas senti uma espcie de decep
o, as casas em redor pareceram mais fechadas, c
dono da bodega mais cabeludo e mais silencioso.
- D. Albertina estar em casa?
O bodegueiro interrogou-me com a cabea. Apon
tei a casa:
- D. Albertina. ..
- Talvez esteja, respondeu o sujeito depois di
algum tempo. Sua mulher precisa dela?
- No E outra coisa.
- Est bem.
Esta aprovao desgostou-me, tive o desejo de con
trari-lo, mas limitei-me a beber metade da aguarden
#
te e bater com o copo no balco. No havia nada qu
estivesse bem.
Vista dali, a placa azul de d. Albertina era ilegl
vel. Mesmo de perto, dificilmente se decifrava. En
vrios pontos, especialmente nos cantos, o esmaltt
desaparecia e era substitudo por manchas de ferru
gem. Com certeza aquele traste havia sido mudadi
muitas vezes, pregado e despregado, amassado, desa
massado a martelo. De alto a baixo uma linha escur:
indicava que o tinham dobrado e novamente estendi
do. Ali faltavam as letras.
As rtulas verdes de d. Albertina estavam cerra
das, a porta fechada. E Marina l dentro. Lembrei-m
de anncios revistos h muitos anos: "Fulana de tal
parteira diplomada, com longa prtica, etc., faz volta
rem as regras, etc." Trancada num quarto, deitada m
cama, Marina se deixava apalpar demorada,mente. 
gua fervia na caixinha de lata, a chama do lcoo
empalidecia as figuras.
- Quantos meses? perguntava d. Albertina.
166
                Na casa vizinha um dfstico horrvel tomava a
        parede toda. Letras grandes, letras pequenas, mais
        culas no meio das palavras. E linhas verticais, verdes,
        produzidas pela gua da chuva, cortando a ameaa
        aos ricos.
                - Andam muit os agitadores por aqui, no?
                - An?
                - Pessoas descontentes que pretendem arrasar
        isto, construir de novo. Que acha?
                Apontei a inscrio violenta. O sujeito cabeludo
        espiou-me com o rabo do olho e amoitou-se:
                - Aquela sempre esteve ali.
                - Sempre?
                Meninos abandonados batiam nas portas, pediam
        esmolas.
                - Sempre? Como  l isso?
                -  um modo de dizer, respondeu o tipo. Af uns
        trs anos. Quando abri o estabelecimento, ela j esta-
        va acol, assim mesmo, com uns pedaos verdes. A
        gente se acostuma.
                - Acha? perguntei enjoado. Ora essa! Qual  a
        sua opinio?
                Bebi um gole de aguardente, aceni um cigarro,
        pus-me a bater com os dedos na tbua preta e gor-
        durosa.
                - Essa d. Albertina faz negcio? Qual  a sua
        opinio?
                - Sobre qu?
                Abarquei com um gesto as garrafas das pratelei-
        ras, as casas arruinadas, a rua coberta de capim e as
        crianas que pediam esmolas:
                - Tudo. Quando a encrenca vier, o senhor perde
        pouco.
                - Sef l! No leio, no vou aos meetings. S cui-
        do da minh vida.
                Puxei a cadeira, afastei-me daquele homem indi-
        ferente. Estupidez. Imaginar que as letras sempre
        tinham estado na parede. Intil conversar com ele.
        Tenho lido muitos livros em lfnguas estrangeiras.
        Habituei-me a entender algumas. Nunca me serviram
        para falar, mas sei o que h nos livros. Certas perso
        nagens de romances familiarizaram-se comigo. Apesar
                16?
de serem de outras raas, viverem noutros continen-
tes, esto perto de mim, mais perto que aquele homem
da minha raa, talvez meu parente, inquilino de um
dr. Gouveia, policiado pelos mesmos indivduos que
me policiam. Bebi o resto da aguardente, pensando em
coisas sagradas, Deus, ptria, famlia, coisas distantes.
#
Por cima da armao da bodega havia a litografia de
uma santinha bonita. Lembrei-me do Deus antigo que
incendiava cidades :
- A humanidade est ficando pulha.
- Hum?
-  c uma histria. Faz o favor de trazer mais
aguardente?
O homem cabeludo trouxe a garrafa:
-  o que se aproveita neste mundo.
- Mais ou menos.
Uma ptria dominada por dr. Gouveia, Julio
Tavares, o diretor da minha repartio, o amante de
d. Mercedes, outros desta marca, era chinfrim. Tudo
odioso e estpido, mais odioso e estpido que o sujei-
to cabeludo que despejava aguardente no copo sujo.
Que demora de Marina! D. Adlia chegava  jane
a. Seu Ramalho, cansado, um ombro alto e outro bai
xo, entrava sucumbido, assobiando por causa da asma.
ia sentar-se  mesa de toalha rasgada, onde a comida
esfriava. D. Adlia inventava desculpas: Marina tinha
ido ali, tinha ido acol, no tardava. Seu Ramalho fun
gava, enjoado: tudo mentira. Alguns dias depois Mari-
na apareceria com vestidos caros, peles caras que nc
seriam compradas por ele. Abandonava o prato, detes
tava a mulher, detestava a filha, descia ao quintal
passeava entre os montes de lixo. Que famlia! Que
misria! D. Roslia largava os meninos a Antnia, dei
xava a panela esturrar, ia para a janela ganhar calo;
nos cotovelos, esponar os vizinhos. D. Mercdes man
dava dinheiro ao marido e tinha filha no colgio.
Que demora! D. Albertina no acabaria aquela
operao para restabelecer as regras? D. Albertina ers
terrivelmente criminosa. Rumor de tambores, longe
toques de corneta. O filho de Julio Tavares era neces
srio ao patriotismo. A gua fervendo na caixinha df
lata, um frasco cheio de lquido vermelho, a chama dc
168
lcool tremendo, Marina com o rosto escondido entre
as mos, deixando-se apalpar pelos dedos hbeis de d.
Albertina. Se no fosse isso, dentro de vinte anos a
criatura mofina estaria volvendo  direita, volvendo 
esquerda, decorando os nomes das peas de um fuzil
e passagens gloriosas do Paraguai. Filho de casal direi-
to, com pai rico, faria discursos no Instituto e decla-
maria versos; mas assim, coitado, nasceria s escondi-
das e no passaria daquilo - direita, esquerda, ordi-
nrio. D. Albertina era criminosa, mas no senti dio
a ela. Sinha Terta no faria semelhante coisa. Sinha
Terta no tinha diploma, nem placa, nem anncio
nas folhas, acreditava em pecado e vivia num tempo
em que os filhos traziam vantagens aos pais. As mu-
lheres pariam na esteira, e quando surgia dificuldade,
sinha Terta empurrava a reza: - "Minha Santa Mar-
garida, no estou prenha nem parida..." Os filhos de
Quitria e os das outras negras da fazenda pertenciam
 famflia do velho Trajano. Onde andaria essa fam-
lia? Morta, espalhada, esfarelada.
Os toques de corneta e os rufos de tambor cres-
ciam. A minha ptria era a vila perdida no alto da
serra, onde a chuva caa numa neblina que escondia
tudo. Se eu tivesse ficado ali, ignoraria o resto do
mundo. Seu Evaristo, que se enforcou, mestre AntBnio
Justino, padre Incio, cabo Jos da Luz, seriam pessoa.a
notveis. To longe! Pensei no jornal francs lido na
vspera e aqui chegado vinte e quatro horas depois de
publicado. As notfcias dos municpios sertanejos do
meu Estado chegam mais atrasadas que um nmero
de jornal europeu.
Como seria a cara de d. Albertina? Imagfnei-a
magra, plida, sria, correta. No havia otivo para
#
Marina esconder os olhos.
- Faa o favor de descobrir o rosto. No se aca-
nhe. To natural!
Depois voltariam as regras.
- Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora
toma precaues, usa fsto, usa aquilo.
Exatamente como se Marina estfvesse no consul-
trio de um mdico, sarjando um tumor. Nenhum
sinal de crfme ou de ao proibida. A seringa na gu8
169
que borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira
,
quadros de anatomia nas paredes, a chama do lcool
tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever
medidas de segurana. Uma senhora plida e franzi-
na, de rosto sereno e boas intenes.
- No se acanhe. Fique  vontade.
Nenhuma aluso a qualquer espcie de falta. Direi
ta, fria, falando baixinho, empregando termos esco-
lhidos.
Mas porque era que d. Albertina, parteira dipla
mada, com longa prtica, deveria ser assim e no de
outra forma? Talvez fosse diferente. Os anncios no
valem nada, papel agenta tudo, como dizem os ma-
tutos. D. Albertina era uma velha gorda e mole, sem
diploma nem prtica, de culos ordinrios e hlito
desagradvel, mal-educada, resmungona. Marina esta-
va deitada numa cama nojenta; nas paredes nojentas
no havia gravuras de anatomia: hvia quadros de
santos, retratos coloridos, pginas de revistas. Sem la-
var as mos duras, de unhas compridas e negras, d.
Albertina examinava brutalmente o corpo de Marina,
arranhando-a, machucando-a, rosnando:
- Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir
a cara. Quando andam na pndega, no tm esses
luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.
Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria
assim d. Albertina? A cliente mordia as cobertas sujas,
continha a respirao, fechava os olhos, apertava as
coxas e engolia o choro.
- Abra as pernas, criatura. Donde vm esses den-
gues? Assim ningum pode trabalhar.
O dinheiro do trabalho fora recebido adiantada-
mente. Marina dera nome falso e endereo errado,
temendo a explorao de d. Albertina.
- No vale a pena a senhora se incomodar. Eu
apareo, compreende? Se houver necessidade, eu apa-
reo.
- Quanto devo?
O homem cabeludo deu a conta. doguei uns
nqueis no balco, disse frases sem sentido, olhando a
legenda medonha no muro cortado de listras verdes.
Que vida teria d. Albertina? D. Albertina sa.bia umas
I70
coisas, como eu, e como eu usava linguagem dfferente
da linguagem das outras pessoas. Ordinariamente no
 preciso que me digam: - "Faa isto. Escreva
assim:' Basta que me mostrem ser conveniente fazer
isto e escrever assim. Depois os amigos me felicitam,
juram que um artigo que ningum leu foi muito apre-
cia,do. Marina provavelmente no dissera o que dese-
java: falara por meias-palavras, aludira a dificuldades
de ordem econmica, desavenas de famflia, etc. D.
Albertina riscara um fsforo para desinfetar a seringa
na caixinha de lata. A segunda d. Albertina, desleixa-
da, suja, de unhas compridas e pretas que arranha-
vam o corpo das clientes, sumiu-se. Voltou a outra,
delicada e limpa:
- Como no? Perfeitamente. Pode confiar. Sem
dvida.
#
As mos finas de unhas polidas, a voz baixa e
grave.
- Perfeitamente.
O filho de Julio Tavares rebentaria como um
tumor. D. Albertina lavaria as mos, sorrindo:
- A senhora tem uns lindos cabelos.
E ajeitaria os cabelos desconsertados de Marina.
Receberia o envelope indiferente, como se aquilo no
tivesse importncia:
- Ora essa!
A mulher suja e balofa desaparecera, o quarto
sujo desaparecera. Uma senhora decente, parteira
diplomada, com longa prtica, as mos brancas e
macias, linguagem correta, sorrisos:
- Quando quiser. Perfeitamente.
O filho de Julio Tavares no viria ao mundo
penar, cantar na escola o hino do Ipiranga, mover-se
no exercfcio militar, curtir fome nos bancos dos jar-
dins, amolar-se nas reparties, adular nos jornais o
governo. E a famlia de seu Ramalho nada sofreria.
Pensando bem, d. Albertina atentara apenas con-
tra Deus e contra a ptria. Se aquilo fosse julgado pelo
jri, o promotor gritaria um discurso pattico, e os
jurados se arrepiariam com indignao. Se o cura da
s ouvisse um pecado to grande no confessionrio,
daria s duas mulheres penitncia dura. Mas no
171
haveria discurso, no haveria penitncia, que elaa nc
se julgavam culpadas e despediam-se de corao leve
Marina ainda confusa, d. Albertina fingindo acreditai
que ela era casada:
- Para que ter filhos, minha senhora? A gente
sofre, mas se eles vivessem, podia ser pior, no  ver
dade? Criar infelizes.. Uma responsabilidade, minha
senhora, responsabilidade enorme.
A justia e a religio no tomariam conhecimentc
do caso. E a famflia de seu Ramalho continuaria comc
estava, sem um escndalo para alimentar d. Roslia
sem peso novo no oramento, uma criatura que seriF
necessrio vestir, calar, nutrir e mandar  escola. D
Adlia censuraria aquele passo arriscado e teria ux
suspiro de alvfo:
- Que loucura! Pisou na beira da cova.
Seu Ramalho, hostil e distante, perceberia vaga
mente que a maluca estava criando juzo. Tudo certo
Marina de cabea erguida, criticando a vida suspeit
de Lobisomem; d. Roslia e d. Mercedes falando con
ela naturalinente; Julio Tavares, no caf, exigind
um governo forte; d. Adlia apertando as mos, gemen
do conselhos:
- Tenha cuidado, minha filha No se exponh
no sacrifique a sua vida por causa desses safado;
Conserve-se, pode ser que arranje casamento.
Levantei-me:
- Adeus.
DIas no sai: fiquei junto ao balco, atrapalhadc
olhando,  porta da casa fronteira, o rosto de Marinf
Por detrs dela os cabelos brancos de d. Albertina ag
tavam-se. S se percebiam os cabelos. Vistas de long
as duas figuras confundiam-se, e tive a impresso d
que Marina envelhecera e se purificara depois do tra
balho da outra. Inutilizara nas entranhas uma cois
ruim que se atormentaria se vivesse, agentaria co
ces por onde andasse: em casa, no quarto de pens
na rua, no jornal, no quartel, na repartio. Tudo co
tinuaria como anteriormente.
A neta de d. Aurora iria ao cinema com os h
pedes que a convidassem. D. Aurora balanaria c
172
caracis e as banhas excessivas. Dagoberto se agarrer
#
ria ao compndio e ao esqueleto.
Impacientei-me e falei ao bodegueiro, tentando
explicar-lhe as letras pretas manchadas de verde. A
neta de d. Aurora no era Marina e devia estar madu-
ra, talvez senhora honesta, dona de penso, ca,sada,
gorda. E Dagoberto j no era estudante: era mdico
no Par, ou no Amazonas, um destes lugares. Aquela
hora estaria examinando a Marina de uma ruela do
Par.:
- (ual foi a parteira que lhe fez isso? Onde
andava a senhora com a cabea?
Gritos, indignao. E a Marina do Par, compr
endendo que havia feito doidice, temeria as doenas
de nomes complicados. Mas no denunciaria nenhu-
ma d. Albertina. Dagoberto que lhe desse um remdio,
se quisesse. Como estaria Dagoberto, depois de dez
anos de separao? Devia estar gordo, encanecido,
rico, cheio de filhos, com culos.
Marina ia sair. Viu que se abria uma janela na
vizinha e retraiu-se. Os cabelos brancos continuavam
a agitar-se. No pude saber a qual dos dois tipos ima-
ginados d. Albertina se assemelhava. Seria talvez uma
d. Albertina diferente das minhas.
Fazia minutos que me havia despedido do bode-
gueiro, mas prosseguia na conversa, decifrando a
legenda revolucionria.
Subitamente os cabelos brancos desapareceram e
Marina saiu. Findei a exposio capenga:
- At logo.
Atravessei a rua e cheguei-me a Marina, que se
afastava com dificuldade, mergulhando na areia os
sapatos vermelhos. Sentia-me perturbado e intimamen-
te armava dilogos que ela, no entenderia. Os sapa-
tos velhos, rachados e cambados. A roupa desfiando-
se nas costuras. To mida, to reles! Estava quase a
pisar-lhe os calcanhares. Tossi:
- Faz favor?
Continuou a marcha penosa, mais lenta e mais
cansada depois que dobrou uma esquina. O suor cor-
ria-lhe pela nuca, entre os cabelinhos arrepiados. De
quando em quando a mo que enxugava a cara sur
173
gia por cima de um ombro e esfregava com o lenc
a penugem amarela.
- Faz favor?
Af ela parou. Em seguida apressou o passo, meteL
com vontade os ps na areia frouxa, e a penugem ama
rela empastou-se, grudou-se  pele e escureceu.
- Deixa disso. No h motivo para esse orgulhc
todo. Baixa a pancada. Donde vem uma soberbia tc
grande?
Os msculos do pescoo tremeram, os sapatos ver
melhos plantaram-se na areia, mexeram-se como si
quisesserr arrancar-se, ficaram imveis. Avancei doi;
metros, fiz meia-volta e achei-me em frente de Marina
- Boa-tarde. Como vai a sade? H que tempol
Vista de costas, o que nela, avultava era a nuc:
molhada. Agora percebia-se a testa, molhada tambn
e coberta de rugas. Parecia que o resto do corpo se ocul
tava sob as plpebras ca.das e roxas. O peito cavava
se. a barriga sumia-se. Examinei-Ihe brutalmente
barriga, barriga comum, nem grande nem pequena
Uma pessoa modesta andando na rua, encolhendo-s
para no dar nas vistas.
- Sim senhora, muito digna. Levanta a cabea.
Marina estremeceu e olhou de esguelha para o
lados, como se procurasse auxlio.
- Levanta a cabea. Deixa de inocncia.
Aqueles modos pudicos, aqueles movimentos qua
se imperceptfveis das plpebras roxas que velavan
#
olhos inteis, irritaram-me. Lembrei-me dos armadc
res que rangiam, das cantigas, dos banhos ruidoso.
E atirei-lhe  cara, com raiva:
- Puta!
Marina ouviu isto sem se revoltar. Apenas ffcoi
mais branca, estirou o beio quase chorando.
- Me largue, balbuciou.
- Est bem. Ningum tem nada com isso, no 
Vamos andando. Puta!
Dizia-lhe o insulto, mas estava cheio de piedadE
No sentia clera, o que sentia era desgosto.
Marina estava como uma defunta em p. PensE
em Cirilo de Engrcia, visto dias antes em fotografi
- um ca,ngaceiro morto, amarrado a uma rvorE
74
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:ry,:a
Parecia vivo e era medonho. O que tinha de morta
eram os ps, suspensos, com os dedos quase tocandc
o cho. Os ps de Camilo Pereira da Silva, ossudos,
magros, eram assim desgovernados. Os de Marina esta
vam metidos na areia. E Marina parecia morta.
- Puta!
Teria dito e repetido outra palavra que insistissE
em vir-me  boca, dessas coisas que a gente diz  toa
e conserva porque vieram espontaneamente e sc
insubstituveis e absurdas. Quanto mais olhava Mari
na menos me inclinava a admitir que ela fosse uma
puta. As plpebras roxas ocultando olhos aguados, c
beio trmulo, a barriga encolhida, a cara mal pinta
#
da, a testa amarela coberta de rugas.
- Vamos caminhando:
Marina ps-se a andar como um ma.mulengo.
O homem cabeludo s cuidava da sua vida;
datilgrafa dos olhos de gato copiava um boletim m
mquina estragada; d. Albertina guardava os cem mil
ris na gaveta; as crianas que voltavam do grupc
escolar soletravam as legendas estiradas nas paredes
O filho de Marina morria, talvez j tivesse morrido
Pensei nos ratos, em d. Mercedes, no quintal cheio di
lixo, na mulher que lava garrafas e no homem qu
enche dornas. Estas lembranas me produziram uu
aperto no corao. Quase todas me pareceram regula
res, mas a idia dos ratos era extravagante, e isto mi
enfureceu. Que vinham fazer os ratos ali, quela hora'
- Puta! exclamei metendo com raiva os ps n
areia.
Talvez no me referisse a Marina: referia-me ao;
ratos, a coisas vagas. A palavra infamante tinha
extenso enorme, Nada se fixava no meu esprito. Aber
raes, monstruosidades, os uivos compridos de d
loslia, a respirao ofegante do marido de d. Roslia
Antnia, Berta, a mulher da Rua da Lama, a neta d
d. Aurora, a banca da redao, o cinema, o teatro. 1
aparecia-me na rua uma criatura plida, silenciosa
Mais forte que aquelas idias indecisas e misturadas, 
lembrana dos ratos continuava a atormentar-me.
- Puta!
I76
Os beios de Marina estavam como os de uma
defunta, os olhos procuravam socorro, e eu cravava
as unhas nas palmas das mos, mordia a lngua por
haver deixado escapar mais uma vez a injria que
nada significava. Deu-me uma tontura, cambaleei.
Meses antes Marina ficara nua, a carne arrepiada se
cobrira de carocinhos. Quando o marido voltava do
interior, d. Roslia soltava uns gritos que no me dei-
xavam dormir. A mulher da Rua da Lama ia para o
hospital, vinha do hospital, continuava o trabalho
enfadonho no quarto sujo, nua e triste. Os dedos cru-
zavam-se nos joelhos agudos como dedos mortos. -
"A gua lava tudo, as feridas cicatrizam." Repeti men-
talmente esta frase, mas no pude saber de quem
era ela.
- Enfim tudo se acabou, no ? perguntei, O
filho morreu, boa soluo.
Marina estremeceu violentamente e parou, olhan-
do-me pe)a primeira vez. O rosto contrado esmoreceu
num desmaio, o corpo diminuiu. Pareceu-me que ia
enterrar-se todo na areia. A voz morria-lhe na gargan-
ta, sons roucos e incompreensveis, mas os olhos apa-
vorados negavam, a cabea agitava-se desordenada-
mente, negando.
- Merecia estar na cadeia, resmunguei sentindo
uma necessidade urgente de justia.
Palavras antigas, esquecidas, voltavam-me. - "Os
que tm fome de justia", cantavam os alunos de mes-
tre Antnio Justino. Sede ou fome de justia? No me
lembrava. Tambm j no sabia as vantagens que o
catecismo reserva aos que tm fome ou sede de justia.
- Na cadeia, percebe? Comendo bacalhau e dor-
mindo na esteira. Sem-vergonha.
A frase antiga me perseguia, mas, por mais que
tentasse reconstru-la, no havia meio de t-la com-
pleta. - "Bem-aventurados os que tm sede de justi-
a..." E o resto? Que aconteceria a esses bem-aven-
turados? O esforo para recordar-me exasperava-me.
Insultava Marina. Puta. A justia havia de agarr,-
la, jog-la para l das grades pretas que a gente
no pode tocar. Vinham-me tiradas incoerentes, que
#
embranqueciam e enegreciam Marina.
177
- Fez muito bem Prejuzo pequeno, insignificn
cia. E o que lhe digo. Sem falar nas responsabilidadea
nas encrencas.
E logo :
- D. Albertina guarda segredo? Se n.o guarda
a reputao de Marina d em ossos de minhoca.
- D. Albertina? perguntou Marina, plida com
flor de algodo.
- Sim, d. Albertina, minha sem-vergonha. Vamc
para diante. Marcha!
Continuamos a caminhada, segurei o brao mol
de Marina.
- Eu vi a placa na porta. Estava defronte, co:
versando com o homem da venda.
- Me deixe, pelo amor de Deus, gritou Marin
desesperada. No lhe fiz mal, vou quieta pelo me
caminho. Me deixe. Que  que voc quer comigo?
Olhou os quatro cantos. Um soldado de polcia
um soldado do exrcito passaram, os quepes de band
- Atraca-te com um deles. Tu s d.s para isso.
Atirei-lhe assim o pior ultraje. Como os pequenc
militares so desprezados, julguei demolir Marin
apontando-lhe os dois rapazes. Bem-aventurados c
que tm sede de justia. Esta coisa, repetida, dava-n
frias de cachorro doido. Para que agarrar-me a son
bras? Um juiz de direito bocejando, fatigado; o pri
motor decamando a acusao e afastando-se dc
autos, que no tinha lido; o advogado, que poderia si
Julio Tavares, soluando a defesa e apelando para 
sent'mentos religiosos dos jurados; oito sujeitos cocr
lando, chateados e comprometidos a absolver ou co
denar a r. Marina escondia a cara e inspirava con
paixo. Todos os jurados tinham a,s feies-de dr. Gov
veia. Sacudi os ombros:
- Ande. Que diabo tem voc nas pernas que nF
caminha?
A marcha na areia solta era penosa em extrem
- V-se embora. Me largue, pelo amor de Deu
arquejou Marina. No lhe fiz mal. Porque no me df
xa em paz?
Em paz. Cfrunhi de novo o desaforo imundo. E
paz. Nenhum caso importante. No havia, juiz amol
178
do tocando o timpano, nem advogado pernstico, nem
promotor botando sabedoria em cima de dr. Gfouveia
multiplicado nas cadeiras. Marina dormiria tranqila,
os armadores guardariam silncio.
- Sem dvida. Os tempos esto duros. Em fren
te, ordinrio, marche! Tudo isto  uma peste.
Entramos na cidade e separamo-nos. Mas logo me
veio a idia de que ela se ia juntar com o amante.
* * *
Descobri por acaso que Julio Tavares tinha feito
nova conquista. Foram duas ou trs palavras soltas na
rua que me deram a revelao. Pensei numa das filhas
de Lobisomem e na datilgrafa dos olhos verdes.
Tudo isto  infantil, mas a verdade  que duran-
te dias me atormentou a idia de que Julio Tavares
havia seduzido a menina dos olhos verdes. Para que
lado morava ela? Nunca havia percebido a voz dessa
criatura, no conhecia nenhum dos seus gostos, mas
tinha certezas esquisitas e andava como um pa-ente
cheio de cimes ou como um cachorro que perdeu o
faro, e no sossega.
Porque se tinha escondido a datilgrafa dos olhos
verdes? Fugiria da policia? Ou estaria de cama com
a hemorragia produzida pela interveno de uma d.
Albertina? Agora Julio Tavares tomava um caminho,
#
depois tomava outro - e eu imaginava que ela resi-
dia em Bebedouro, na Levada, em Jaragu, no Farol,
enfim admitia que nos quatro pontos cardeais exis-
tiam datilgrafas doentes. Todas elas estavam grvi-
das e procuravam os servios de d. Albertina.
O bodegueiro cabeludo, com os cotovelos pregados
no balco, no via nada, s cuidava da sua vida. E
Julio Tavares farejava as datilgrafas como um bode.
Porque andava com tanta pressa quando deixava o
caf? Entrava num bonde, espalhava-se no banco,
feliz, o olho aceso, o charuto aceso. Ia encolher-me
num dos ltimos lugares, firmava as mos no encosto
do banco fronteiro, apoiava o queixo nas mos e obser-
vava as costas de Julio Tavares. O cachao gordo e
mole como toicinho balanava com o movimento do
179
carro. A mo curta de unhas cor-de-rosa fazia acen
para baixo. Transeuntes sorriam ao dono da mo cL
ta de unhas brunidas. Eu notava com raiva aquel
sorrisos. Porque tanta subservincia nas caras aberta
Julio Tavares, patriota e orador, no prestava pa:
nada. Nenhum favor esperavam dele. Mas sorriam p
hbito. Eu tambm havia sorrido, amolado. Os cab
los de Julio Tavares comeavam a escassear no al
da cabea. Parecia que ele ia adquirindo uma espc
de tonsura. Falava alto, atirava cumprimentos a
conhecidos e era amvel em excesso, mas a amabi:
dade traduzia-se em palavras vs. O que me aborrec
era saber que essa.s palavras eram aceitas: tinham tic
significao antigamente e continuavam a circular. F
engulhava, metia a mo no bolso e apertava a corda.
Que fim teria levado seu Ivo? A toa, procuranc
nas fazendas e nas povoaes muitas vezes percon
das alguma coisa ignorada. Bbedo sempre, cochila:
do, babando, seu Ivo no encontra sossego. Uns fora
para o Amazonas e acabaram-se no beribri; outr
andam pelo sul, em concorrncia com o estrangeir
Seu Ivo, incapaz de fixar-se, ndio e cigano, cor
fazendas e povoaes, pedindo, furtando. No sal
tomar os objetos que necessita: pede, furta,  um inc
vfduo inferior. Por isso digo a Vitria quando ele n
entra em casa:
- Vitria, preste ateno a seu Ivo. Cuidado pa
que ele no me abafe um livro.
Intil. O livro  abafado e oferecido adiante, corr
a corda que ele me deu.
Apalpava a corda. Mexia-me lentamente, pensav
nos cabras que meu av8 livrava peitando os jurados c
ameaando a cadeia da vila. Apareciam no pti
desarmados, varrendo o cho com chagus de cour
mas quando tinham empreitada, dormiam na pont
ria, passavam semanas por detrs de um pau, o clav
note escorado numa forquilha, algumas rapaduras
farinha de mandioca no bisaco.
Pouco a pouco tudo se transformava, a catini
da minha terra rodava aos solavancos nos trilhos c
Nordeste. Escondia-me entre aquela vegetao de pa
sageiros, sobre o encosto do banco apoiava-se um rif
180
imaginrio dirigido s costas de Julio Tavares. Tudo
nele me aparecia aumentado e deformado. Lembrava-
me das conversas que me estragavam as noites, de
palavras ouvidas atravs da parede da sala de jantar,
de frases truncadas percebidas no caf. O homem sal-
tava, eu ia saltar um poste adiante e continuava 
espreita. Notava as casas onde ele entrava, as caras
das pessoas a que se dirigia.
Como conseqncia da investigao, descobri afi-
nal a nova amante de Julio Tavares. Era uma criatu-
rinha sardenta e engraada que trabalhava numa loja
#
de miudezas. Dentro de alguns meses estaria de barri
ga, visita,ndo clandestinamente d. Albertina. Venderia
as jias baratas, furtarfa dinheiro na caixa para d.
Albertina. Ou ento haveria um espalhafato. Julio
Tavares daria  mocinha sardenta quinhentos mil-ris
para ela calar-se e passaria uns tempos aborrecido,
ouvindo os sermes de Tavares pai.
* * *
A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Julio
Tavares chegava alta noite, entrava, demorava-se duas
horas. Afastava-me, para no despertar suspeitas, mas
' safda andava por ali e distinguia um vulto que
tinha a gola do palet erguida e evitava os pontos ilu-
minados. Havia raros transeuntes, e a ligao durou
pouco, no chegou a dar nas vistas.
Julio Tavares seguia pela rodagem, rente aos jar-
dins dos palacetes adormecidos. Ou acompanhava a es-
trada de ferro, que atravessa a rua, ganha os fundos
das casas. Ali era o silncio, uma sombra que algumas
lmpadas muito distanciadas e os becog por onde es-
pirra um pouco de luz interrompiam. A gua do man-
gue apresentava manchas brancas entre as rvores.
Aproximando-me, ouvia perfeitamente os passos do ho-
mem nas folhas secas. Porque era que aquele sem-ver-
gonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no
cho pago?
Em toda a parte era assim. Derramava-se no bon-
de. e se algum lhe tocava as pernas, desenroscava-se
com lentido e lanava ao importuno um olhar duro.
181
Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade
sentava-me com uma das ndegas. As viagens se torna
vam horrivelmente inc8modas, mas havia-me habituadc
a elas, e ainda que o carro estivesse deserto, no pode
ria espalhar-me como Julio Tavares: receava que m
viessem empurrar e tomar, sem pedir licena, algumaa
polegadas da tbua estreita.
Aqueles modos davam-me a impresso de que tudc
em roda era dele. Os passeios pblicos eram dele. Certa
mente ningum me proibia andar nos jardins, sen
tar-me, ver as mulheres. Mas as mulheres no repara
vam em mim, pessoas conhecidas olhavam-me distraida
mente. Demais, enquanto me achava ali, perseguia-mE
a recordao da vida ordinria, e isto me estragava a
hora mesquinha de folga. Os canteiros, o coreto, os glo-
bos opalinos, no me serviam para nada. Estimaria que
os fios da Nordeste encrencassem e a cidade ficasse 
escuras. Mover-me-ia como um cego, esqueceria as mu
lheres pintadas que imitam d. Mercedes, esqueceria
Julio Tavares, que estava em todos os bancos. A treva
apagaria aquela exposio desagradvel. Mas dar-me-ia
a recordao de coisas mais desagradveis ainda.
A gravata enrolava-se como uma corda sobre a ca
m;sa raseada e suja, das bainhas das calas e dos coto-
velos pudos saam fiapos, manchas de poeira alastra
vam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os
meus olhos se enevoavam por causa da fome e desco-
briam entre as rvores cenas irreais.
Agora Julio Tavares marchava no escuro, depois
de ter abraado a mocinha sardenta. Ia deitar-se, arru-
mar talvez uns versos indecentes a respeito de segredos
de alcova. Aquela hora no tinha com quem desabafar.
O caf estava fechado, na praa deserta as luzes cochi-
lavam. Derramaria a vaidade no papel, imprimi-la-ia no
dia seguinte, os amigos lhe dariam parabns e ele andar
ria como um pavo. Julio Tavares julgava-se superior
aos outros homens porque tinha deflorado vrias meni-
nas pobres. Pelos modos, imaginava-se dono delas. Con-
tra-senso. Ento Marina era dele? Tolice. Era a mesma
que eu tinha conhecido um ano antes, vermelha, com
#
os cabelos pegando fogo, entre as roseiras maltratadas.
Evidentemente.
I82
Lembrava-me de sinha Germana, de Quitria, das
negras da fazenda. Sinha Germana s tinha conhecido
um homem. As pretas no se envergonhavam de conhe
cer muitos homens. Que diferena! Descendo de sinha
Germana, que dormiu meio sculo numa cama dura e
nunca teve desejos. Adquiro idias novas, mas estas
idias brigam com sentimentos que no me deixam.
Sinha Germana dormia no couro de boi com o velho
Trajano, e se dormisse de outra forma, no dava certo.
Os costumes de sinha Germana eram superiores aos de
Quitria. Porqu? No havia porqu, e isto me enrai-
vecia. Um sujeito capaz de escrever sobre muitos assun
tos entendendo-os mal, ou sem entend-los, aceitar as
opinies de Camilo Pereira da Silva, de padre Incio,
de d. Roslia! Essas opinies no tinham p nem ca-
bea. Marina valia o que tinha valido antes de engros-
sar a barriga e procurar d. Albertina. As mesmas per
nas bem feitas, os mesmos braos que mexiam as ro-
seiras do quintal pobre, os mesmos cabelos que pare-
ciam oxigenados, os mesmos olhos traquinas. Mas as
pernas no se curvavam para mostrar as ndegas aper-
tadas na saia estreita, os braos moviam-se vagarosa-
mente, pesados, os cabelos amarelos caam sobre a tes-
ta enrugada, os olhos baixavam-se, cheios de culpa, des-
viando-se dos outros olhos. Esta conscincia de inferio-
ridade era contagiosa. Marina tinha descido. Logo me
revoltava. Absurdo.
- Como as outras, como as outras. Mais bonita
que a maioria das outras.
Repeties inteis. No podia evitar a idia de uma
queda. De qualquer forma ela havia diminufdo e habi-
tuava-se a esgueirar-se, a pedir desculpa a toda a gente.
Seria para o futuro um trapo como d. Adlia:
- A senhora tem razo, d. Roslia.  isso mesmo.
d. Roslia.
Os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os
saltos gastos, roupas ordinrias, as unhas estragadas,
a voz esmorecendo numa cantilena de aprovao.
- Como as outras. Estpido, absolutamente est-
pido.
183
Furores perdidos. Marina permaneceria de vists
baixa, esconder-se-ia como um rato e falaria gemendo
concordando com d. Roslia.
* * *
Fu at o fim da linha de bonde e parei, como se
me tivesse faltado a corda de repente. Aquelas dua,
extremidades de trilhos roubaram-me os movimentos e
deram-me impresso desagradvel. Esfreguei os olhos
senti-me eansado. At ali no havia experimentadc
nenhum cansao. Teria andado lguas se os trilho;
avanassem para o interior, mover-me-ia regularmente
como um bonde. Apenas no rre deteria diante do;
postes cintados de branco. Nessas marchas comprida;
a que me habituei - um, dois, um, dois - a fadiga
adormece e quase no penso. Exatamente como se uma
vontade estranha me dirigisse, um sargento invisve:
que se descuidasse do exerccio e fosse pelo campo, em
brutecido pela cadncia - um, dois, um, dois - esque
cido da voz de comando, pensando nos versos de ur
Julio Tavares ou nos bilhetes de outra Marina. Andc
meio adormecido. Se algum me gritasse: - "A direita
 esquerda", volveria  direita, volveria  esquerda, sen
procurar saber donde partia a ordem. Porque  direita'
Porque  esquerda? Poderia ser meia-volta. Mas nin
gum fala, e vou para a frente, sem perceber que possc
voltar, libertar-me da autoridade de um sargento invi
#
svel e caminhar naturalmente, parando, observandc
as casas e as pessoas. De repente os trilhos desapare
cem e relaxa-se a corda do boneco. Est bem. Em quE
ia pensando?
A verdade  que estava com as pernas bambas
Caminhada to extensa! Mais de uma hora. O mesmc
tempo para voltar - um, dois, um, dois - exatamentE
o mesmo nmero de minutos gastos na vinda.
- Est bem.
Deviam ser duas horas da madrugada.
- Sem dvida.
Julio Tavares no tardaria em deixar a casinh
que se trepa no morro, junto a uma barreira vermelha
184
Seguiria pela rodagem? Pela estrada de ferro? S vendo.
Esta necessidade de ver encolerizou-me:
- Bestal Farejando imundcies como um cachorro.
Procurei um cigarro para acalmar-me. No encon-
trei ciga,rras. O .que achei foi a corda que seu Ivo me
havia oferecid. Desleixado. Conservar no bolso aquele
traste e esquecer os cigarros! Olhei os quatro cantos.
Nenhuma bodega. Esperei a passagem de algum que
me desse um cigarro. Ningum. Idiota! Que estava fa-
zendo ali, pisando a ponta do trilho? Farejando imun-
dcies como um cachorro, como um urubu. Que horas
seriam? Duas, aproximadamente. Aguardei as pancadas
de um relgfo. Com certeza Julia`.o Tavares tinha dei-
xado a cama da mocinha sa,rdenta e recolhia-se, leve
como um balo, saciado, fumando, a brasa do cigarro
esmorecendo e avivando-se. O certo era que eu no podia
ficar ali subordinado a um relgio duvidoso ou a um
transeunte que talvez n,o tivesse cigarros. Julio Ta-
vares deixara a mocinha sardenta. Seria a mocinha sar
denta a amante dele? Na casa havia outras mulheres.
Porque imaginei que havia de ser a mocinha sardenta?
Uma garoa que se adensava ia toldando as luzes ca-
piongas. Um, dois - impossfvel contar os postes de
ilumina, que a neblina ocultava. Senti frio. Enquan-
to marchava, no tinha frio, nem cansao, nem desejo
de fumar. Agora a falta de cigarros me afligia. Levantei
a gola, apertou-me a necessidade urgente de voltar.
Tinha certeza de que na, volta me apareceriam ciga.rros.
Virei-me, pus-me a caminhar desordenadamente. De
quando em quando parava, as pernas bamba,s. No ha-
veria uma bodega, um transeunte? A marcha regular
era impossvel. Estava irritado como um bicho e levava
a mo ao bolso, num gesto maquinal. Encontrava os
anis da corda. Provavelmente Julio Tavares ia de vol-
ta, fumando. Que me importava Julio Tavares? A f?gu-
ra de Cirilo de Engrcia passou-me diante dos olhos,
mas desapareceu logo. Porque me achava quela hora
da noite em Bebedouro, andando  toa como uma bara-
ta, parando, correndo? Soprava, enxugava o rosto com
a manga. Cansado.
Quando me aproximava da casinha encostada ao
monte, u vulto pulou na estra,da a alguns passos de
185
mim e ganhou os trilhos da reat Western. Adiantei-me
para no perd-lo de vista. A escurido esbranquiada
feita pela neblina aumentava, escurid.o pegajosa em
que os postes espaados abriam clareiras de luz escassa.
Passei o leno no rosto molhado. Um suor frio, as ore
lhas frias e insensveis. Nem sabia se aquilo era suor
ou orvalho cado dos ramos das rvores.
Uma hora antes caminhava com animao, mo-
via-me executando ordens, tinha os membros amarra-
dos a cordes. Agora podia desviar-me para um lado
e para outro, avanar, recuar. Alargaria os passos, en-
contraria Julio Tavares, pa,ssaria por ele, o chapu em-
bicado. No me reconheceria na poeira de gua. Um su-
#
jeito que vinha de uma aventura noturna e tinha pres-
sa de recolher-se. A mocinha ficara num fundo de quin-
tal, em camisa, ao p do morro. Julio Tavares estre-
meceria. Um concorrente. No presumiria que o con-
corrente era um inimigo aperreado e cheio de veneno.
A necessida.de de fumar atrapalhava-me os movimentos.
Julio Tavares flutuava para a cidade, no ar denso e
leitoso. Estaria longe ou perto? Aparecia vagamente nos
pontos iluminados, em seguida o nevoeiro engolia-o,
e eu tinha a impresso de que ele ia voar, sumir-se.
Um balo colorido em noite de So Joo, boiando n
cu escuro.
As meninas de Teotoninho Sabi cantavam,  porta
da nossa casa estalava uma grande fogueira que meu
pai alimentava com tbuas de ca.ixes e aduelas, Ro-
senda fazia adivinhaes consultando uma bacia de
gua, na sala de seu Batista as moas brincavam de
sortes, busca-ps estouravam na Rua da Cruz e no Ca
valo-Morto. Debaixo de um mamoeiro de folhas tor-
radas, Carcar assava milho verde na fogueira e largava
risa.das enormes. Meu pai dizia: - "Hi! parece um
papa-lagartas." Eu no sabia que espcie de bicho era
o papa-lagartas nem porque meu pai se lembrava dele
ouvindo as gargalhadas de Carcar. Tudo to simplest
As moas desdobrando os papelinhos das sortes, Rosen-
da estudando a bacia de gua, Teresa e d. Maria can-
tando para o balo cair. Apenas o estouro dos busca-
ps e as risadas de Carcar me incomodavam. Teresa
186
era boa, chupava o dedo mindinho e chorava quando
chegavam as redes e os homens amarrados de cordas.
Julio Tavares ia afastar-se, dissipar-se, wirar ne-
blina. Apressi-me, pus-me quase a correr. Bem. Conti-
nuava invisvel, mas as pisadas ouviam-se distinta-
mente.
- Bem.
Dizia isto, e sentia que tudo ia mal, aporrinhava-me
por estar perdendo tempo a acompa,nhar Julio Ta-
vares. Afligia-me pensar que dentro em pouco ele en-
traria na cidade e dormiria tranqilo. Cirilo de Engr-
cia, morto, em p, amarrado a uma rvore, coberto de
cartucheiras e punhais, tinha os cabelos compridos e
era medonho. Eu no poderia dormir. O caminho en-
curtava-se. Mas ento? Para que seguir o homem odio
so que tinha tudo, mulheres, cigarros? Agora estva-
mos perto um do outro, mas a cidade se aproximava,
e em breve estaramos afastados, ele chupando um ci-
garro, eu agentando os roncos do marido de d. Ro-
slia, que tinha chegado na vspera. Pelo resto da noite
ouviria os gemidos e os roncos dos vizinhos. O cansao
deaaparecera. Desejaria caminhar lguas, at fatigar-me
novamente e adormecer. Quantos metros faltariam para
desembocarmos na Levada? Quantas horas faltariam
para se abrirem os cafs e as bodegas? A idia de que
nos amos separar me desesperava. Ali era como se ele
dependesse de mim. Distinguiam-se perfeitamente os
pasos; nas luzes que espirravam das travessas a figura
surgia, escura e bojuda, com o chapu desabado e a
gola do palet erguida. De repente senti uma piedade
inexplicvel, e qualquer coisa me esfriou mais as mos.
Julio Tavares era fraco e andava desprevenido, como
uma criana, naquele ermo, sob ramos de rvores dos
quintais mudos. Uma hora, meia hora depois, passaria
pelo guarda adormecido junto a um poste, seria forte,
mas ali, debaixo das rvores, era um ser mesquinho
e abandonado. Contra as mos frias e molhadas de
suor, meti-as nos bolsos para aquec-las. Para aquec-las
ou levado pelo hbito. A aspereza da corda aumen-
tou-me a frieza das mos e fez-me parar na estrada,
mas a necessidade de fumar deu-me raiva e atirou-me
#
para a frente. Entrei a caminhar depressa, receando
18?
que Julio Tavares escapasse. Novamente os passos leves
no cho coberto de folhas secas. Distinguia-se agora
muito bem a sombra escura na garoa peganhenta.
A garoa me entrava no bolso e gelava os dedos, que
esfregavam a corda. Porque andava com segurana
o homem gordo? Olhos atentos procuravam enxerg-lo,
dedos crispados moviam-se em direo a ele. - "Matos
tm olhos, paredes tm ouvidos", dizia Quitria sentada
na prensa do quintal. Pareceu-me que as rvores em
redor estavam vivas e espiavam Julio Tavares, que os
galhos iam enlaar-lhe o pescoo. E ele andava sosse-
gado como se ali houvesse guardas-civis.
Muitos anos antes os cabras de Cabo Preto ha-
viam-se escondido na capueira para no assustar sinha
Germana. Sinha Germana passara escanchada na sela
de campo, e os cabras se amoitavam por detrs dos
mandacarus e dos alastrados que vestiam mal a cam-
pina. Os cangaceiros eram amigos de Trajano, sinha
Germana esquipava no caminho iluminado pelo sol cru.
Nenhum dio. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante
e Silva tinha umas reses que definhavam e entendia-se
perfeitamente com os emissrios de Cabo Preto.
O desejo de fumar levava-me ao desespero. O acesso
de piedade sumiu-se, o dio voltou. Se me acha,sse
diante de Julio Tavares,  luz do dia, talvez o diu
no fosse to grande. Sentir-me-ia mido e perturbado,
os msculos se relaxariam, a coluna, vertebral se incli-
naria para a frente, ocupar-me-ia em meter nas calas
a camisa entufada na barriga. Afastar-me-ia precipita-
damente, como um bicho inferior. Agora tudo mudava.
Julio Tavares era uma sombra, sem olhos, sem boca,
sem roupa, sombra que se dissipava na poeira de gua.
A minha raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado.
Porque esta comparao? Ser que os cangaceiros expe-
rimentam a clera que eu experimentava?
Jos Bafa vinha contar-me histrias no copiar, can-
tava mostrando os dentes tortos muito brancos. Era
bom e ria sempre. Dava-me explicaes a respeito de
visagens, mencionava as oraes mais fortes. No me
ensinou as oraes, para no quebrar a virtude delas,
mas ofereceu-me conselhos, que esqueci. To bom Jos
Bafa! O clavinote dele tinha vrios riscos na coronha.
188
Ningum ialava alto a Jos Baa, ningum lhe mos-
trava cara feia. E ele ria, exibindo os dentes acavalar
dos, e quando avistava o vfgrio ou outro hspede im-
portante, a aba do chapu de couro varria o ptio da
fazenda. No me seria possivel imaginar Jos Baa ata-
cado de uma crise de dio como a que me fazia pregar
as unhas nas 'palinas. Provavelmente ele ficava sosse-
gado na capueira, tirando um trago do cigarro de palha,
que apagava logo com saliva e guardava atrs da orelha,
para a fumaa no denunciar a emboscada. O ouvido
atento a qualquer rumor que viesse do caminho estreito,
o joelho no ch.o, em cima do chapu de couro, o olho
na mira, a arma escorada a uma forquilha, com cer-
teza no pensava, no sentia. Estava ali forado pela
necessidade. No dia seguinte faria com a faca de ponta
novo risco na coronha do clavfnote e contaria no al-
pendre histrias de onas.
- Que fim levou, Jos Baa?
- Por a, caminhando.
Nenhum remorso. Fora a necessidade. Nenhum pen-
samento. O patro, que dera a ordem, devia ter l as
suas razes. As histrias do alpendre eram simples:
as onas que armavam ciladas aos bodes no tinham
ferocidade. Jos Baa, bom tipo. Quando passasse pela
cruzinha de pau que ia apodrecer numa volta do cami-
#
nho, rezaria um padre-nosso e uma ave-maria pelo de-
funto. A fraqueza estirou-me os dedos e retardou-me
a caminhada. Tive saudade de Jos Baia e das conver-
sas infantis do copiar.
- Jos Bafa, meu irmo, onde estars a esta hora?
Ters morrido em tocaia ou mofars numa cadeia no-
jenta de grades pretas e gordurosas? Entraste um dia
na vila, amarrado de cordas, negro de suor e poeira,
cercado por uma tropa de cachimbos. Os teus olhos
claros se arregalavam num espanto verdadeiro. Enve-
lheceste e s outro, uma inutilidade feita pela justia.
Os teus ouvidos e a tua vista se estragaram, as tuas
mos tremem, ests srio e esqueceste a criana a quem
dizias as virtudes da orao da cabra preta.
Quanto tempo duraram as recordaes e o enfra-
quecunento? Um minuto, ou menos. Novamente as mos
se contrafram e as pernas se estiraram no caminho
189
extenso. Desejei que Julio Tavares fugisse e me livras-
se daquele tormento. Se ele corresse pela estrada de-
serta, estaria tudo acabado. Eu tentaria alcan-lo.
Inutilmente. Pensei em gritar, avis-lo de que havia
perigo, mas o grito morreu-me na garganta. No grito:
habituei-me a falar baixinho na presena dos chefes.
Era preciso que alguma coisa prevenisse Julio Tavares
e o afastasse dali. Ao mesmo tempo encolerizei-me por
ele estar pejando o caminho, a desafiar-me. Ento eu
no era nada? No bastavam as humilhaes recebidas
em pblico? No relgio oficial, nas ruas, nos cafs, vira-
va-me as costas. Eu era um cachorro, um ningum.
- "E-me conveniente escrever um artigo, seu Lus." Eu
escrevia. E pronto, nem muito obrigado. Um Julio
Tavares me voltava as costas e me ignorava. Nas reda-
es, na repartio, no bonde, eu era um trouxa, um
infehz, amarrado. Mas ali, na estrada deserta, voltar-me
as costas como a um cachorro sem dentes! No. Donde
vinha aquela grandeza? Porque aquela segurana? Eu
era um homem. Ali era um homem.
- Um homem, percebe? Um homem.
Julio Tavares no ouviu e continuou a andar tzan-
qilamente.
- Corre, peste.
Porque era que o miservel no corria, no se
livrava dos meus instintos ruins? Estaria recordando as
carcias da mocinha sardenta?
- Isso no vale nada, Julfo Tavares. Marina,
a mocinha sardenta, a datilgrafa dos olhos de gato,
no valem nada. O que vale  a tua vida. Foge.
Julio Tavares parou e acendeu um cigarro. Porque
parou naquele momento? Eu queria que ele se afastasse
de mim. Pelo menos que seguisse o seu caminho sem
ofender-me. Mas assim . . . Faltavam-me os cigarros, e
aquela parada repentina, a luz do fsforo, a brasa esmo-
recendo e avivando-se na escurido, endoidecia-me. Fiz
um esforo desesperado para readquirir sentimentos hu-
manos :
- Jos Bafa, meu irmo . . .
Jos Bafa no era meu irm.o: era um estranho
de cabelos brancos que apodrecia numa cadeia imunda,
cumprindo sentena por homicfdio. - "Recebeu cpfa
190
do libelo?" Jos Bafa no soubera responder. Tinha re-
cebido e no tinha. Que resposta devfa dar quela per-
gunta incompreensvel? O presidente se contentaria se
ele dissesse que sim? Ou seria melhor dizer que no?
E Jos Baa balanava a cabea, indeciso: tinha rece-
bido e no tinha. Afinal que me importava Jos Bafa,
estirado numa esteira por detrs das grades negras e
pegajosas? Que me importavam as grades negras e pe-
gajosas?
#
Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silen-
ciosos como os das onas de Jos Bafa, estava ao p
de Julio Tavares. Tudo isto b absurdo,  incrfvel, mas
realizou-se natralmente. A corda enlaou o pescoo do
homem, e as minhas mos apertadas afastaram-se. Hou-
ve uma luta rpida, um gorgolejo, braos a debater-se.
Exatamente o que eu havia imaginado. O corpo de
Julio Tavares ora tombava para a frente e ameaava
arrastar-me, ora se inclinava para trs e queria cair
em cima de mim. A obsesso ia desaparecer. Tive um
deslumbramento. O homenzinho da repartio e do
jornal no era eu. Esta convico afastou qualquer
receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pes-
soas que aparecessem ali seriam figurinhas insignificar-
tes, todos os moradores da cidade eram figurinhas in-
significantes. Tinham-me enganado. Em trinta e cinco
anos haviam-me convencido de que s me podia mexer
pela vontade dos outros. Os mergulhos que meu pai
me dava no poo d Pedra, a palmatria de mestre
Antnio Justino, os berros do sargento, a grosseria do
chefe da reviso, a impertinncia macia do diretor, tudo
virou fumaa. Julio Tavares estrebuchava. Tanta em-
pfia, tanta lorota, tanto adjetivo besta em discurso
- e estava ali, amunhecando, vencido pelo prprio peso,
esmorecendo, escorregando para o cho coberto de fo-
Ihas secas, amortalhado na neblina. Ao ser alcanado
pela corda, tivera um arranco de bicho brabo. Aquieta
va-se, inclinava-se para a frente, os joelhos dobra
vam-se, o corpo amolecia. Eu tinha os braos dodos
e as mos cortadas. Enquanto Julio Tavares estivesse
com a cabea erguida, a minha responsabilidade no
seria to grande como depois da queda. Quando bebia
demais, seu Ivo tinha aquele jeito de arriar, no havfa
191
conversa que o levantasse. A lembrana de seu Ivo en-
fureceu-me.
-- Com os diabos!
E larguei o corpo, que foi bater numa cerca, por
baixo de uns galhos de rvore que aumentavam a
escurido.
- Com os diabos!
Sentei-me ao p da cerca, enxuguei o suor que me
corria pela testa. Cansado. A mo direita doa-me horri-
velmente, mas continuei a apertar com ela a corda que
a circulava. A mo esquerda estava livre. Levei-a ao
bolso  procura de cigarros, mas retirei-a logo. A figura
de seu Ivo, bbedo, encostado  parede, voltou. Que
horas seriam? As estacas da cerca magoavam-me as
costas. Preceu-me inconveniente permanecer ali, mas
no me veio a idia de que houvesse perigo. Necessrio
continuar a marcha. Continuar a marcha, evidente-
mente: Fiquei sentado e mudei de posio, porque as
estacas da cerca me feriam os ombros. Como conduzir
Julio Tavares, to pesado? No compreendi que devia
deix-lo apodrecendo nas folhas, debaixo da rvore. Pre-
cisava transport-lo, isto no me saa da cabea. Trans-
port-lo, sem dvida. Apesar de no. sentir medo, perce-
bia que era urgente retirar-me. Agucei o ouvido. Apenas
o zunzum dos mosquitos. A lagoa prxima fervilhava
de carapans. Como estaria Julio Tavares? Procurei dis-
tingui-lo, avancei a cabea para o lugar onde supnha
ter ele ficado. Um vulto quase imperceptvel na escuri-
do leitosa. O rosto encostado  terra, naturalmente.
Como estariam os olhos dele? Os de seu Evaristo, que
vi de longe, esbugalhavam-se. E a boca se escancarava,
mostrando a lingua escura e grossa. Provavelmente Ju-
lio Tavares tinha tambm os olhos muito abertos e o
queixo desgovernado.
- Mas que diabo estou fazendo aqui?
Necessitava levantar-me, afastar-me depressa, entrar
#
em casa, dormir. Aquela hora o marido de d. Roslia
resfolegava, arranhava com a barba o couro a.marelo
de d. Roslia. O marido de d. Roslia resfolegava como
um bicho. E Julio Tavares parado. Minutos antes an-
dava na maciota, o cigarro aceso, o pensamento na
cama da mocinha sardenta. Agora ali junto da cerca,
192
estirado. Inconveniente ficar ao lado dele. Inconve-
niente. As carapans zumbiam, voavam perto da minha
cara, picavam-me as orelhas e as mos escalavradas.
Inconveniente.
Matos tm olhos, paredes tm ouvidos.
Quitria, Rosenda e a prensa velha vieram-me 
memria. Olhei os arredores, tentei varar a escurido.
Tudo invisvel. A lagoa, povoada de carapans, inW -
svel. Uma grande fraqueza abateu-me, suor abundante
ensopou-me a camisa. Passei a mo na cara molhada,
senti na pele a dureza da corda. Se viesse algum?
- Recebeu cpia do libelo?
Os amigos de Julio Tavares iriam julgar-me. Pi-
mentel e Moiss no eram jurados. Que diriam os jor-
nais? De seu Evaristo no tinham dito nada, dos ho-
mens que apareciam mortos nos caminhos no diziam
nada. Mas agora falariam muito. Quem foi? Porque foi?
Pimentel escreveria artigos horrfveis. Pus-me a discutir
com Pimentel, gesticulei, uma das mos bateu no corpo
de Julio Tavares. Encolhi-me, o suor aumentou na fria-
gem da noite.
Jos Baa, velho e manso, dormia na esteira de
pipiri, por baixo das cortinas de pucum. Seu Evaristo
balanava, pendurado num galho de carrapateira. Seu
Evaristo era to magro, to cheio de fome, que um
galho de carrapateira podia sustent-lo. Cirilo de En-
grcia, morto, em p, amarrado a uma rvore, parecla
vivo. Os cabelos compridos, cados para a frente, es-
cureciam-lhe o rosto feroz. S os ns estavam bem
mortos, suspensos, os dedos para baixo. O frio aumen-
tava, comecei a bater os queixos como um caititu. Se
alum surgisse na estrada, eu no teria coragem de
fugir. Haveria pessoas ali perto? Julguei perceber mn
rudo esquisito, mas provavelmente era apenas o eco das
pancadas dos meus dentes, que no descansavam. Tive
a impresso de que os meus dentes estavam longe, fa-
zendo um barulho que se misturava ao zumbido irri-
tante das carapans. Apertei os queixos, mas as casta-
nholas permaneceram, e veio-me a certeza de que ms
havia tornado velho e impotente.
- Intil, tudo intil.
193
Mordi a manga do paletb. Os dentes continuavam
a entrechocar-se, mas produziam um som abafado. Mas-
tiguei o pano, desejei recolher-me. Beberia um copo de
cachaa, os dentes se calariam. Os relgfos da vizinhan-
a no me deixariam dormir. Certamente Julio Tava-
res devia ficar ali deitado. Pensei em ocult-lo, en-
terr-lo debaixo de uma camada de folhas. A idia
absurda de lev-lo comigo para a cidade tinha desapa-
recido. Bem. Pus-me a afastar as folhas e a cavar a
terra com as unhas. A tentativa de fazer com os dedos
uma cova para enterrar um homem era to dispara-
tada que me levantei, receoso de tornar-me idiota. Como
estaria a cara de Julio Tavares? A figura que me veio
ao esprito foi a de Cirilo de Engrcia, terrvel, amar-
rado a um tronco, os cabelos compridos ensombrando
o rosto, os ps suspensos, mortos. Pensei tambm em
seu Evaristo, curvado sob a carrapateira, como se pre-
parasse um salto. Recuei precipitadamente e bati com
os ombros na cerca. Julio Tavares podia ficar assim,
pendurado a um galho, como um suicida. Acreditariam
que ele fosse um suicida? Acreditariam. No acredita-
#
riam. Os jornais fariam escndalo, publicariam o retra-
to da mocinha sardenta. Um rapaz desvairado, perfeita-
mente, rapaz desvairado. Desembaracef a mo direita
e numa das extremidads da corda fiz um lao. Vi-
nha-me afinal uma resoluo. Entrei a mexer-me, com
medo de perd-la. Se os pensamentos se sumissem? Se
voltasse aquele marasmo?
- Tudo intil.
Os dentes j no batiam. Curvei-me, procurando
a cabea de Julio Tavares. Encontrei o chapu cado,
um brao, que soltei arrepiado porque nunca havfa
tocado em cadveres. A idia de que Julio Tavares era
um cadver estarreceu-me. No tinha pensado nisto.
Horrfvel o corpo imvel, esfriando. L estava a cabea
anda morna. Enjoado, cuspindo muitas vezes, erguia-a,
passei o lao no pescoo. Prendi nos dentes a outra
ponta da corda, subi  cerca, trepei-me num galho da
rvore. E comecei o trabalho de guindar o morto. A mo
direita puxava a corda, que se movia lenta por cima
do ramo; do outro lado a mo esquerda agentava
o peso do corpo. Moo desvairado. Duas tarjas grossas,
194
uma no princfpio, outra no fim da pgina. Qualidades,
Julio Tavares tinha muitas qualidades. A literatura
delA reproduzida nas folhas, em tipo grado. Comen-
trios. Porque foi? Como foi? Enterro complicado, au-
tomveis, todos os automveis da praa, bondes espe-
ciais. O discurso no cemitrio, discurso empolado. E o
tmulo com uma coluna partida. Muitos tmulos com
colunas partidas. Colunas de mrmore, colunas de
cimento. Moo desvairado. Todos os mortos importa,n-
tes eram colunas partidas. Julio Tavares era uma co-
luna de mrmore, partida. O capitel no cho, esverdi-
nhando-se.
O corpo subia. No princpio o esforo no era gran-
de demais. A cada movimento passavam no galho algu-
mas polegadas da corda. Mas quando a massa obesa
se elevou, as dificuldades foram enormes para correrem
uns centmetros.
- Mais um pouco, mais um pouco.
Estas palavras no me deixavam. O corpo devia
estar todo erguido, e os meus ossos estalavam. O galho
curvava-se. Ia quebrar-se, atirar-nos ao cho. Tudo per
dido. A polcia, a cadeia. Denunciar-me-ia no primeiro
interrogatrio. Segurei-me  corda, com o intuito de
amarr-la. Desceria. Livre do meu peso, o galho se ele-
varia, os ps de Julio ficariam suspensos como os de
Cirilo de Engrcia.
- Bem.
Apareceram vozes na estrada. Vozes? Ou seria que
eu estava tresvariando? Alucinao. No queria acredi-
tar que pessoas normais se avizinhassem de mim sosse-
gadamente. Agarrava-me com desesnero  corda.
- Trinta anos de priso, trinta anos de priso.
As grades que a gente no pode tocar, to nojentas
so elas, as esteiras, as cortinas de pucum, os muros
grossos, fome, sede, caldo de bacalhau, e nesta misria
Jos Baa fabricando piteiras, pentes de tartaruga,
objetos midos de casca de coco.
- Vo-se embora. Vo-se embora. No venham, que
se desgraam. Um homem perdido no respeita nada.
O homem perdido ofegava apavorado. As vozes cada
vez mais distintas, grossas, finas. Machos e fmeas. Cer-
tamente iam para a farra. Mentira. tudo mentira. Eu
195
no tinha trinta e cinco anos: tinha dez e estudava
a lio dificil na sala de nossa. casa na vila. A sala
enchia se de ruxnores estranhos que vinham de fora e
saam das paredes. Provavelmente eram os sapos do
aude da Penha. No eram sapos: eram homens e mu-
#
lheres que se aproximavam. As palavras tornaram-se
claras. Algum dizia:
- Deixa de luxo, minha filha. Ser o que Deus
quiser.
No me lembro de outra frase. Risos, falas trun-
cadas. O grupo foi-se chegando, passou por baixo da
rvore. Uma pessoa bateu em Julio Tavares e res-
mungou : - "Desculpe." A corda resvalou, recuou uns
dez centmetros, com certeza Julio Tavares curvou-se
um pouco na escurido. E repetia baixinho:
- Ser o que Deus quiser.
Os meus dedos se imobilizavam, feridos, a corda
molhada de suor ameaava correr sobre o galho, em-
borcar no cho mido o corpo de Julio Tavares. No
o poderia levantar outra vez, a policia encontr-lo-ia
deitado nas folhas e iria farejar-me.
- Trinta anos de priso. Trinta anos de priso.
O riso de uma das mulheres que tinham passado
sob a rvore estalou a alguns metros de distncia. Es-
taria mangando de mim? llangando dos esforos que
eu fazia para recuperar os dez centimetros de corda?
Sentia que ia fraquejar, que a corda continuaria a es-
corregar na madeira. Julio Tavares, inclinado para a
irente, balanava. Seu Ivo andava assim, zambeta, ba-
lanando, os olhos vidrados, sem ver ningum. Outras
gargalhadas, longe. Seria a mulher que tinha rido? Ou
viriam outras pessoas falar debaixo da rvore, bater no
ombro de Julio Tavares, pedir-lhe desculpa? No havia
perigo, no havia perigo, entrei a repetir baixinho que
no havia perigo. Estava em segurana, escondido na
folhagem, enrolado no nevoeiro. Podiam passar, parar,
tocar em Julio Tavares, que se afastaria duro como
uma marionete pesada demais.
- No h perigo, nenhum perlgo.
No havia outra coisa. E pareceu-me falta de senso
comum algum rir naquele lugar amaldioado. Porque
amaldioado? Tanta import9ncia! Eu e Julio Tavares
196

ramos umas excrescncias miserveis. As risadas zom-
beteiras extinguiam-se, distantes.
; - Lufs da Silva, Julio Tavares, isso no vale nada.
8ujeitos teis morrem de morte violenta ou acabam-se
nas prises. No faz mal que vocs desapaream. Pro-
priamente, vocs nunca viveram.
Ia adormecer entre as folhas, com os braos esti-
rados, afastando-me da rvore para fazer contrapeso ao
; corpo de Julio Tavares. Apoia,va-me  curva da perna
direita, presa ao galho. De quando em quando soltava
a corda e ia peg-la mais abaixo. A mo esquerda
agentava o peso, os dedos estavam a ponto de que-
brar-se. Julio Tavares teria subido, ou a corda mergu-
lhara no pescoo balofo? Qualquer movimento -toa
me faria perder o equilibrio. Abria os olhos desmedidar
mente, mas tinha medo de virar a cabea para ver o
' o corpo que se alongava e emagrecia.
- Sobe, Julfo Tavares. Para que serve essa resis-
tncia atrasada?
Uma lentido de lesma. Subitamente notei que o
corpo subia e balanava. Passei rpido a corda pelo
galho. Outra volta, outras voltas, um n que me levou
o resto da energia, e fiquei ali arquejando, desmanchan-
do-me em suor. Desejaria achatar-me, confundir-me com
as coisas moles e midas que os meus dedos tinham
esmagado sobre a casca da rvore. Agora os dedos se-
guravam mal aquele suporte incmodo e oscilante. Enor
me preguia e enorme sono prendiam-me ao galho. Creio
que dormi uns munutos. Seria bom cair: talvez a queda
sa,cudisse o torpor e me restitusse a vontade necess-
ria para entrar em casa e embriagar-me. Embriagar-me,
#
naturalmente. Teria dormido? Meus parentes sertanejos
dormiam montados, viajavam assim. Equilibrava-me no
sei como. - "Currupaco, papaco. A mulher do ma-
caco . . . " Vitria sonhava com as moedas escondidas em
qualquer parte, depois que os canteiros tinham sido
descobertos. Como me seria possfvel alcanar outm
ramo? Pa,ssando a outro ramo, estaria em segurana.
8e pudesse retirar-me dali . . . Tive a idia extravagan-
te de chegar  cidade andando sobre as rvores.
- Em segurana, em segurana.
197
Evidentemente era preciso descer, mas isto me apa-
vorava. I embaixo numerosos inimigos iam perse-
guir-me. Necessrio descer. Soltar-me-ia, tombaria como
um macaco ferido. Os dedos inteiriavam-se. Escanca-
rei os olhos. O que vi foi o corpo de Julio Tavares
deformado pela escurido. Balancei a cabea, enco-
lhi-me com um arrepio, o receio de na queda tocar
o corpo de Julio Tavares. No ca. Escorreguei na ma-
deira molhada, abracei-me a ela. Uma pancada no joe-
lho, as pernas estrepando-se na cerc de pau-a-pique,
um rasgo nas calas. Dei um salto para trs e ca
sentado nas folhas secas. A idia do perigo assaltou-me
com tanta intensidade que me pus a soluar. Tentei
levantar-me, as pernas vergaram. Arrastei-me chorando,
apalpando o cho, a procurar qualquer coisa. Procura-
va o chapu, caido na luta, mas no sabia o que pro
curava. As carapans esvoaavam-me em torno da ca-
bea e picavam-me a carne moida. Encontrei um cha-
pu, que no dava para mim, era pequeno demais. Atirei
para longe, cheio de repugn.ncia, o chapu de Julio
Tavares. Continuei a engatinhar, j agora sabendo per-
feitamente que procurava o meu chapu. Achei-o, ma,s
ftcou-me a dvida de que fosse o mesmo experimentado
minutos antes. No se acomodava bem na minha ca-
bea. Rastejei ao longo da cerca. Alguns metros que
me afastasse representavam uma conquista. Estava
aborrecido com Moiss. Que me havia feito Moiss?
No me lembrava de nada, mas era certo que o judeu
me pregara uma pea. Pareceu-me que ele rondava
por ali, mangando de mim. Rastejando como as cobras!
Nova tentativa e consegui levantar-me, l fui caminhan-
do lentamente, amparado  cerca. Faltou-me de repen-
te o amparo, andei como uma criana que ensaia os
primeiros passos. Se pudesse correr... Evidentemente
o perigo crescia. Quantos metros teria percorrido? Es-
tava certo de que homens e mulheres me acompanha-
vam. Tinham passado por baixo da rvore, visto o ho-
mem enforcado, iam encontrar-me e denunciar-me.
A gargalhada e a frase da mulher ufnazavam-me.
- Ser o que Deus quiser, sem dvida.
Um, dois, um, dois. Intil. No podia marchar. Um
aleijado, um velho. Mais cem metros, e talvez fosse
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a salvao. Horrivel atravessar os espaos iluminados.
Se algum desembocasse de uma travessa e me reco-
nhecesse? Desejava olhar para trs. Impossfvel. Conse-
gui reunir uns restos de fora e correr. Uma carreira
bamba e trpega, a boca aberta, contraes na carne
enregelada. Corria e chorava, certo de que o esforo
era perdido, porque o meu chapu tinha ficado  beira
do caminho, sobre as moitas. No dia seguinte passa-
ria de mo em mo e chegaria  minha cabea.
- Trinta anos de cadeia.
Que utilidade tinha aquela carreira desengonada
e trmula? Se me vissem correndo e chorando ali nos
fundos dos quintais? Precisava pa,rar, mas as pernas,
levadas pelo medo, no quiserarrt obedecer. Insuport-
veis os zumbidos e as ferroadas das carapans. Um
chapu muito pequeno. Dei um tropeo e estaquei.
Para que lado me dirigia? Ia para a cidade ou voltava
para Beredouro? Inteiramente desorientado. Teria de
passar outra vez pela rvore onde Julio Tavares se
balanava? Vagar a noite inteira, como um judeu er-
rante! Continuei a andar. Bem. Se me encaminhasse
a Bebedouro, voltaria pela rodagem, entraria em casa
antes do amanhecer. Apareceram luzes, as carolinas que
enfeitam o canal, os eucaliptos da Levada. Avancei len-
tamente at o bueiro, sentei-me. Estava ali um vagabun-
do, que acordou com a minha chegada. Eu ia perse-
guido por criaturas inexistentes, mas a presena da-
quele vagabundo no me produziu medo.
- Boa noite.
A voz saiu-me abafada e incerta. Julio Tavares
estava longe. Sacudi a cabea para esquec-lo e para
afugentar as carapans. Exausto. Descansaria, entraria
em casa dentro de alguns minutos, beberia aguardente,
dormiria. A garrafa tinha ficado quase cheia. Embria-
gar-me, dormir. Tentei cruzar as mos sobre os joelhos
mas os dedos feridos endureciam e qualquer contato
era extremamente doloroso. Sem nenhum receio, dava
as costas ao maloqueiro, escondia a cara instintiva-
#
mente. As mos grossas esquecidas nos joelhos pesavam
em demasia. Levei-as aos bolsos, senti a ausncia dos
cigarros e a ausncia da corda.
- Faz favor de me dar um cigarro?
200
O homem remexeu-se :
- Hum!
- H muitas horas que no fumo. Para quem tem
vicio . . . Desculpe. E a peste do cigarro que me faz
falta. O senhor ter um por acaso?
Olhei-o com um olho por cima do ombro, vi-o
levantar a cabea e bulir nos molambos.
- Realmente. .. E isso mesmo. Eu estava dor-
mindo.
Depois de uma busca. derrorada, grunhiu:
- Ah! Tome l.
Estirei a mo ensangentada e recebi o cigarro de
fumo picado que se desmanchaoa:
- Muito obrigado.
Encontrei a caixa dA fsforos, comecei a fumar.
A cabea pesada parecia ter creseido. Tlrei o chapu,
examinei-o. Tive um susptro de alfvio: era o meu, todo
machucado e sujo de lama. Pus-me a esfreg-lo com
a aba do palet.
- Muito obrigado. Sinto muito dar-lhe incmodo.
- Hem?
Esta exclamao mostrou-me que o homem havia
percebido em mim um animal diferente dele. As luzes
da Nordeste cochilavam. Olhei a minha mupa. Estava
imunda, com um rasgo no joelho, desarranjado. Mas
usava palavras de gente bem vestida. - "8into muito
dar-lhe incmodo." Para que tapeao? Queria fuma,r.
Bem. Voltariam as foras.
- Dorme aqui sempre?
O homem virou-se e enrolou-se mais nos molambos.
Arrependi-me de ter feito a pergunta. Horriveis aqueles
modos. Devia muito ao vagabundo. Chegaria a casa fa-
cilmente, beberia, dormiria,, esqueceria, Julio Tavares.
- No tive inteno de ofend-lo. Foi uma pala-
vra -toa. O senhor me desculpa. Fazia horas que no
iumava. Um grande favor, entende? Muito obrigado.
As minhas frases eram convencionais e no valiam
o cigarro que se apagava a cada instante.
-  estava dormindo, respondeu o maloqueiro.
No tem de qu. Foi incmodo no. Boa noite.
801
Remoeu umas coisas guturais e comeou a roncar.
Impossvel qualquer aproxim.ao. O isolamento em
companhia de uma pessoa era mais opressivo que a so-
lido completa. Parecia-me que aquele homem estava
morto. Esta idia afligiu-me tanto que desejei sacudi-lo,
conversar com ele, explicar-me, convenc-lo de que es-
tava agradecido.
- Diabo! murmurei. Eu tambm fui vagabundo,
dormi nos bancos dos jardins e curti fome, mas nunca
fui assim grosseiro.
Esqueci o benefcio recebido, e novamente me sur-
giu a idia de que o homem estava morto. Levantei-me,
entr ei na Rua do Apolo. O rasgo mostrava-me a ca-
bea do joelho, o colarinho tinha-se desprendido da
camisa, a roupa estava preta de limo e terra, as mos
estavam pretas de limo, terra e sangue. Se algum me
visse em semelhante desordem... O cigarro de fumo
picado findava, a ponta colava-se aos beios e quef-
mava-os. Precisava entrar em casa. Aproximava-me, e
no tinha certeza disto. As distncias desapareciam.
O galho que sustentava Julio Tavares balanava por
cima do bueiro, e Julio Tavares confundfa-se com o
homem qu me havia oferecido o cfgarro. Um, dois, um,
dois. Agora podia marchar. Com algumas pernadas es-
#
taria em casa, mas a casa se afastava sempre. Veio-me
um desnimo extraordinrio. Quase a chegar, depois de
esforos imensos, ia ser descoberto e agarrado. Um
transeunte notaria o desarranjo da roupa, a gravata
fora do lugar, o rasgo no joelho.
- Onde passou a noite de tal dia?
- Em casa, na redao.
Perceberfam logo a mentira. Em seguida viriam
perguntas insignificantes em tom mfsterioso, e eu me
cansaria fnutilmente para desviar-me delas. Quando
estivesse distrafdo, jogariam de novo a cofsa perversa:
- Mas onde foi que o senhor passou a noite de
tal dia?
A testemunha, que me havfa encontrado com um
tasgo no joelho e o colarinho desabotoado, arruma-
ria o seu depoimento de cabea bafxa, em poucas pala-
vras para no cafr em contradio. Quem seria o advo-
202
gado? o dr. Fulano, o dr. Sicrano... Esses falavam de
papo e tinham recursos para inutilizar o depoimento:
- Que horas eram quando o senhor viu o acusado?
- Trs horas.
Quinze minutos depois a mesma pergunta.
- Quatro horas.
O escrivo registraria as duas respostas, a teste-
munha atordoada no se lembraria de dizer que era
impossfvel saber a hora exata em que via passar uma
pessoa na rua, o dr. Ftxlano ou o dr. Sicrano exploraria
a atrapalhao do homem - e a defesa levantaria a
cabea. Apenas eu no podia contratar os servios de
um dos advogados hbeis, contentar-me-ia com um ba-
charel novo, gratuito e desastrado. A acusao ficaria
de p, o interrogatrio rolaria uma eternidade na m-
quina de escrever. Coisas simples, malfcia nenhuma.
Quando eu menos esperasse, surgiria a inteno ruim
- e dai em diante todas as perguntas sriam como
cobras enrodilhadas que se preparavam para armar o
bote. Um, dois, um, dois. No apareceria aquela casa
amaldioada? As luzes da Nordeste subfam e desciam.
Olhei os quatro cantos numa ansiedade, certo de que
a testemunha ia de repente dobrar a esquina e avari-
ar na rua. Viria com passo firme, de cabea baixa.
Quando passasse por mim, levantaria os olhos - e
estaria tudo perdido. Para que ent.o aquele desespero,
aquela agonia?
- Ser o que Deus quiser. O que tem de ser tem
muita fora.
Era melhor voltar. Tive a idia absurda de voltar,
sentar-me outra vez no bueiro, conversar com o va-
gabundo, pedir-lhe outro cigarro. E depois seguir em
frente, sempre em frente, parar debaixo da rvore que
sustentava Julio Tavares. Quando a polcia chegasse,
eu contaria tudo:
- No me matem de fome nem me dem gua
de bacalhau. Eu me explico. Foi assim.
Ninum teria interesse em descobrir incongrun-
cias nas minhas palavras. Voltar, esperar tranqila-
mente as grades midas e pegajosas. Embrutecer-me-ia
por detrs delas, tornar-me-ia criana, ouviria as his-
trias ingnuas de algum Jos Bafa, que me diria as
203
virtudes da orao da cabra preta. Teriam encontrado
Julio Tavares esticado no caminho escuro? Estariam
metendo uma colher na boca de Julio Tavares? No
serto introduzem uma colher de prata na. boca do
homem assassinado - e o criminoso que no sabe ora-
es fica preso: desorienta-se e acaba voltando para
junto da vftima. Outros homens e outras mulheres ti-
nham passado por baixo do galho, cortado a corda,
levado Juho Tavares para uma casa da travessa mais
#
prxima. Estava l o cadver emborcado, com uma co-
iher de prata na boca. E eu regressaria, com medo da
testemunha, que ia aparecer na esquina. Tudo se sumiu
de chofre. A chave rangendo na fechadura, como todos
os dias, devagar para no acordar Vitria, o ferrolho
corrido por dentro, passos abafados no corredor. Che-
guei  sala de jantar s apalpadelas, abri o comutador
e fiquei ao p da mesa, piscando os olhos  luz. Tive
um arrepio, os cabelos se levantaram, sentf uma dor
agda no couro cabeludo. Tirei o chapu e pus-me a
escov-lo com a manga. Era o meu, sem dvida. Voltei
 sala e fui pendur-lo ao cabide. Puxei a corrente da
lmpada, olhei-me ao espelho. Diferente, magro, velho,
as plpebras empapuadas, rugas, terra seca na barba
crescida.
- Peste! Andef rolando pelo cho como um porco.
Os olhos, ordinariamente embaciados, tinham um
pequeno brilho duro. Apaguei a luz e dirigi-me nora
mente  sala de jantar. Lembrei-me da garrafa de
aguardente, mas quando fa peg-la, senti a necessidads
de lavar as mos. Estava imundo e receava contaminar
os objetos. Tomei um pedao de papel, segurei com
ele o ferrolho e abri a porta do quintal. Fui ao ba-
nheiro, meti as mos no balde de gua e lavei-as,
muito lentamente porque as feridas comeavam a doer
em demasia. Deitei fora a gua, mergulhei o balde no
tanque e recomecei a lavagem. Enxuguei as mos nos
cabelos, voltei para a sala de jantar, bebi um pouco
de aguardente. A garrafa estava quase cheia. Bebi outro
gole, mas o meu desejo era tornar ao banheiro. Os
cabelos estavam sujos e tinham sujado as mos. Lem-
brei-me de ter posto na cabea o chapu de Julio
Tavares. Lembrana intolervel. Fui ao quarto, descal-
204
    Este livro foi digitalizado por Paulo Srgio Resende de Almeida, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..
cei-me, despi-me s escuras, deixei a roupa e os sapa-
tos numa trouxa a um canto, aga.rrei a toalha e voltei,
nu, meio atordoado pelo lcool. Achei na borda do tan-
que um pedao de sabo ordinrio e esfreguei cuida-
dosamente as mos e os cabelos. O corpo todo estava
sujo, mas o que mais me preocupava eram os cabelos
e as mos. O banho durou uma eternidade. Que hora,s
seriam? No me viera a idia de olhar a parede da
sala de jantar. A cabea comeou a pesar-me. Bem.
Ia dormir como um porco. Certamente . . . Dormir como
um porco. Banhava-me devagar, para no fazer ba-
rulho. Se os vizinhos ouvissem as pa.ncadas de gua
no cimento? Uma culpa grave. Se fosse descoberto,
infelicidades me chegriam. Todos os gestos eram
culpas graves. Pisava como um gato. Talvez no ba-
nheiro prximo estivessem pessoas esconddas. Que hora3
seriam? A cabea pesava. Certamente... Sim, certamen-
te era preciso dormir, ajudar a noite que no queria
acabar. Tinha topado num buraco enorme, ia caindo
nele, mas conseguira escapar agarrando-me s estaca.i
de uma cerca e metendo as mos na terra fofa. Esfre-
gava os dedos. Para l daquele buraco escuro havia
um nevoeiro. Marina, d. Adlia, seu Ramalho, Julio
Tavares, tudo era nevoeiro. Enrolei-m na toalha e vol-
tei  sala de jantar. Em cima do guarda-comidas en-
contrei cigarros e fsforos. Bem. Agora estava limpo.
Acendi um cigarro e bebi mais aguardente. Queria em-
bebedar-me e dormir, mas tive a idia de que s pode-
ria dormir sentado, encostado  parede. A cama estava
suja, tinham-se espojado nela criaturas que se agatar
nhavam com raiva, babando, uivando. Trs pancadas.
Olhei a parede, mas no consegui distinguir as letraa
e os ponteiros. Aproximei-me, estirei o pescoo para o
mostrador, fiquei nas pontas dos ps. Pensei em Cirilo
de Engrcia e recuei at a mesa sem ver as horas. Com
os diabos! Tinha ouvido distintamente trs pancadas.
Enchi o copo e continuei a beber. Aproximei-me nova-
mente da parede: uma neblina diante do mostrador.
Felizmente agora estava fumando, quase tranqilo.
Teria ouvido as trs pancadas? Ento aquilo tinha
acontecido de meia-noite a trs horasl A marcha ao
longo da linha de bonde, a volta, a necessidade de
205
tumar, a escurdo cheia de zunzum das carapans,
aquela coisa terrvel - tudo de meia-note a trs horas.
Sentei-me, deitei fora o cigarro apagado, acendi outro
e pus-me a esgaravatar as unhas com o fsforo. As
unhas dofdas iam-se entorpecendo. Olhei-as, mas entre
os olhos e as mos havia um nevoeiro que engrossava.
As paredes tornaram-se inconsistentes. Fechei os olhos,
encostei a cabea  mesa, remexi os dedos com o fs-
foro queimado. Um rumor enchia-me os ouvidos, burbu-
rinho que ia crescendo e me dava a impresso de que
a casa, a cidade, tudo, caa lentamente. As paredes se
desmoronavam como pastas de algodo. E no rudo con-
fuso surgiam sons que me arrastavam  realidade:
o tique-taque do relgio, o apito do guarda-civil, o can-
to de um galo, um miar de gato no telhado. Essas
notas familiares me exasperavam. Queria deixar-me em-
balar pelo rumor abafado e dormir. Impossvel. Os
dedos agitavam-se despedaando o fsforo. Levantei a
cabea, arregalei os olhos e novamente cheguei a eles
os dedos, que desapareciam no nevoeiro. Ergui-me, dei
uns passos cambaleantes. O burburinho morreu: o que
se ovia era a respirao de Vitria. Fechei os olhos
com fora, tornei a abr-los. O nevoeiro adelgaou-se:
as mos esfoladas e grossas, terra nas unhas. Tomei
outro fsforo e recomeci a limp-las. Em seguida fui
ao banheiro lav-las, livr-las daquela porcaria. Voltei
desanmado, enxuguei as pontas dos dedos tempo sem
#
fim. Provavelmente no conseguiria dormir. Um, dois,
um, dois. Eram as pancadas do nndulo, mas eu pen-
sava em marchas. Olhei a porta aberta. Vi apenas um
buraco escuro, mas era como se visse a luz do farol
espalhando-se sobre a folhagem da mangueira. Estre-
meci. Os galhos iluminados de vermelho, de branco. Que
loucura ter deixado aquela porta aberta! Se algum,
oculto entre as folhas, me espiasse? Fechei a porta. Es
tava em segurana. Tentei encaminhar o pensamento
para coisas simples e ordinrias, mas estas coisas fu-
giam, truncavam-se. Em segurana. Quantos dias falta-
vam para receber o ordenado? Precisava dar uns dI-
nheiros a Moiss. Pimentel tinha-me pedido um artigo
sobre . . . Sobre qu? Lobisomem agora trazia sapatos
novos. D. Roslia e o marido estariam dormindo? To
206
tarde... O marido de d. Roslia chegara do interior.
Dar uns cobres a Moiss sem dvida, quando recebesse
0 ordenado. Um artigo para Pimentel. Os sapatos de
Lobisomem. O marido de d. Roslia com certeza estava
cansado e dormia. Eu tambm estava cansado, mas no
podia dormir. Enxugava as mos entorpecidas, lenta-
mente, e quase no sentia as escoriaes. Dei uns passos,
estaquei. Que ia fazer? Avancei at o corredor. Uma fe-
licidade no pensar, andar assim trpego como um
papagaio. Fui fechar a porta da cozinha, devagar para
no acordar Currupaco, que dormia com a cabea de-
baixo da asa. De repente estranhei achar-me ali em
p, nu, com a toalha no ombro, enxugando os dedos.
Dormir, acabar aquela noite imensa. Bebi o resto da
aguardente. O estmago contraiu-se, embrulhado, o pes-
coo entortou-se, a boca encheu-se de saliva. Senti que
ia vomitar, encostei-me  mesa para no cair. Fechei os
olhos - e o burburinho recomeou. Pancadas na porta
da frente. Abri os olhos numa agonia. O suor corria-me
pela cara, ensopava a toalha, no havia jeito de es-
tanc-lo. Teriam realmente batido na porta? Ia arras-
tar-me, bambeando, p aqui, p acol, at o quarto,
vestiria o pijama aos tombos, engulhando, arrotando.
Quem seria?
- Estava lendo, fumando, bebendo. Falta de sono.
 costume velho, entende? No sei nada. Estou aqui h
muitas horas assim.
Poderia falar? Quem teria batido? S se ouviam
os roncos de Vitria, o tique-taque do relgio e o chiar
dos ratos. O estmago embrulhava-se, o suor corria,
a boca era pequena para conter a saliva. Quem estaria
l fora, na calada? O relgio bateu meia hora e depois
quatro. No me lembro de ter feito nenhum movimento
na derradeira meia hora, mas quando veio a primeira
pancada eu estava de p, quando soaram as quatro
estava sentado, o queixo encosta.do  mesa. Levantei-me,
dirigi-me ao quarto, firmando-me s paredes, tombei na
cama, pesado, como um morto.
* * *
207
-  Vitria, faa o favor de ir aZf  esquina, ouviu?
Telefone  repartio, diga que no vou ao servio hoje.
Estou doente.
Quando ela saiu, deitef no saco a roupa branca
que tinha vestido na vspera. Em seguida escondi o
palet e a cala rasgada debaixo do colcho.
Se dessem busca na casa? Fi remexer o saco, ver
se na roupa branca havia sinais que me pudessem
comprometer. O palet e a cala no estavam bem
escondidos. Pensei em queim-los, enterr-los. Levan
tef o colcho, tirei-os. Sujos de lama. No podiam
ficar ali. Se fossem descobertos? Atirei-os para trs
da mala, apanhei do cho a gravata e iui para a sala
de jantar.
#
- Telefonou, Vitria,?
- Telefonei.
- Muito obrigado. E que estou com febre, morrf
nhento. Que h de novo?
- Um senador que chegou do Rio.
- Est bem.
Bebi uma xicara de caf, procurei uma tesouri-
nha e pus-me a cortar as unhas, que ainda tinham
terra. Estava com febre e aturdido pela cachaa.
-  Vitria, se no estiver muito ocupada, leve
a roupa  lavadeira, ouviu? Preciso camisas.
Vitria afastou-se e daf a pouco saiu com uma
trouxa de roupa suja. A porta da frente abriu-se e
fechou-se. Acabei de cortar as unhas arroxeadas. As
mos engrossavam e deformavam-se, a direita com
uma esfoladura na palma, a esquerda cheia de fibras
de madefra, que extra com a ponta da tesoura. A
gravata estava enrolada, como uma corda, exatamen-
te igual a todas as gravatas que tenho tido, mas sen-
tf a necessidade de destruf-la. Cortei-a em pedacf-
nhos, que desfiei, juntando os fios em cima da coxa.
Vitria, arrastando os ps, ficaria muito tempo na
rua. Dediquei-me nervosamente a desfiar os pedaos
da gravata. Tossia e limpava os olhos, que lacrime
javam. Uma felicidade estar com febre. Os rumores
externos eram os mesmos de todos os dias. D. Ros
lia despropositava com Antnia, d. Adlia cantava no
banheiro, o trem passava apitando, automveis e
208
bondes rolavam longe. Desejei ver seu Ivo, pensei em
oferecer qualquer coisa a seu Ivo. Isto me aliviaria.
As alfaces no canteiro amarelavam. O homem triste
enchia dornas. A mulher magra agitava garrafas e
sacolejava-se como se tocasse ganz. Nenhuma nov.'-
dade. Moiss e Pimentel me seriam desagradveis na-
quele momento, mas a companhia de seu Ivo me
daria prazer. Subitamente imaginei que o homem tris-
te e a mulher magra me espionavam. Afastei a cadei-
ra para no ver o homem que enche dornas e a mu-
lher que lava garrafas, continuei a tarefa. Quando a
terminasse, ficaria tranqilo. Cortaria depois a cala
e o palet em pedacinhos que seriam desfiados. Fica-
ria inteiramente tranqilo. Nenhuma novidade. Ape-
nas a viagem de um senador desconhecido. Tranqi-
lo. Deitar-me-ia, descansasia. De minuto a minuto
suspendia o trabalho para enxugar os olhos, e a umi
dade que havia no leno era quente demais. Respira-
va com dificuldade, o corpo se derreava na cadeira,
bocejos enormes. Compreendia que o exerccio a que
me entregava era intil, perigoso talvez. Se algum
entrasse de repente e me visse desfiando pedaos de
pano? Mas continuava a desfi-los  pressa, e escon-
dia o molho de fios entre as pernas. Vitria no che-
gava. Com certeza a comida ia esturrar. Que estur-
rase. Podre de rica, Vitria: prata, libras esterlinas.
Tentei pensar nas moedas. Impossvel. No acabaria
a destruio da gravata? Sentia um medo horrvel e
ao mesm tempo desejava que um grito me anuncias-
se qualquer acontecimento extraordinrio. Aquele si-
lncio, aqueles rumores comuns, espantavam-me. Se-
ria tudo iluso? Findei a tarefa, ergui-me, desci os
degraus e fui espalhar no quintal os fios da gravata.
Seria tudo iluso? Voltei, atravessei o corredor, cha-
guei  sala, olhei a rua pelas tabuinhas da rtula. Urr.a
das filhas de Lobisomem mostrou a cabea arrepiada.
Antnia passou com o filho mais novo de d. Roslia
pela mo, uma bicicleta rodou no paraleleppedo. Enxu-
guei os olhos. A cabea doa-me. Encostei os cotovelos
 janela. Entre duas tabuinhas afastadas distinguia a
cara amarela, os olhos abotoados e os cabelos ruivos
#
da filha de Lobisomem. Pelas outras tabuinhas s per-
209
cebia os ps dos transeuntes. Iam e vinham, ocupados.
Todos os dias acontecem desgraas. Estava doente, ia
piorar, e isto me alegrava. Deitar-me, dormir, o pensa-
mento embaralhar-se longe daquelas porcarias. Senti
uma sede horrivel. Os beios secos, queimados, ra-
chavam-se. Evidentemente a sede tinha horas, mas s
ento me apareceu clara a necessidade de beber gua.
Quis ver-me ao espelho. Tive preguia, fiquei pregado
 janela, olhando as pernas dos transeuntes. Esfregaei s
cara com a mo estragada. Os plos duros feriram-me
a palma em carne viva.
- Todos os dias nasce gente, morre gente. Isso
no tem importncia.
Repetia frases assim e soprava a palma ferida, mas
no prestava ateno ao que dizia, pensava em coisas
diferentes, em muitas coisas que se misturavam. a
haver uma escurido, uma desordem. Parecia-me que
os acontecimentos subiam e desciam numa panela, fer-
vendo.
- Em segurana.
Com os cotovelos presos  janela, olhava a rua e
tremia. Morto de sede, no me aventurava a tirar-me
dali. As pernas fraquejavam, bambas. As que andavam
na rua atravessavam o minguado espao que a minha
vista alcanava, eram bem vestidas, rotas, nuas - e isto
me bastava para adivinhar as caras. Iam lentas ou
apressadas, ignoravam a existncia de outras que gira-
vam, encostando as pontas dos ps no cho coberto de
folhas secas. Duas pernas pararam no meio da rua,
voltaram as biqueiras dos sapatos para o meu lado.
Olhos atentos, sob a mo em pala na testa, deviam
estar observando o nmero da casa. Isso durou um
minuto. As biqueiras avanaram em direo a mim.
Descobriram-se os joelhos das calas ord.nrias e sur-
radas. Provavelmente era um investigador, um desses
homens que freqentam os cafs, escutam conversas e
fogem como sombras, olhando por baixo da aba do
chapu embicado. Ia aproximar-se macio, bater pal-
mas discretamente para no atrair a ateno dos vi-
zinhos :
-  de casa!
210
Eu me afastaria da janela, arrastando as pernas
que pesavam arrobas, iria abrir a porta. Perguntas sem
p nem cabea, uma busca na casa; a roupa machu-
cada e rasgada atrs da mala, as minhas mos feridas,
as unhas roxas, provocando suspeitas que s acumula-
vam e viravam certeza. Eu me atrapalharia logo e
diria o que o sujeito quisesse. No seria preciso me
darem gua de bacalhau. A garganta ardia-me, passei
a lngua seca nos beios gretados. Agua de bacalhau,
dias de fome, noites em claro, um tipo martelando
horas a fio:
-  bom o senhor contar. Para que esconder? Tudo
se descobre. Confesse.
Eu arriaria a trouxa com facilidade. Tudo se des-
cobre, sem dvida. Que papis haveria nos bolsos da
roupa que estava atrs da mala? Bilhetes de dr. Gou-
veia, correspondncia do interior, a carteira vazia, artf-
gos manuscritos, recortes de jornais. Se algum desses
papis tivesse cado na estrada? Perdido, trinta anos
de cadeia, a imundcie, os trabalhos dos encarcerados:
fabricao de pentes, esteiras, objetos midos de tarta-
ruga. Faria um livro na prio. Amarelo, papudo, faria
um grande livro, qu? seria traduzido e circularia em
mnitos pases. Escrev-lo-ia a lpis, em papel de embru-
Iho, nas margens de jornais velhos. O carcereiro me pe-
diria umas explicaes. Eu responderia: - "Isto  assim
#
e assado." Teria considerao, deixar-me-iam escrever o
livro. Dormiria numa rede e viveria afastado dos outros
presos. A garganta doa-me, os beios colavam-se. Pre-
cisava beber gua e pensava no caldo de bacalhau. Con-
fessaria tudo, mostraria  roupa rasgada, os bilhetes.
as ca.rtas, os artigos. Os olhos pestanejavam, e chora-
vam lgrimas quentes que eu enxugava na manga. No
podia ver bem a rua. As pernas teriam marchado para
mim ou estacionariam no paralelenpedo, indecisas?
Tanto tempo a ameaar-me com as biqueiras dos sapa-
tos cambados e as joelheiras das calas ordin,rias! As
biqueiras volveram  esquerda e sumiramjse. No era
gente da polfcia: seria talvez um servente de casa co-
mercial, carregado de embrulhos, distribuindo xnercado-
rias Provavelmente conduzia troos para d. Mercedes e
estava em p na calada, batendo palmas. D. Mercedes
211
vinha devagar, cheirosa, o peignoir exibindo o peito ma-
duro. Recebia os pacotes, dava uns niqueis ao carrega-
dor, entrava, ia desatar os cordes e examinar as com-
pras. Entre as duas tabuinhas mais afastadas da rtula
vi de novo o rosto espantado da filha de Lobisomem.
Porque se espantava? No havia motivo. Zizdo em ordem
na rua. A barriga e as pernas de um homem passaram
na calada e pararam  porta de d. Roslia. Alguns
rapazes dirigiam-se ao Colgio Diocesano. Um moleque
de tabuleiro deu um grito estridente que me assustou.
Evidentemente... A rua sossegada, como nos outro5
dias. O grito do moleque continuava a furar-me os ou-
vidos. Evidentemente . . . Que  que ia dizer? O pensa-
mento partia-se. Ia cair de cama, delirar, morrer. A car-
ne estremecia, os ps dos cabelos doam-me. De quando
em quando levava.-a mo ao rosto, e o contato da palma
com a barba crscida arrancava-me palavres obscenos
grunhidos em voz baixa. Um porco, pareca um porco.
Esta comparao no me entristecia. Desejava sr
comn as bichos e afastar-me dos outros homens.
As mos dofam-me, as pernas doam-me, os ps dos
cabelos doam-me. No queria imaginar o que aconte-
ceria l fora, o que tinha acontecido. Fatos possveis
misturavam-se a coisas absurdas. Evidentemente. . . Esta
palavra solta, repetida, enfurecia-me. Pouco a pouco
serenava. Seu Ramalho, no meio das conversas, dizia:
- "Eu lhe conto." E no contava nada. D. Adlia cen-
surava a filha com um gemido: - "Hum! hum!" AntB-
nia dava uma ri.sadinha ruim e piscava um olho: -
"Safada moda." Agora a rua estava em silncio. Noutra
rua havia lgrimas, desespero e cablos arrancados. Um
mdico vestia o avental, chegava-se ao mrmore do ne-
crotrio. O homem dos caixes d defuntos preparava
coroas de flores roxas, muitas coroas de flores roxas
com fitas roxas. Onde andaria Vitria? Surda, a cabea
cheia de moedas e navios, arrastando-se petas bodegas.
UIna senhora gorda e mole, com os sovacos molhados,
chorava noutra rua. Fuf ao quarto, levantef a roupa
cada atrs da mala, estendi-a em cima da cama, exa-
minei o joelho rasgado, as bainhas pudas, a gola em-
branquecida. Machucada, suja de poeira, lama seca e
teias de aranha. Cort-la ia em pedacinhos, que seriam
212
i desfiados e atirados ao monturo. Procurei uma escova
! e pus-me a limpar os trapos. De momento a momento
supendia o trabalho e soprava a mo ferida. Estu-
pidez deixar aquilo no cho, entre a mala e a parede.
I Bem. Agora os panos estavam quase decentes. Algu-
mas pancadas na porta gelaram-me o sangue. Cai sen-
tado na cama. Tudo perdido. L estava o sujeito da
policia com o chapu embicado. Olhei o rasgo do
joelho, as mos grossas. Dificil dobrar os dedos. E
nas costas da mo direita, a mais estragada, corria um
#
trao largo que escurecia. Ao amanhecer estava ver-
melho, mas agora ia ficando azulado. Enfim tudo per-
dido. Era sair, entregar-me, contar a histria botando
i os pontos nos . Faria um livro na pri.o, estudaria,
arranjaria camaradagem com dois ou trs presos man-
sos. Habituar-me-ia. A gente se habitua em toda a
! parte. Dorme  beira das estradas, nos bancos dos
jardins. Depois de meia-noite as. letras midas dan-
avam na prova molhada, a saleta da reviso enchia-
se de fantasmas, a gente lia cochilando, emendava
cochilando. Um galego dava ordens aos berros. Nas
xnesinhas estreitas, forradas com papel de impresso,
as vozes esmoreciam, as canetas sujas, nojentas, ca-
lavam-se. Vida porca, safada. Agora estava menos por-
ca e ma,s safada. Adulaes, medo de perder o empre-
go, de voltar s estradas,  caserna, aos bancos dos
jardins,  mesa da reviso. O suor molhava-me o pes-
coo, a vista escurecia, a memria dava saltos, a res-
pirao encurtava-se. Uma lembrana vaga de cavalos
perseuia-me. Onde teria eu visto aqueles cavalos? Nun-
ca fui cavaleiro, nunca montei direito. Uma queda na
pedras do Ipanema ia-me desmantelando. Era estranho
que aqueles animas viessem perturbar-me. Fazia um
minuto que o homem da polcia tinha batido. Sentado
na cama, suando, tossindo, as mos esfoladas, nco
lhia-me. Os animais aperreavam-me. A princfpio no
conseguira distingui-los. Era um tropel distante, rumor
que se confundia com a cantiga dos sapos do aude
da Penha e o zumbido das carapans. gora percebia
que eram cavalos correndo. Novas pancadas. Levan-
tei-me, cheguei  porta do quarto, estirei a cabea. Um
213
maloqueiro, um vagabundo que pedia esmola. Enfure-
ci-me e gritei:
- Puta que o pariu.
Estar um homem em casa, sossegado, escovando
a roupa, e de repente pancadas, amolaes, peditrios.
- Isso tem cabimento? D o fora, vai para o diabo.
Pus o palet no encosto de uma cadeira, dobrei
a cala, ocultando a parte rasgada, e coloquei-a em cima
da mala.
- Onde vamos parar com tantos mendigos? Isso
tem jeito?
O quarto estava como nos outros dias. O meu desejo
era deitar-me, mas fui  sala de jantar, ainda bastante
zangado:
- Canalhas, preguiosos.
Derreei-me na cadeira, um peso enorme nos braos:
- Safados.
No me referia apena.s aas maloqueiros. De quando
em quando passava a manga do pijama nos olhos mo-
lhados. E soprava a palma ferida, mas o ar saa quente
e a dor no diminuia. Esse movimento de soprar a mo
quase encostando-a  boca fez-me pensar nos gatos.
Ia adormecer, perder a conscincia. As coisas afasta-
vam-se ou aproximavam-se d maneira absurda, as pa-
redes moviam-se. No ter conscincia. Soprava a mo.
Ser como um gato que lambe os ps.
Que direito tinha aquele bandido de me vir inco-
modar quando eu estava ocupado, escovando a roupa?
Ento no pode um homem pr em ordem os seus
troos sem ser perturbado.
- Isto  casa de puta para qualquer um bater
e entrar?
Porque era que o vagabundo me havia enganado
fazendo-se passar por gente da polfcia? Dentro em pou-
co outras pancadas me esfriariam o sangue, num se-
gundo rolariam multides de pavores. Ttxdo se repetiria
- as mesmas caras, as mesmas perguntas, as mesmas
ameaas, o julgamento, discursos, a escurido entre qua-
#
tro paredes, portas de ferro, fechaduras enormes, ferro-
lhos enormes. Levantar-me-ia, atravessaria o corredor
como se me arrastassem. Outro vagabundo, um vende-
214
dor ambulante, qualquer pessoa levada por endereo
errado:
- No  aqui no. Desculpe.
Voltarfa para junto da mesa, aguardaria novas
pancadas, novas torturas. Porque no se acabava logo
aquilo? Bati com a mo na mesa e isto me arrancou
um grito que abafei e se transformou em praga imunda.
Porque no me vinham buscar os miserveis da polcia?
Porque faziam comigo aquela brincadeira de gato com
rato? Eu os acompanharia, mostraria a roupa rasgada,
os fios da gravata no monturo, falaria no cigarro ofere-
cido pelo vagabundo. Porque no vinham logo? Muitos
anos nas redes sujas, nas esteiras de pipiri. Escreveria
um livro. A idia do livro aparecia com regularidade.
Tentei afast-la, porque realmente era absurdo escrever
um livro numa rede, numa esteira, nas pedras cobertas
de lama, pus, escarro e sangue. Olhava as telhas, move-
dias, a garrafa de aguardente, movedia. O livro s
poderia ser escrsto na priso, em cima das pedras, na
esteira, na rede, sob as cortinas de pucum. Um livro
escrito a lpis, nas margens de jornais velhos. Os obje-
tos deformavam-s. A janela e a porta do quintal,
a porta da cozinha e a do corredor estavam cheias de
gente. Estirei o pescoo, observei o homem que enche
dornas e a mulher que lava garrafas. Retra-me. Em
vez de se entregarem ao trabalho, eles me espionavam.
O movimento de estirar o pescoo para v-los era hor-
rvel. O que mais me doa eram os braos, principal-
mente as mos. Encolhi o pescoo, tentei met-lo no
corpo. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do pn-
dulo. No prestava ateno a elas durante o dia. A noite
percebiam-se bem, mas de dia, com o barulho que vinha
de fora, no havia relgio. Como Vitria se demoraval
O galope dos cavalos no me saa dos ouvidos, crescia
,
como se avanasse no paraleleppedo. Donde vinham
aqueles cavalos? A cabea tombou num cochilo. Apru-
mei-me, bocejei, estirei os braos doloridos. Recostei-me
na cadeira e cerrei os olhos. Passei a lngua seca como
lfngua de papagaio pelos beios gretados e cobertos de
pelculas. Arrastei-me at a moringa, bebi alguns copos
de gua. Tantas horas com a garganta pegando fogo,
suportando aquilo inutilmente. Com certeza a febre ia
215
crescer. O corpo morrinhento pedia cama. O rumor das
carapans misturava-se ao tropel dos cavalos. Achei-me
sentado, murmurando pala,vras desconexas. O suor cor-
ria entre os plos da barba. Passei o leno na cara e no
pescoo, mas retirei logo a mo.
- Sou uma pessoa muito hbil.
Os cavalos tinham agora um trote macio que no
se distinguia da msica das carapans. Aborrecia-me
saber que os cavalos no existiam, as carapans no
existiam, os indivfduos que atravancavam as portas
no existiam.
- Uma pessoa muito hbil.
A roupa molhada colava-se ao corpo. A sede voltou,
bebi outro copo de gua. Pensei em fumar e isto me
produziu um estremecimento. Mas ento? Um sujeito
hbil, sem dvida. Tudo muito direito. Na casa de
d. Roslia as crianas gritavam e Antnia lavava a
loua. Na casa de seu Ramalho d. Adlia varria a sala
de jantar. Ouvia-se o chiar da vassoura. Pancadas de
pratos, gritos de crianas, risos, pragas.
- Um sujeito hbil.
Que burrice repetir isso! Estirei a cabea cautelosa-
#
mente. A mulher magra e o homem triste dedicavam-se
s suas ocupaes e no me viam. Uma criatura ordi-
nria, um funcionrio que faltava  repartio. Vitria
voltou, mas isto no teve importncia. As carapans
e os cavalos preocupavam-me demais para prestar aten-
o a Vitria. Um funcionrio. Pus-me a rir como um
idiota. Continuaria a escrever informaes, a bater no
teclado da mquina, a redigir artigos bestas. - "Per-
feitamente." O sorriso sem-vergonha concordando com
tudo. - "Perfeitanente." No tinha praticado nenhu-
ma faanha, no tinha conversado com o vagabundo,
na vspera. Eu? No quarto pequeno junto  escada,
o cheiro do gs era insuportvel. Andavam percevejos
no papel da parede, manchado e descolado. Aborre-
cia-me o estudo cacete de Dagoberto. Mas quando ele
empurrava a porta, jogava na cama a cesta e o com-
pndio, acovardava-me, sorria, abria o livro ou pegava
0 osso e comeava a amolao. - "Perfeitamente, Da
goberto." Para que diabo me servia conhecer as vrte-
bras e o frontal? No fa ser mdico. Mas lia, para no
216
desgostar o rapaz. Olhei a garrafa de aguardente, vazia,
pensei em seu Ivo, em seu Earisto e em Cirilo de
Engrcia. Com os braos esmorecidos sobre a mesa,
via as paredes afastarem-se, as telhas subirem e des-
cerem. Ia dormir, descansar, tresvariar. Levantei-me de
chofre. Um rebulio na casa de seu Ramalho. Fui encos-
tar-me  parede. Critos, o cabo da vassoura batendo no
ch.o, risos nervosos e a fala morna de d. Adlia:
- Quem faz neste mundo paga  aqui mesmo.
Quando Deus tarda, vem em carninho.
Olhei os quatro cantos. No tinha nada com
aquilo. Ia trancar-me, enrola.r-me nos lenis, tremer,
ranger os dentes como um caititu. No tinha nada com
aquilo. A garrafa de aguardente estava vazia. As cara-
pans zumbiam. O vagabundo me dera um cigarro.
A mulher tinha dito : - "Deixa de luxo, minha filha.
Ser o que Deus quiser." Eu ficava afastado de tudo.
Afastei-me da parede e arregalei os olhos para a mu-
lher que lava garrafas e o homem que enche dornas.
No tinha nada com aquilo. - "Um artigo, seu Lus."
Seu Lus escrevia. - "Perfeitamente, Dagoberto." Eu?
As telhas danavam, era extraordinrio que se pudes-
sem equilibrar, no viessem espatifar-se no cho, ba-
ter-me na cabea.
- No fui eu, gritei recuando e tropeando na ca-
deira.
Os cabelos arrepiavaxr-.se, um frio agudo entrou-me
na carne, os dentes tocaram castanholas. Nada havia
acontecido comigo. Senti-me vtima de uma grande in-
justia e tive desejo de chorar. Vieram-me lgrimas,
que esmaguei. Eu estava de parte, ouvindo o zunzum
das carapans.
- No fui eu. Escrevo, invento mentiras sem difi-
culdade. Mas as minhas mos so fracas, e nunca rea-
lizo o que imagino.
Olhei as mos. Pareceram mais curtas e mais largas
que as mos ordinrias que escreviam artigos elogiando
o governo. Os dedos inchados eram mais curtos e mais
grossos. Necessrio fechar as tortas. Outro agabundo
riria bater e confundire cm o homem da policia.
21?
Os braos dofam-me, as mos penduradas dofam-me.
Cruzei os braos, fui  cozinha. Vitria cortava carne
em cima da mesa preta.
- Vitria, estou sem fome, ouviu?
A mesa preta do necrotrio. O mdico, de avental.
Numa rua afastada, uma mulher chorando. As minhas
mos em carne viva.
- Estou muito doente, Vitria. No quero almo-
#
ar. D a bia a algum maloqueiro que aparecer por a.
E feche as portas depois. Vou deitar-me, no me agen-
to nas pernas.
i  
A rstia descia a parede, viajava em cima da cama,
saltava no tijolo - e era por ai que se via que o tempo
passava. Mas no tempo no havia horas. O relgio da
sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas
que eu me estirava no colcho duro, longe de tudo. Nos
rumores que vinham de fora as pancadas dos relgios
da vizinhana morriam durante o dia. E o da estava
dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma
cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede.
Depois, a escurido cheia de p_ ancadas, que s vezes
no se podiam contar porque batiam vrios relgios
simultaneamente, gritos de crianas, a voz arreliada de
d. Roslia, o barulho dos ratos no armrio dos livros,
ranger de armadores, silncios compridos. Eu escorre-
gava nesses silncios, boiava nesses silncios como numa
gua pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo,
voltava  superfcie, tentava segurar-me a um galho.
Estava um galho por cima de mim, e era-me impossivel
alcan-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para
empre, fugir das bocas da treva que me queriam mor-
der, dos braos da treva que me queriam agarrar.
O som de uma vitrola coava-se nos meus ouvidos, aca-
riciava-me, e eu diminua, embalado nos lenis, que se
transformavam numa rede. Minha me me embalava
cantando aquela cantiga sem palavras. A cantiga mor-
ria e se avivava. Uma criancinha dorm?ndo um sono
curto, cheio de estremecimentos. Em alguns minutos a
criancinha crescia, ganhava cabelos brancos e rugas.
No era minha me a cantar: era uma vitrola distante,
218
to distante que eu tinha a iluso de que sobre o disco
passeavam pernas de aranha. Um disco a rodar sem
interrupo a noite inteira. No. Estvamos na segun-
da parede, e eu subia a parede, acompanhava a rstia
como uma lagartixa. Marasmo de muitas horas, solu-
o de continuidade que se ia repetir. Cairia da pa-
rede, como uma lagartixa desprecatada, ficaria no cho,
mofdo da queda. Quem teria entrado no quarto durante.
a inconscincia prolongada? Moiss e Pimentel teriam
vindo? Seu Ivo teria vindo? Lembrava-me de figuras
curvadas sobre a cama. No eram os meus amigos.
Eram tipos de caras esquisitas, todos iguais, de bocas
negras, lnguas enormes, grossas e escuras. Quantos
dias ali no colcho spero, como um defunto? Um ho-
mem sem rosto, sentado na cadeira onde tinha ficado
o palet, falava muito. Que dizia ele? Esforava-me por
entend-lo, mas tinha a impresso que o visitante usava
lngua estrangeira. Era como se me achasse num ci-
nema. Apenas compreendia de longe em longe algumas
palavras. Cansava-me e desejava que o homem se fosse
embora. No percebia que me importunava, que me
obrigava a esforos enormes para entender uma lfngua
estranha? O desconhecido continuava a falar. Eu subia
a parede novamente e corria atrs da rstia. Cairia no
tijolo outra vez, achatar-me-ia ouvindo o monlogo in-
compreensvel. Receava que o homem sem rosto me jul-
gasse estpido. Queria dormir, arregalava os olhos e
abria os ouvidos. Certamente dizia coisas sem nexo, e o
desconhecido me chamava imbecil, com palavras in-
gl.esas. Um buraco ao p de uma cerca. Eu tombava
no buraco, ia descendo lentamente. E, enquanto descia,
encontrava no caminho muitas flores que desciam tam-
bm, sem peso, como flocos de algodo. Subia, era
como se o meu corpo se transformasse em nevoeiro.
Tornava a descer, tornava a subir, as flores caam sem-
pre numa chuva silenciasa. As flores no me davam
#
nenhum prazer. Desejava livrar-me delas, interromper
aquelas viagens para cima e para baixo, andar na terra.
Escancarava os olhos. O homem sem rosto havia desa-
parecido, e eu tinha agora um livro aberto sobre o col-
cho. No sabia quem me trouxera o livro, se ele sur
gira antes ou depois da visita. As letras saam dos luga.
219
res, deixavam espaos em branco, espalhavam-se numa
chuva silenciosa. Apertando as plpebras, esfregando-as,
aproximando e afastando o papel, conseguia conter a
disperso. Impossvel adivinhar o sentido de uma pala-
vra. Lngua estrangeira, to estrangeira como o soli-
lquio montono. Sem memria, um idiota. Chorava.
batia com a cabea no ferro da cama, puxava os ca-
belos. Olhava as mos. As unhas crescidas e sujas,
a escoriao da palma secando e cicatrizando, os dedos
' compridos, escuros, com uns ns muito grossos. Sem
 memria. Que teria acontecido antes? A confuso se
dissipava, a rstia avanava no tfjolo, trepava na ca-
deira onde o homem se tinha sentado, ganhava o pa-
let estendido no encosto. O palet me espiava com um
olho amarelo que mudava de lugar. A cala continuava
dobrada sobre a mala coberta de poeira. A sentinela
cochilava no porto do palcio, encostada ao fuzi; An-
dr Laerte andava como um gato; Amaro vaqueiro,
aboiando, laava a novilha careta; cabo Jos da Luz
' caminhava para a cadeia pblica, todo pachola; Da-
goberto punha na minha cama a cesta de ossos e o
compndio de anatomia. Eu negava o livro que estava
aberto em cima do colcho. Tinham deixado ali aquele
volume intil. Lia-o pensando em ossos. Provavelmente
fora Moiss que o trouxera para me distrair. As pala-
vras iam-se tornando claras, mas no se reuniam. Bom
camarada, Moiss. Dera-me um livro para me distrair.
A rstia descia a cadeira, atravessava os tijolos e ga-
nhava w parede. O cego dos bilhetes de loteria apregoava
o nmero, batendo com o cajado no cho do caf; a
mulher da Rua da Lama cruzava os dedos magros nos
joelhos; Lobisomem parecia um velho decrpito. Essas
figuras vinham sem nitidez, confundiam-se. Antnia
arrastava os chinelos, mostrava as pernas cobertas de
marcas de feridas e cantava uma cantiga vagabunda.
Mas a cantiga se transformava: "Assentei praa. Na
polfcia eu vivo..." E Antnia era o cabo Jos da Luz.
Em p, defronte da prensa de farinha, oferecia-me uma
xfcara de caf. Antnia, cabo Jos da Luz, Rosenda
- uma pessoa s. As vezes apareciam trs corpos juntos
com rostos iguais, outras vezes era um corpo com trs
cabeas. Afinal surgia um vfvente que tinha trs nomes.
220
' Agarrava-me ao livro, compreendia vagamente o que
,
estava escrito, mas ficava-me a certeza de que havia ali
vrios trabalhos, feitos por muitos indivduos. Chineses.
Uns chineses briges, revoltados. Lembrava-me dos chi-
neses que lavam roupa, fabricam ventarolas, vendem
' bagatelas, juntam-se s caboclas. Muitos livros arruma-
dos, formando um livro incompreensivel. Fernando In-
guitaf andava pela Rua do Comrcio, o brao carregado
de voltas de contas, o cigarro babado no beio que se
arregaava, descobrindo os dentes enormes num sorriso
parado. O som da vitrola ia quase desaparecendo, a la-
gartixa subia a parede. Amaro vaqueiro, agitando o lao,
mastigava o cigarro de palha e mostrava os dentes
pretos num sorriso parado. A cadeira suja de poeira,
a mala suja de poeira. A roupa havia desaparecido.
Seria bom levantar-me, procurar qualquer coisa para
 me vestir. Pouco tempo antes a roupa estava ali, no
! encosto da cadeira e em cima da mala. De repente um
sumio. Quem me tinha dito aquele nome estranho?
#
; Fernando Inguitai, a lagartixa, a rstia, Amaro va-
queiro. A vitrola cantava baixinho: - "Fernando In-
guitai." Tentava sentar-me. Se isto me fosse poss.vel,
procuraria roupa. Virava-me com dificuldade. Porque
no entrava logo a pessoa que estava na sala? - "Obri-
gado, Vitria. No quero comer. Traga um copo de
gua." Vitria afastava-se arrastando os ps, levando a
bandeja com a comida que me dava engulhos. Minutos
depois, l vinha, chap, chap, resmungando, a cara fe-
chada, e entreava-me o copo. Eu bebia, molhando as
cobertas. - "Obrigado, Rosenda." Ficava suando e ar-
quejando, a vista escurecia, estirava-me na prensa de
farinha, junto ao muro. O barulho do descaroador
de algodo no me deixava dormir, os passos de Vitria
morriam no corredor. Meu pai estava deitado, muito
comprido, envolto num pano que se dobrava entre as
pernas e tinha no lugar da cara uma ndoa vermelha
cheia de moscas. As moscas no se mexiam, mas faziam
um zumbido horrivel de carapan.s. O olho de vidro de
padre In.cio estava parado, suspenso no ar, fora
do corpo. A batina de padre Incio, o capote do velho
' Acrfsio, a farda de cabo Jos da Luz e o vestido ver-
f
 melho de Rosenda estavam parados, suspensos no ar,
221
sem corpos. As carapans zumbiam. Os ps de Camilo
Pereira da Silva, escuros, ossudos, safam por uma das
pontas do marqueso, medonhos Eu atravessava o cor-
redor, ia  sala, voltava a deitar-me na prensa, abria
o livro que tinha chineses revolta,rlns. Mas as plpebras
a cerravam-se, as carapans e o descaroador enchiam-me
a cabea. Que motivo tinha Fernando Inguitai para
rir-se? Empurrava os travesseiros e tentava abrir os
olhos. Se pudesse levantar-me, tudo aquilo desapare-
ceria. Iria conversar com o homem que me esperava
na sala. - "No h chins chamado Fernando." Onde
' tinha ouvido aquele nome de Inguftaf? Se Vitria me
trouxesse um copo de gua. .. Ali com sede, morrendo,
sem um diabo que me desse uma xicara de caf, um
copo de gua! Embalava-me com isto: - "Sozinho,
sozinho, morrendo  mingua, com sede." Era bom que
todos estivessem longe. O continuo da repartio, to
magro, to velho, to triste, movia-se trpego. D. Ad-
lia danara como carrapeta, e agora era aquilo que se
vfa, mole, acabada, uma lstima. Albertina de tal, par-
teira diplomada. Quando eu entrava na repartio,
apressado e fora da hora, o contnuo velho tinha um
sorriso doce e alguma informao til. Os meus olhos
abriam-se, fechavam-se, tornavam a abrir-se. Os caibros
engrossavam, torciam-se, alvacentos e repugnantes como
cobras descascadas. "Greve no caso de reao." Alguns
letreiros estavam raspados, outros desapareciam sob as
manchas que as guas da chuva tinham produzido. Mas
havia letreiros novos. As crianas das escolas olhavam
ara eles. O homem cabeludo que vendia aguardente
p cuidava da sua vida. Albertina de tal, parteira diplo-
mada. Onde estava a minha roupa? Queria vestir-me,
sair pela rua, ler os jornais. Que diziam os jornais?
Subir o morro do Farol, entrar nas bodegas, beber ca-
chaa. Seu Ivo me visitara, acocorara-se junto  parede.
- "Leve a roupa, seu Ivo." Seu Ivo tinha vestido a
cala rasgada e o palet sujo. Talvez no tivesse ves-
tido aquela imundfcie, talvez fosse tudo um sonho. Um
homem na sala esperava com pacincia que me restabe-
lecesse. Sair, entrar no caf, viajar nos bondes. Onde
estava a minha roupa? A cadeira perto da cama, o livro
fechado sobre a palha. - "Leve isso daf, seu Ivo.
222
i
I
#
A cala est rasgada. Cosa o rasgo com uma corda."
Albertina de tal, parteira diplomada. Escurido. Um
estremecimento, uma queda. Ia cair da cama, o cho
se abriria, eu rolaria pelos sculos dos sculos fora
disto. O espfrito de Deus boiava sobre as guas. Livra-
va-me do susto, pouco a pouco ia resvalando no entor-
pecimento. Os caibros faziam voltas, as telhas se equf-
libravam por milagre. Algumas dobras daquelas coisas
brancas e moles desciam, aproximavam-se da minha
boca, davarrx-me nuseas. A vitrola dizia: - "Fernando
Inguitai." Os reisados cantavam defronte da casa de seu
Batista. Os mateus gritavam: - "Abra a porta, ioi."
E as figuras todas: "Aqui estou na vossa porta como
um feixinho de lenha." Seu Batista no abria: espe-
rava a cantiga que fazia as janelas se escancararem.
E as figuras, o embaixador, o rei, a burrinha, os ma-
teus, ficavam na calada como um feixinho de lenha,
fedendo a suor, gemendo os versos, at que seu Batista,
importante, abria a sala, surgia vistoso, baixinho, ves-
tido em rcbe-de-chambre. O feixinho de lenha entrava
e cantava, seu Batista recolhia os capacetes dos ma-
teus, a coroa do rei, a espada do errbaixador, os lenos
das figuras, punha uns nqueis em tudo isso. O zumbido
das carapans era insuportvel. - "Um copo de gua,
Vitria." Vitria no ouvia, e a leseira recomeava. No
havia escurido, a rstia subia a parede. - "Leve a
roupa, seu Ivo." Seu Ivo se acocorara a um canto,
silencioso, babando-se. Pimentel no aparecia. Devia ter
aparecido, mas no me lembrava dele. Com certeza vie-
ra num momento em que a febre era muito forte. Que
doidices teria eu dito na presena de Pimentel? Um,
dois, um, dois. Marchava - e no podia levantar-me
da cama. Quatro paredes. As quatro paredes da re-
partio esmagavam-me. Algumas horas depois da fun-
o, o feixinho de lenha, composto de mateus, figuras,
burrinha, rei, embaixador, suaria arrastando a enxada
no eito. - "Parem essa vitrola." Fernando Inguitai,
o brao carregado de voltas de contas, andava pela Rua
do Comrcio, fumando, sorrindo. Haveria algum neste
mundo que se chamasse Inguitai? As cascavis e as
jararacas tomavam banho com a gente no poo da
Pedra. Uma delas se enroscara no pescoo de meu av.
223
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva sapar
teava no cho de terra batida, uma alpercata salta-
va-lhe do p. Instituto Iistrico e C+eogrfico do Esp-
rito Santo, Instituto I4istrico e Cleogrfico do Rio
Gfrande do Sul. Ria-me como um idiota. Provavelmente
havia institutos histricos e geogrficos por esses lu-
gares. Certas pessoas empurravam outras nas escadas
e diziam: - "Desculpe:' O cego dos bilhetes de loteria
cantava o nmero, batendo cam o cajado no cimento
do caf. Virava-me para o espelho. Por detrs das letras
brancas, rostos medonhos arreganhavam os dentes e
piscavam os olhos. As letra,s torciam-se, os caibros tor-
ciam-se, baixavam, brancos, moles, como cobras descas-
cadas, 1e.384. O cajado batendo no cimento, avanando
, para mim, ameaando-me com uma tira de papel, que
? engrossava e queria morder-me. Moiss aproximava-se,
' comprava a tira de papel, que se enrolava nos dedoa
dele, e lia em voz alta uma infinidade de vezes: -
"16.384." Eu ia fugir, mas Fernando Inguitai estava na
calada, esperando-me para vender uma volta de contas.
- "Vai-te embora, Moiss." No queria voltas de con-
tas nem queria ouvir a leitura daquele nmero. No
era nmero: eram palavras incompreensiveis, histrias
da China. Moiss virava a pgina, que ficava mexen-
do-se. A cadeira mexia-se. Afastava-me, com medo da
cadeira. No dia seguinte, quando viesse varrer o quarto,
, Vitria a poria no lugar do costume, junto  mala, mas
#
durante uma noite inteira o mvel caprichoso no me
deixaria descansar. Eu tremia e receava que Moiss se
losse embora. Voltaria o silncio, a cadeira se chegara
mais  cama. - "Continue, Moiss. E isso mesmo." No
o entendia, mas aprovava-o com a cabea e com pala-
vras assim. A voz rolava, lenta e montona, o dedo
comprido virava a pgina e gesticulava diante da mi
nha cara. Passavam chineses armados. E o dedo enro,
la,va-se, dava um n. A leitura era um zumbido, un
enxae de carapans lia o livro dificil. Estava a ba
lanar-se numa rede, ia acima e vinha abaixo. E quan-
do subia, abria os olhos, via o dedo perto das minhas
ventas; quando descia, ouvia o arranhar da vitrola. Os
ratos do armrio dos livros roiam o disco da vitrola,
e a vitrola dizia baixinho: - "Fernando Inguitai."
224
i
A rstia sumia-se, Moiss levantava-se, puxa.va a cor
rentinha da lmpada, tornava a sentar-se. - "Obrigar
do, Moiss." Ali perdendo tempo, lendo para me distrair.
Excelente camarada. - 'E preciso que dr. Ciouveia man
de limpar estas paredes." Cafa em mim, arrepen-
dia-me de ter falado. Certamente as paredes necessita
vam limpeza, zangar-me-fa se algum me dissesse que
no, mas a necessidade exigia explicao, e no me
poderia fazer compreender. Ao mesmo tempo temia que
o judeu mangasse de mim por eu haver interrompido a
leitura com uma frase besta tamos discutir. fteceava
encolerizar-me e ser grosseiro com um visitante. Se ele
concordasse comigo, seria por eu estar doente. No me
conformava com isto. Preciso da condescendncia dos
outros? Sou alguma criana? Porque tinha ele suspen-
dido a leitura e esbugalhava para mim aqueles olhos
de mal-assombrado? Seria melhor destampar logo e de
clarar francamente que as paredes no necessitavam
limpeza. De qualquer modo seria fcil um rompimento
entre ns. Cada qual para o seu lado, cada qual com
as suas idias. Moiss levantava-se, despedia-se. Eu es-
condia as mos nas cobertas, enrolava o pano debaixo
do queixo e tremia, pedia-lhe com os olhos que no
me deixasse s entre aquelas paredes horrfveis. Agora
Moiss me havia abandonado, e eu batia os dentes como
um caititu. As paredes cobriam-se de letreiros incendi-
rios, de lgrimas pretas de piche. As letras moviam-se
deixavam espaos que eram preenchidos. Estava ali um
tipgrafo emendando composio. E o piche corria, der-
ramava-se no tijolo. Ameaas de greves, pedaos da
Internacional. Um, dois... Impossivel contar a,s legen-
das subversivas. Havia umas enormes, que iam de um
ao outro lado do quarto; uma,z pequeninas, que se tor-
ciam como cobras, arregadavam os olhinhos de cobras
mostravam a lingua e chocalhavam a cauda. As letras
tinham cara de gente e arregaavam os beios com fero-
cidade. A mulher que lava garrafas e o homem que
enche dornas agitavam-se na parede como borboletas
espetadas e formavam letreiros com outras pessoas que
lavavam garrafas, enchiam dornas e faziam coisas dife-
rentes. A datilgrafa dos olhos agateados tossia, as
filhas de Lobisomem encolhiam-se por detrs das ou-
225
tras letras, AntBnia arrastava as pernas grossas cober
tas de marcas de feridas, a mulher da Rua da Lama
''' cruzava as mos sobre o joelho magro e curvava-se
para esconder as pelancas da barriga escura. Um choro
longo subia e descia: - "Que ser de mim? Valha-me
Nossa Senhora." Um moleque morria devagar, mutila.
do, porque havia arrancado os tampos da filha do
patro. Fazia um gorgolejo medonho e vertia piche das
chagas. 16.384. O cego dos bilhetes batia com o cajado
, na parede. - "Afastem esta cadeira." Seu Ivo estava de
#
ccoras, misturado s outras letras. A cala rasgada
' e o palet sujo eram cor de piche. Cirilo de Engrcia,
carregado de cartucheiras e punhais, encostava-se a uma
rvore, amarrado, os cabelos cobrindo o rosto, os ps
com os dedos para baixo. A sentinela cochilava no por-
to do palcio. Um ventre enorme crescia na parede
,
uma criatura mal vestida passava arrastando a filha
,; pequena, um brilho de dio no olho nico. Sinha Terta
gemia: - "Minha santa Margarida.. " O dono da bo-
dega, triste, fincava os cotovelos no. balco engordu-
rado. As crianas faziam voltas em redor da barca de
terra e varas. A rapariga pintada de vermelho espalhava
um cheiro esquisito. O engraxate escutava histrias de
capueiras.  O homem acaboclado cruzava os braos, moa-
trando bfceps enormes. O mendigo estirava a perna
entrapada e ensangentada. As mosc:.s dormiam, e o
mendigo, com a muleta esquecida, bebia cachaa e ria.
Passos na calada. Quem ia entrar? Quem tinha neg-
cio comigo quela hora? Necessrio Vitria fechar as
portas e despedir o hspede incmodo que no se arre-
dava da sala. Mas Vitria contava moedas, na parede,
resmungava a entrada e a sada dos navios. A placa azul
de d. Albertina escondia-se a um canto, suja de piche.
Todo aquele pessoal entendia-se perfeitamente. O ho-
mem cabeludo que s cuidava da sua vida, a mulher
que trazia uma garrafa pendurada ao dedo por um
cordo, Rosenda, cabo Jos da Luz, Amaro vaqueiro,
as figuras do reisado, um vagabundo que dormia nos
bancos dos jardins, outro vagabundo que dormia de-
baixo das rvores, tudo estava na parede, fazendo um
zumbido de carapans, um burburinho que ia crescendo
e se transformava em grande clamor. Jos Baa acenar
226
varme de longe, sorrindo, mostrando as gengivas ba
guelas e agitando os cabelos brancos. - "Jos Bafa,
meu irmo, ests tambm a?" Jos Baa, tr8pego, rom
pia a archa. Um, dois, um, dois. . A multido que
fervilhava na parede acompanhava Jos Baa e vinha
deitar se na minha cama. Quitria, sfnha Terta, o cego
dos bilhetes, o contnuo da repartio, os cangaceiros
e os vagabundos, vinham deitar-se na minha c,ama.
Cfrilo de Engrcia, esticado, amarrado, marchando nas
pontas dos ps mortos que no tocavam o cho, vinha
deitar-se na minha cama. Fernando Inguitai, com o
brao carregado de voltas de contas, vinha deitar se na
minha cama. As riscas de piche cruzavam-se, forma-
vam grades. - "Jos Baia, meu irmo, h que tempo!"
As crianas corriam em torno da barca. - "Jos Baa,,
meu irmo, estamos to velhos! " Acomodavam-se todos.
16.384. Um colcho de paina. Milhares de figurinhas
insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante e
mexia-me com cuidado gara no molestar as outras.
16.384. famos descansar. Um colcho de pain&
. s
22?
T
Viso de Graciliano Ramos
oTTo  cBux
A mestrio singular do romancista Graciliano Ramo,t
reside no seu estilo. Para salvar esta frase da apreciao
como "lugar-comum"  preciso definir o que  estilo: escolha
de palavras, escolha de construes sintticas, escolha de rit-
mos dos fatos, escolha dos prprios fatos, para conseguir uma
composio perfeitamente pessoal: pessoal, no caso, "d ma
neira de Graciliano Ramos". Estilo  escolha entre o que
deve f icar na pgina escrita e o que deve ser omitido; entre
o que deve perecer e o que deve sobrevlver. Vamos ver o que
Graciliano Ramos escolhe.
B muito meticuloso. Quer eliminar tudo o que no 
#
essencial, as descries pitorescas, o lugar-comum das frases-
feitas, a eloqncia tendenciosa. Seria capaz de eliminar ain-
da pginas lnteiras, capttulos inteiros, eliminar os seus roman-
ce inteiros, eliminar o prprio mundo: para guardar apenaJ
aquilo que  essencial, isto , conforme o conceito de Bene-
detto Croce, o elemento "lfrico". O lirismo de Graciliano
Ramos, porm,  bem estranho. No tem nada de musical,
nada do desejo de dissolver em canto o mundo das coisas;
acredito-o incapaz de escrever o ltima pgina de Moleque
Ricardo, de los Lins do Rgo, talvez a mais comovente
pgina de prosa da literatura brasileira. O lirismo de Graci
liano Ramos  amusical, adinmico;  esttico, sbrio, clbssi-
co, classicista, traindo d,i vezes, num oculto passado parna-
siano do escritor. No quer dissolver o mundo agitado, quer
fix-lo, estabiliz-lo. Elimina implacavelmente tudo o qus
no se presta a tal obra de escultor, dissolve.o em ridicula-
rias, para dar lugar aos seus monumentos de baixeur.
Com efeito, o material desse classicista  bem estranho:
 o mundo in f erior; s maiJ das vezes, o mundo inf ernal. L,
231
as almas so caadas por um turbilho demonaco de angs-
tias, como as almas no trio do Inferno de Dante:
"Quivi sospiri, pianti ed altl guai
Risonavan per !'aer senza stelle...
Diverse lingue, orribili /avelle
Parole di dolore, accenli d'iro...
uma fortuna sem fim; o prprio Dante apiedou-se
dos que
. nor hanno speranzn di morte,
E ta lor creca vita  tanto bo.ssa,
Che invidiosi son d'agni altra sorle."
So aqueles dos quais o romancista Graciliano RamoJ
tambm se apieda: pois esse homem aparentemente to duro
est cheio de misericrdia. Procura-Ihes a "altra sorte", esta-
bilizando, classicamente, o turbilho, eliminarulo tudo o que
no  essencial; erigindo-os em monumentos dt baixeza, como
criaturas petrijicodas dum maligno Demiurgo, restos fsJeiJ
duma criao malograda, redimidos, enfim, pela criao mor-
tfera da arte. Graciliano Ramos  o clssico deste mundo
da mortc.
E' um clssico. Mas - contradio enigmtica -  urn
clbssico experimentedor. A estria excepcionalmente tardia,
com mais de quarenta anos de idade, deve ter sido precedida
de vagarosos preparativos dum experimentador; e mesmo
depois continuou sempre experimentado. O nosso amigo co-
mum Aurlio Buarque de Holanda chamou-me a ateno
para a circunstncia de representar cada uma das obras de
Graciliano Ramos um tipo dijerente de romance. Com ejeito:
Caets  dum Ea brasileiro; So Bernardo tem algo de um
Balzac rural; Angstia antecipa o "nouveau roman" e Vidas
Secas lembra certos contistas russos, Babel por exemplo. Gra-
ciliano Ramos faz experimentos com a sua arte; mas como esse
mestre singular no precisa disso, temos af um indcio certo
de que est buscando a soluo dum problema vital.
Eu no disse nada para comparar. Comparaes so
fceis e inteis, produzem apenas apreciaes de clich. No
chegam a penetrar no corao da criao pessoal; e justamen-
te isto  a minha mui modesta ambio. Para tent-lo, vou
232
escolher um processo estranho, estranho como o meu assun-
to. Vou construir uma teoria para apanhar a minha vma,
vou constru-la de pedaos de outras criaes, alheias, com
as quai:: Graciliano Ramos no tem nada que ver, vou colher
esses pedaos, entregando-me ao jogo livre das associaes.
"Gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de
mim, que  di f erente da outra, mas que se con f unde com
ela." Vou construir o meu Graciliano Ramos.
"Meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava
dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do
copiar, cortando palhas de milho para cigarros, lendo o Car-
#
los Magno, sonhando... ' Logo me lembro do pintor incom-
parvel da vida esttica, imvel, inconsciente, nos "engenhos"
escravocratas da Rssia tzarista, daquele Gontcharov de quem
me Iembrei quando j Ii comparaes do Brasil escravocrata
com a Rssia servil. Os romances de Gontcharov pintam
classicamente um mundo primitivo, amoral, "a-trabalhador",
preguioso demais para trabalhar, amar, viver. Parecem id-
lios de pura "art pour 1'art"; so acusaes terrveis contra
o regime, contra o Estado russo, que quis rnovimentar esse
mundo imvel por pretensas reformas econ6micas e sociais.
O primeiro romance de Gontcharov chama-se: Uma Histria
Simples; o ltimo: A Queda.
O satrico malicioso dagueles movimentos  outro russo
que me ocorre, Saltykov-Chtchedrin, tambm partidrio da
imoifidade conservadora, contra os experimentos liberais dos
tzares de ento, e gue a todos pareceu um revolucionrio,
menos  censura, d qual e1e sabia enganar pela sua mestria
singular de estilista. Saltykov escreveu uma maravilhosa His-
tria da Rssia, romanceada, comeando com a chamada,
pelo povo russo, dos trs irmos Ruriks, fundadores da dincts-
tia, para "sistematizar e codificar a desordem e a violncia".
 boa maneira das epopias, os irmos sonham, na noite ante-
rior d coroao, a futura histria russa, e o sonho  to ter-
rfvel que dois dos irmos logo se suicidam. Ao terceiro, po-
rm, diz o povo: "Que te Importam as mentiras que os nossos
descendentes vo aprender na escola?" E ele funda o imprio
russo, "o maior imprio da histria, maior do que Roma; pois
em Roma brilhava o paganismo, e entre ns brilha do mesmo
mvdo o cristianismo; em Roma raivava a plebe, e entre ru5s
raiavam do mesmo modo as autoridades". Assim, tudo ficava
bem. At que, um dia, um tzar teve a idia desgraadca de
233
reformar o Bstado e a civilizao. Fundou uma Academia
de Letras e promulgou uma legislao social, em virtude da
qual "foi proibido cozer po de cimento ou argamassa". O
povo, agradecido, povoou a cidade de monumentos dos seus
prfncipes, na esperana de fazer petrificar, parar, assim, as
atividades deles. Mas, pelos beneffcios do governo, os homens
transformaram-se em lobos famintos, como numa fbula de
Saltykov, O Pobre Lobo, o monstro que no  maligno,
mas que no pode viver sem carne e que, por isso, deve
matar, e invoca a morte salvadora para as vftimas e para si
mesmo.
O monstro lembrcme, por sua vez, o terrfvel Leviat,
de lulien Green, que vive no corao de inofensivos mestres-
escolas, filhas de famflia, rendeiros abastados, para revol-
tar-se de sbito, um dia, arremessar-se insaciavelmente, o
monstro, por quartos de assassnios, escadas funestas, becos
escuros, at descansar, esgotado,  margem do rio noturno,
que corre lento, sujo, pela cidade, nico resto da paisagem
primitiva que existia antes desse mundo artificial e miservel
de instituies pblicas, jornais pblicos, mulheres pblicas, e
que ainda existir quando tudo isto houver acabado. E o
monstro desgraado curva-se nostalgicamente sobre a gua
escura, suja, que Ihe oferece a ltima possibilidade de salva-
o: o prprio rosto, refletido l no fundo,  o da moste.
Todos os personagens de Graciliano Ramos so tais
monstros, revoltedos, caados, nostlgicos da morte, com os
quais o Demiurgo. o "presidente dos imorta.'s", brinca. A ex-
presso "the president of the immortats"  de Thomas Har-
dy, intelectual pequeno-burgus, perdido no "serto" ingls
de Wessex, a paisagem mais agrria, mais atrasada, mais pri-
mitiva da Inglaterra, onde se passam todos os seus romances,
t para onde o velho Hardy enfim se retirou, a viver a vida
arcaica e imvel dos rochedos e pdntanos, abandonando,
enfim, o romance para fazer s os seus pequenos poemas
endurecidos como monumentos pr-histricos, e cujas rimas
jielmente tradicionais anunciam a reconciliao resignada do
poeta com o mundo morto:
'Btaek lJ ntght's eope;
#
But death xrill not appat
One who, past dgubtingJ all.
Waita !n tmhopr.'
O crftico espanhol los Bergamin gostaria dessas assv-
ciaes. Confirmam a sua teoria do romance: o leitor perde-
se no romance para esquecer o seu mundo, mas reeneontra-se
I, reconhecendo que o seu prprio mundo est chamado a
desaparecer: "Perderse para encontrarse, para perderse." O
romance seria um processo de economia mental para apressar
o fim do mundo: "Cada novela es la manifestacin de um
mundo llamado a desaparecer, y que antes de desaparecer
quiere aparecer, comparecer: y aparece, comparece em efecto,
solicitando, esperando ser juzgado."
B a teoria dum espanhol, dum cristo, dum pessimista.
A teoria dum espanhol, isto , dum homem que toma radi-
calmente a srio o cristianismo. A teoria dum cristo, isto
, dum homem que sabe que esta vida no presta. , uma
teoria de esttica pessimista.
Toda literaturcr pessimista eneontra uma resistncia fan-
tica; Ieitores e crticos no gostam disso. Sentem vagamente
que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estu-
darem esteticamente a possvel contradio, entrincheiram-s
em regires fora da arte, nn filosofia, na tica, para bombar-
dear o romancista com as censuras de "pouca generosidade"
ou de nlismo nsaudvel. No admito preconceitos. O pes-
simismo no  uma moral nem uma filosofia.  um estado
de crlma. B preciso esboar uma psicologia do pessimismo.
Penso em Schopenhauer. No  um sistema filosfico.
L um caso psicolgico. Pretendeu ser filsofo, ensinar uma
filosofia da salvao do mundo do sofrimento universal. Mas
a sua personalidade o desmentiu. Ao desprezo filosfico do
mundo uniu um instinto ardente de propriedade e de prazer.
Dinheiro e mulheres signi ficavam-!he al,quma coisa. Quis uti-
lizar os homens profundamente desdenhados como meros ins-
trumentos dos seus desejos, e quanto mais eles se recusaram,
tanto mais os desdenhou. Sofria de hipocondria, de graves ata-
ques de pavor noturno, de angstia. Teve uma misericrdia
ilimitada para consi,go mesmo. Como psiclogo, reconheceu
que toda misericrdia para com outros  secreta miscricrdia
para consigo mesmo: e salvou-se moralmente pela ide.ntifica-
o pantefsta do seu eu angustiado com o mundo sof redor,
pela frmula budista: "Tat twam asi", "Isto, s tu". O seu
supremo egocentrismo chegou at a negar a realidade do mun-
do exterior; considerou a vida um sonho, sonho horrfvel do
qual existe apencu uma possibilidade de acordar: em outro
235
conho, na arte. Na arte, o turilho angustiado encontra a
calma; a estabilidade do estado primitivo antes da criao
 restabelecida. (Como as palavras rimarn, enjim.) A arte 
uma astcia do esprito humano, para f raudar o mau Demiur-
go das suas vtimas, para ironizar a criao malograda.
A ironia  uma arma suprema. "C'est 1'ironie" - diz
Max lacob - "qui 1ui fournit chaque jour une c1 pour sor-
tir de sa prison".  um mtodo para anular a obra do De-
miurgo. '"Revogam-se as disposies em contrrio". E tor-
nam-se inteiJ todas as revolues. Em comparao corn
aguela ironia supra-realista, todas as revolues, intimamente
ligadas a este mundo de maldio por meio dum otimismo
crdulo nas transformaes exteriores, parecem ridiculamente
ineptas, impotentes contra "the ingenious machinery contrived
by the Gods for reducing human possibilities of amelioralion
to a minimum". Acredito que Graciliann Ramos pode con-
formar-se com esta frase de Thomas Hardy. Suas convices
so as de um revolucionrio. Graciliano tem o direito e o
dever de manter suas convices revolucionrias. Mas es.ar
no seriam transformveis em arte, o no ser passando pela
fase transicional da eloqncia, que Graciliano detesta. Real-
mente, para Graciliano no so transformveis em arte; e isto
 significativo. Lus Padilha e o judeu Moiss no so heris
revolucionrioJ. Cada vez que o romancista cede d tentao
#
de formular programas de reformas sociais - c profe.ssora
Madalena fala assim - cai logo na armadilha do seu inimigo
mais detestado: 0 lugc,.r-comum; no caso o lugar-comum hu-
manitrio, da "generosidade", que o seu crtico mais incom-
preensivo lhe aconselhou. Certamente, a alma deste roman-
cista seco no  seca;  cheia de misericrdia e de simpatia
para com todas as criaturas,  muito mais vasta do que um
mestre-eseola filantrpico pode imaginar: abrange at o mudo
assassino Casimiro Lopes, at a cachorrinha Baleia, cuja mor
te me comoveu intensamente: "Tat twan asi". A misericrdia
do pessimista para consigo mesrno  to compreensiva que
medita todos oJ meios de salvao, para deter-se apena.s na
ltima: a destruio deste rnundo, para libertar todas as crio-
turas. "Un mundo, llamado a desaparecer." R preciso destruir
o mundo exterior para salvar a alma.
A realidade, nos romances de Graciliano Ramos, no 
deJte mundo.  uma realidade diferente. Ap,r ter lido
Angstia at o fim,  preciso reler as primeiras pginas, para
Z36
compreend"las. B um mundo jechado em si mesmo. Que
mundo T
"N ncu minhas recordaes estranhos hiatos. Fixaram-
se coisas insigni f icantes. Depois um esquecimento quase com-
pleto" - confessa Lu da Silva em Angstia. E depois:
"Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto,
perturbam a gente. Vamos andando sem nada ver. O mundo
 empastado e nevoento." E confessa: "No sei se com os
outros se d o mesmo. Comigo  assim."  assim com todos
ns outros, quando entramos no mundo empastado e nevoen-
to, noturno, onde os romances de Graciliano Ramos se pas-
sam: no sonho. Os hiatos rias recordaes, a carga de .acon-
tecimentos insignificantes com fortes aJetos inexplicveis, eis
a prpria "tcnica do sonho", no dizer de Freud. Ilvaro Lins,
no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos,
observa agudamente a abstrao do tempo - "Mas no tempo,
no havia horas", cita o crtico - e acrescenta: "As outr,r
personagens so projees da personagern principal. 7ulio
Tavares e Marina s existem para que Lus da Silva se ator
mente e rometa o seu crime. Tudo vem ao encontro da per
sonagem principal - inclusive o instrumento do crime." Esta,t
palavras do crtico constituem a chave da obra do roman-
cista: descrevem perfeitamente a nossa situao no sonho, em
qut tudo  criao do nosso prprio tspFrito. Explica-se aJ-
sim o extremo egofsmo dos heris de Graciliano Ramos:  o
egotsmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro durn
mundo irreal, s ele mesmo existe realmente. A mentalidade
inteiramente amoral do sonho exclui, decerto, toda "generosi-
dade"; mas a substitui por um sentimento mais vasto de iden-
tificao quase mfstica com as criaturas da prpria imagina-
o, at a cachorrinha Baleia: "Tat twan asl."
O extremo egotsmo do sonho engendra o motivo prln-
cipal do romancista: cobia de propriedade. Propriedade de
ttrra, de mulher, em So &rnardo; oqui e em Angstia, a
forma extrema de.rta cobia, o cime. Por isso, nos romances
de Graciliano Ramos, esses aftto,r ultrapassam toda rrfedida;
sugerem, ao lado doJ afetos anlogos na vida real, a impres-
so de sentimentos patolgicos. E quando o autor coruidera
os monstros da sua angstia de sonho, lana o seu grito
mais elementar: "Dinheiro e propriedade do,me Jempre de-
sejos violentos de mortandade e outraJ destrule.t." So palo.
vras que exprimern, de maneira perfeita, o duplo stntido do
837
pensamento de Graciliano Ramos: de um lado, seu socialis-
mo revolucionrio, Iigeiramente tingido de veleidades de anar-
quista, das suas convices scio-polfticas; por outro lado,
esse mesmo anarquismo, sublimado at a capacidade de cons-
truir, em cima da terra arrasada, um mundo novo, o da cria-
o artstica.
Todos os romances de Graciliano Ramos - e este 
o sentido do seu experimentar - so tentativas de destrui-
#
o: tentativas de "acabar com a minha memria", tentativas
de dissolver as recordaes pelos "estranhos hiatos" dum
sonho angustiado
Trata-se de saber que mundo de recordaes se dissolve
assim. A resposta  bastante dif fcil. Surge o clich de que
Graciliano teria sido, na mocidade, um f rustrado sertanejo
culto": e sugere aos crticos a idia de que o romancista est
furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas no
 assim. No  o serto o culpado; Vidas Secas  o seu ro-
mance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista.
O culpado  - superficialmente visto numa primeira aproxi
mao - a cidade. O heri de Graciliano Ramos  o serta
nejo desarraigado, levado do mundo primitivo, imvel, parc
o mundo do movimento. E o vagabundo ("um pobre nordesti
no. . . "); e explica-se o seu dio balzaquiano ao mundo bur
gus, que conseguiu a estabilidade relativa do comrcio d
secos e molhartos. Esta vagabundagem  o aspecto sociolgi
co do egofsmo do sonho quando se choca com a realidade. i
o desejo violento do vagabundo de restaelecer-se na terra
"Como a cidade me afastara de meus avs." Mas  apena
uma explicao em primeira aproximao: pois Paulo Honri
consegue o seu fim, e, contudo,  uma vida malograda. Po
qu? Porque o seu criador quer mais do que terra, casa, di
nheiro, mulher. Quer realmente voltar aos avs. Voltar 
imobilidade,  estabilidade do mundo primitivo. E para ctin
gir este jim, deve antes destruir o mundo da agitao angu
.tiada, na qual est pres.
Os romances de Graciliano Ramos so experimentos par
acabar com o sonho de angstia que  esta vida. Uma lend
budista conta dum homem que correu, ao sol do meio-du
para fugir  sua sombra, que o angustiava; correu, corre
sempre perseguido pelo companheiro sinistro, at que encor
trou o grande Sbio, que Ihe disse: "No continues a f ugi
Assenta-te sob esta rvore." E como ele parou, a somb
238
desapareceu. A sombra sobre o mundo de Graciliano Ra-
mos no  a sombra da rvore da salvao, mas do ediffcio
da nossa civilizao artificial - cultura e analfabetismo le-
trados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades tem-
porais e espirituais, que ele convida ironicamente - no come-
o de So Bernardo - a colaborar na sua obra de destruio.
Mas eles mostram-se incapazes de cometer o suicdio propos-
to. Entrincheiram-se na "dura realidade", imposta a todas as
criaturas do Demiurgo, e que se arroga todos os atributos da
eternidade. O romancista, porm, no se conforma. Trans-
forma esta vida real em sonho - pois ao sonho, enfim se
acorda. Ento, as disposies junestas do Demiurgo seriam
revogadas, e o destruidor poderia dizer, com o Gide das
Nouvelles Nourritures: "Table rase. I'ai tout balay. C'en est
jait. le me dresse nu sur la terre virge, derrire le ciel d
repeupler."
O fim  o estado primitivo do mundo - o cu repovoa-
do. Ento, a angstia j no assusta.
"Black is night's cope;
But death will not appal
One who. past doubtings atl,
WaitJ in unhape."
Foi a ltima sabedoria potica do romancista Thomas
tlardy, versos duros populares e clssicos ao mesmo tempo,
rimados em sinal da concordncia resi,qnada com o mundo
- teria sido possvel gue o romc..ncista Graciliano Rmos
escrevesse tambm, um dia, tais versos. duros, populares e
clssicos ao mesmo tempo, versos tradicionais, como os do
velho Hardy. Mas no seriam rimados, seriam versos bran-
cos. Pois a primeira rima de Graciliano Ramos j anuncica-
ria o Fim do Mundo e - quem sabe - a salvao deste
mundo.
239
pen
mo
#
qui
esse
trui
o
os
a
de
son
uss
Gr
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c
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O
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    Este livro foi digitalizado por Paulo Srgio Resende de Lmeida, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..
